terça-feira, 14 de julho de 2015

Perto demais

Ainda tá é longe de acabar, mas se me perguntassem hoje qual foi a maior coisa que o mestrado me ensinou eu diria que foi aprender a ser só. Tal como a escrita, como boiar no mar, como acordar no domingo antes do dia raiar: o processo é quieto e solitário. 

Foi-se um semestre, chegou o fim das primeiras aulas, e já sinto falta dos goles de ânimo que a gente tomava antes mesmo do café. A agonia de ir dormir sem conseguir ler tudo. A perna bamba antes de cada seminário. A constrangedora e inesquecível bronca do meu orientador. O nome do nosso grupo de whatsapp transformado cotidianamente em piada perecível. Eu xingava tudo, mas era um ódio de amor. 

Com o tempo, perto demais virou sufoco. Eu precisei ficar sozinha, respirar, sentir meu próprio tempo das coisas sem tentar acompanhar o ritmo de ninguém. Esse crescimento é meu, não há quem possa vivê-lo por mim e, modéstia à parte, poucos foram os conselhos que me serviram até aqui de algo. E esse foi talvez o primeiro grande baque dessa nova fase. Saber sobre estar só.

Aí sábado eu percebi que era cinco da tarde e eu ainda nem tinha tirado o pijama. Estava praticamente virada, há três dias, lutando com o segundo artigo dos três que devo entregar - resta um agora. A voz do professor ecoa na minha mente: "São ensurdecedores os gritos do silêncio". Passo um dia inteiro sem ouvir minha própria voz. Leio Clarice, volto pra Williams, folheio sem grandes pretensões uma revista. Minha vida está suspensa, sinto falta do agito, da rotina, das coisas banais a que eu dava importância e até da incoerência de achar-me relevante num trabalho inútil.

Quem quiser entrar, que venha.
Mas venha sabendo: é quieto e solitário.

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