quinta-feira, 16 de abril de 2015

volte duas casas

quase uma hora da manhã e estou sentada na varanda do meu apartamento alugado, olhando pro céu, pedindo respostas, porque se tudo der errado eu quero ter pelo menos uma estrela cadente para culpar.

chegou aquela parte do caminho que é preciso resolver pra onde virar e eu não encontro as placas, o mapa, a direção. 

com a morte do meu avô, precisei de algo pra manter as tardes e o pensamento livres da tristeza. resolvi estudar pro mestrado. passei, mas entre ser aprovada e começar de fato essa imersão acadêmica, houve um convite profissional que fez minha vida dá um salto em experiência: editar cultura num veículo completamente novo. tudo me foi dado: liberdade, estrutura, apoio e motivação. 

me joguei. mas não deu. não deu porque acho que tenho um sério problema. me envolvi demais com a minha profissão. um relacionamento abusivo, onde ela manda em mim e eu sempre me acho a pior pessoa do mundo pra ela. procuro meios de ser sempre melhor, tenho ciúmes, e quero viver pra ela - sem esse lance de bola dividida. eu me apego as pautas. sou egoísta. cada ideia leva um ano de sofrimento. cada parágrafo tem um pedaço de mim.

minhas matérias não cumprem prazos. elas só ficam prontas quando querem ficar. posso apressar a apuração, a pesquisa, mas os textos têm vontade própria. não obedece meu tempo, não é da minha vontade. como bem colocou um colega de redação: luana virou jornalista por acidente de percurso.

allisson e sávia: obrigada por tudo <3 nbsp="">


estou tirando dois anos para estudar. é a primeira vez em muito tempo que ficarei sem meu trabalho diário. nunca pensei que seria esse drama. é a coisa certa? jamais saberei. sinto uma angústia enorme pelo que vai ficando para trás. ter um trabalho, pagar as contas, lavar os pratos, tornou-se um lugar comum demais pra mim. estou tentando ampliar o pensamento. estou querendo correr mesmo é um perigo.

na segunda semana de aula, quando o prof me pediu um papper cruzando o pensamento dos autores, senti algo que eu não sentia há anos: a aflição da página em branco. nada vinha. pra mim é tão mais confortável lidar com minhas reportagens, onde eu faço as regras, eu escolho o estilo, eu pontuo na hora e se eu quiser. sozinha, com o meu computador, sempre me senti rainha. 

não há um pingo de aflição com pautas, redação, fechamento. tudo isso, de algum modo, eu já domino bem - e aqui me meço com a régua da vaidade. é muito cômodo estar onde todos gostam de mim. é cama macia e tentadora, mas não chegou a minha hora de deitar.

me lanço agora onde não sou ninguém. meus novos monstros são autores, artigos, professores - tem esse pesadelo frequente onde esqueço o que falar, troco teóricos, perco os prazos. e todo dia eu me apavoro. e todo dia me arrependo. e todo dia me apaixono. virei esse poço de inconstância, feliz e triste, ansiosa e com medo. 


eu tentei ser 2. ser 3. 
mas eu só sou uma -  e um milhão de dúvidas. 

ninguém pode ter vergonha de voltar atrás.