quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Saudade embrulhada pra presente

Quando eu era criança, o mês mais esperado do ano era dezembro – e não era por causa dos presentes de natal ou da comilança. Era porque meu avô me levava numa livraria pra comprar o material escolar do ano seguinte e, como bicho solto, eu escolhia tudo de mais lindo e da moda, do jeitinho que eu queria. Canetas com bolha de sabão. Caderno com cheiro de chocolate. Corretivo multicolorido. E um monte de coisa que, na prática, não surtiam nenhum efeito nos estudos. Mas faziam eu me sentir no colégio.

Cresci uma adulta obsessiva por papelarias. Um pouco desse drama pessoal eu já narrei aqui, nesse post. O certo é que em duas décadas e meia de existência, finalmente, eu descobri como canalizar isso para o bem. Nunca é tarde pra ser um pouquinho menos idiota.

Mês passado, através das cartinhas de Natal dos Correios, conheci Pâmela e Dayron. Ambos estudam num bairro periférico da minha cidade, e, ao invés de bola ou boneca, pediram ao Papai Noel seus kits escolares para o próximo ano. A Pâmela foi meio modinha: queria tudo da Monster High, essas bonecas horrorosas que invadiram a tv, as mochilas e os cadernos. Já o Dayron, mais tradicional, queria tudo da Hot Wheels. A lápis, o menino de 11 anos escreveu: “minha mãe e meu pai não tem condição de compra poriso eu estou tipidino”.

 
Rotiois

Montar os kits de Pâmela e Dayron foi um dos meus maiores prazeres deste ano. Escolhi tudo como para mim mesmo: as melhores canetas, o caderno mais bonito, o estojo temático, e atentei até para os detalhes de borrachas e lapiseira. Em outros tempos eu levaria tudo pra casa, na minha compulsão por esses trecos, entocaria em uma gaveta e provavelmente nunca usaria. Dessa vez eu embrulhei tudo e deixei nos Correios.

Esse é o primeiro Natal sem o meu avô. Não pensem vocês que não dói – a lembrança dele está em cada momento, em todo detalhe, naqueles frames que povoam meu pensamento antes de dormir. Mas nesse tempo de ausência eu entendi que a melhor forma de preservar a memória de uma pessoa, é perpetuar as coisas boas que ela fazia.

Seja onde você estiver, vô, estará no sorriso de Pâmela e Dayron amanhã.

Sinto sua falta. Feliz Natal.