terça-feira, 25 de novembro de 2014

Do amor

Estou escrevendo para que esse episódio não seja confundido com algo desimportante. Porque pra ele, tudo que é importante na minha vida tem que está aqui registrado - é coerente, vindo de alguém que diz ter se apaixonado primeiro pelo meu blog, e só depois decidiu dar alguma moral para a autora.

A história começa em 2006, na faculdade, primeiro dia de aula no curso de Jornalismo. Lembro de, por dedução, escolher sentar próximo as pessoas da minha idade. A primeira coisa que nos mandaram fazer foi entrevistar a pessoa ao lado, afinal, tecnicamente seríamos, todos ali, futuros repórteres. Meu entrevistado de boné, cabelão loiro e sorriso meigo se chamava Mauricio Pokemon.

A vida foi passando e o curso também. Havia amores, desamores, trabalhos, provas, festas, meu cabelo mudou quatro vezes em três anos, mas só o que não mudava mesmo era a minha amizade com o Pokemon. Ele não era o meu amigo da balada, não éramos da mesma turma de bar ou viagens, mas tinha ali uma afinidade que eu nem sabia ao certo de onde vinha. Às vezes pegávamos o mesmo ônibus, às vezes ele me dava uma carona, trocávamos confidências e falávamos mal de deus e o mundo.

Começamos a trabalhar juntos no mesmo jornal, e as caronas passaram a ser mais frequentes. Nesse período, um monstro chamado TCC nos uniu ainda mais - e eram madrugadas trabalhando no projeto de uma revista, discutindo pautas, escolhendo as fotos, fazendo entrevistas, indo atrás de matérias. Um dia, no dia dos namorados e no meio desse turbilhão de trabalho, faculdade e confusão (será mesmo que não estou confundindo tudo?) ele me beijou. E aí, meu amigo, meu coração sossegou.

Foram quatro anos de convivência diária, pra só nos últimos dias perceber que o que havia entre nós era maior do que amizade. Não pense você que foi tudo fácil - de repente eu estava apaixonada pelo meu melhor amigo, mas esse amigo agora parecia um completo estranho. E ele era mesmo, como eu também era e sou, e somos, mudando toda hora, todo dia, sendo outro, mas permanecendo os mesmos. Nossa relação começou assim mesmo, confusa e complexa. Aos poucos é que as coisas foram se encaixando e a gente foi entendendo o que era mesmo aquilo tudo.

No ano passado, tomamos a decisão de morar juntos. Desde o primeiro ano de namoro, planejávamos como seria nossa casa, quantos filhos teríamos, e essas coisas de casal apaixonado. Parecia um troço muito longe, até que um dia eu arrumei a mala e disse "já vou, você vem comigo?". E ele veio.

Desde então eu vivia o pesadelo de não saber se ele estava aqui por ele mesmo ou por mim. Foi uma crise, acho que quando a gente sai de casa amplifica esse negócio de insegurança. Mas eu não era surtada a toa não, tinha muito fundamento na minha angústia: tudo tinha saído do plano, o ap era alugado, ninguém tava assim tão estável no trabalho e não havia, por hora, possibilidade de falar em casamento.

Sim, eu sempre fiz questão. Uma coisa sobre mim que pode te chocar agora, parecer piegas, mas é a verdade: eu. sempre. quis. casar. E o Mauricio sempre foi sensível o suficiente pra perceber isso, mas eu não sei o que acontecia que o pedido não vinha. Virei aloka do anel - procurava na mala, quando ele chegava de viagem, ou se marcávamos um jantar rotineiro eu já me arrumava pensando: "vai ser hoje". E não rolava.

Uma nota de esclarecimento: em minha defesa digo que acho tudo que envolve histórias de amor algo extremamente emocionante. Eu choro assistindo "Chuva de arroz". Acho casamento uma cerimônia belíssima, sonhava em viver isso desde que tinha oito anos e brincava de barbie. Eu nunca me importei exatamente com os rótulos - "noiva", "noivo", "marido", "namorado" - porque acho que quando rotulamos esquecemos de olhar a pessoa que há por trás dos rótulos. Graças a deus a sociedade, em tese, não te cobra mais nenhum tipo de explicação e você não tem mais que casar por conveniência ou pra explicar uma gravidez acidental, mas mesmo assim as pessoas continuam se casando. Isso não é maravilhoso? Num mundo tão maluco e cheio de ódio, não é bonito ver que as pessoas ainda se casam pelo simples desejo de ficarem juntas "pra sempre"?

Voltamos, agora pra outubro de 2014, quando eu tirei férias do trabalho pra estudar pro mestrado, descansar e curtir uma praia. Deixei tudo nas mãos do Mauricio, que reservou um hotel maravilhoso e realizou esse desejo que eu tava de rede, mar, sol e dele. Fomos cair na água, um belo dia, antes do almoço, e de repente, no meio daquela imensidão do mar, longe de tudo e de todos, surge um anel, como se tirado duma concha. Ele bota no meu dedo e diz: "Quer casar comigo?".




Eu achava que as pessoas que choravam em pedidos de casamento eram ridículas.
Eu fui uma ridícula que engolia ondas.

Depois daí eu não lembro mais de muita coisa numa sequência lógica. Saímos pra jantar, bebemos champanhe, dançamos danças esquisitas na escuridão da noite até cairmos exaustos na areia.


Nesse dia, eu finalmente fiz as pazes com a felicidade.