sábado, 2 de agosto de 2014

Para sempre o meu amor




Sempre senti muita pena de quem não tem avós. Aquele quintal grande pra correr, doce fora de hora, beiju quentinho no prato, zelo e carinho completamente sem medida. Sou tão grata com a vida por ter calhado de nascer Sena. Sou feliz por ele ter sido tudo o que sempre foi pra mim. 

Sou a neta mais nova do vovô, e, por isso, a que teve menos tempo com ele. Gosto de pensar, no entanto, que sou, talvez, a que viveu os momentos mais intensos. O pegar na escola, quando ele chegava com um saco de batatinhas e a gente comia junto na sombra de uma mangueira. Um momento terno de cumplicidade.

Quando eu tive pneumonia, aos 10 anos, durante duas semanas ele levou uma enfermeira, todos os dias, para me aplicar injeções. Enquanto eu chorava e sofria, ele me pedia coragem. Sempre interpretei aquelas agulhadas como um ato de amor.

Dizem que avós mimam a gente. Eu nunca me achei mimada, mas é bem verdade que era fácil conseguir qualquer coisa no choro. Foi assim na formatura do ABC, que eu ia ficar de fora porque meus pais não tinham grana pra pagar, e eu deitei no banco do jardim triste e talvez emburrada, achando a vida injusta ali do alto dos meus seis anos. Ele chegou e pôs fim ao choro: “você vai ter a sua festa”. E assim foi. Uma lembrança, um retrato amarelando num álbum de fotografias.

Ele me deu o meu primeiro computador, quando nem sabia pra que raios aquela coisa servia - mas bastava dizer que era pro estudo, e tudo ficava importante pra ele. E foi assim que durante toda a minha vida escolar eu tive as melhores mochilas, os melhores cadernos, os livros cheirando a novos, o uniforme completo, as melhores canetinhas coloridas do universo. Tinha também o famoso trocado da merenda - porque saco vazio, pra ele, não para nunca em pé. 

Sempre cresci ouvindo que ele não estaria aqui para sempre. Sempre houve, no fundo, essa preparação. Mas de algum modo eu sabia, lá no fundo, que ele jamais me deixaria pra sempre. O vovô? Partir antes da minha formatura? Que depois virou emprego, que depois virou casamento, que depois viraria ver meus filhos. Quantas vezes sonhei acordada em ver vovô no meu casamento. Porque a gente sempre pensa que é protagonista, até na vida dos outros. O fato é que nunca nos preparamos pra aceitar.

Pensar em não ter o vovô faz doer meu corpo inteiro. É um tremelique esquisito, um negócio que vem por dentro, engasga na boca do estômago e termina palpitando no peito. Mas eu não choro, porque acho justo. Corretíssimo que alguém uma hora abuse dessa vida, canse da luta, encha o saco de todos. Foi uma velinha se apagando, uma pilha chegando no fim, bateria descarregando, uma bica secando. E não tem nada que eu possa fazer pra mudar.

Quando eu acordar amanhã e ver que ele não tá mais aqui, vai ser como se eu tivesse perdido um braço, uma perna, um pedaço bem grande do coração. Não, não. Vai ser pior, porque membros e órgãos não amam a gente de verdade. Eu vou ter perdido a pessoa que mais me amou nesse mundo todo. Mas em respeito a ele, e a sua vontade, e as minhas lágrimas também, eu entendo. Ninguém é obrigado a se esforçar pra viver, para ir além, com dor, com tristeza e chateação, por um puro capricho nosso de não saber lidar com a perda. Eu entendo você, meu avô. E aceito. Aceito a condição de viver com esse buraco, aqui, pra sempre.

Porque ele me ensinou o que é amar, ele que me mostrou o que é o amor. Não esses de cinema, nem esses de fachada. E sim aquele que vigia teu sono, que cura tua doença, que te prepara pra vida, que enche a barriga, que bota a cadeira na rua pra ver o tempo passar. Aquele que entende teu choro, que nunca te cobra, que mesmo morrendo de sono e cansado da vida, abre o olho pra te ver, acena sorrindo e diz “seja feliz, minha bidinha.”


Vô, o senhor foi a melhor pessoa que eu conheci na vida.

Vá em paz, e, seja pra onde for, leve junto para sempre o meu amor.

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