segunda-feira, 18 de agosto de 2014

minha casa


Este texto não é mais pra falar dele, e sim, dela. 
Ou dos dois.

Porque ele e ela se confundem pra valer dentro de mim.

Na última semana recebemos a notícia de que a casa do meu avô seria fechada. Para sempre. As meninas que trabalharam com a gente por uma vida inteira ligaram para dizer adeus. Mas uma história inteira de vidas que se cruzaram assim não acaba num telefonema. 

Resolvemos fazer um almoço despedida - que não deveria, necessariamente, ser encarado dessa forma. Era um almoço como mais um daqueles, rotineiros, em que eu sempre chegava atrasada, a De Deus atarantada colocando a mesa, vovô saindo do banho contente em nos ver e a Mirinha buzinando no portão. Comemos, sorrimos, relembramos casos e piadas e por alguns instantes eu podia jurar que ele estava ali.

As meninas me contaram que durante os três meses que vovô passou no hospital elas seguiram, todos os dias, realizando as mesmas coisas que faziam para ele: a cadeirinha de balanço em frente à TV, que ligavam no programa preferido dele e a janela fechada dois dedinhos, pra não entrar muito sol, exatamente como ele pedia. Nessa hora eu quis chorar, porque achei bonito a dedicação e o carinho que todas tinham por ele.




No fim do almoço caminhei pela casa. O cheiro, a luz, as cores. A parede de pedrinhas que minha avó construiu, colocando uma a uma. Os azulejos. O oratório. O birô do escritório, onde vovô colecionava, com orgulho, fotos dos netos e suas conquistas. O quarto onde passei minha adolescência  - recebi amigos, sorri, chorei, passei noites em claro, noutras dormi até não querer acordar. E de manhã cedinho seu Sena vinha bater à porta me chamando pra tomar café. Arrependi amargamente as vezes em que preferi dormir a atender o chamado de meu avô. Eu merecia uma pisa. 

Estava contando para minha sogra, dia desses, que a ausência do vovô naquela casa me deixava sem chão. Sem referência, sem abrigo, sem amparo. Era prali que eu ia pra escapar do trânsito, pra tomar café com peta, pra onde eu corria quando tudo dava errado, e quando dava certo também. Sentar na cadeira ao lado dele, apertar a sua mão e roubar um pouquinho de paz.

Não tinha hora ruim, era só chegar. Ele sempre me recebia com um sorriso alegre dizendo: "você está em casa". E, não era só uma maneira de falar, eu sabia. Ali era a minha casa, ele era a minha morada. 




Naquele jardim nós sentamos várias vezes, à tardinha, pra ver o tempo passar. Naquele terraço eu aprendi a caminhar, a correr, a andar de bicicleta, a balançar numa rede em um dia preguiçoso, a estudar, a chegar de festa escondida na ponta dos pés. Sem dúvida nenhuma um lugar de memória, minhas histórias, as lembranças que um dia eu vou querer contar sorrindo, quem sabe, sentada à porta de minha casa. E espero, em algum lugar desse mundo tão grande, me sentir tão feliz e segura como eu me sentia ali, naquela casa - a casa onde eu sempre morei.





Nenhum comentário:

Postar um comentário