terça-feira, 15 de abril de 2014

Centenas de casos de amor


Tomei coragem para desbravar o período tenebroso da vida de todo mundo, mais conhecido como adolescência. A coisa toda já merece um mérito só pela coragem - além de disposição, é preciso ter peito para escarafunchar um armário velho e obscuro, correndo o risco de encontrar lá dentro uma Anne Frank, escondidinha, escrevendo o seu diário.

Mas o único diário que tinha era meu mesmo, para desespero. Em uma palavra? Me-do. Medo de encarar assim tão de frente o meu passado e descobrir que já fui muito mais tosca do que vocês pensam.

Indo pra parte mais objetiva dessa experiência, são três ou quatro cadernos onde escrevi com invejável disciplina todos os acontecimentos que julgava importante lá pelos meus 15/ 16/ 17 anos. Aplicadíssima, porque olha, eu botava a data e hora em que escrevia, e a maior parte foi por volta de onze da noite. Hoje em dia, nesse horário, nem se fosse para deixar o novo testamento.

Vamos aos pontos interessantes: tendo lido todos os números de O diário da princesa, a minha narrativa segue a linha apavorada com os dilemas adolescentes. Em resumo? Romances, confusões e bad notas na escola. Mia Thermopolis formando caráter.

Engraçado perceber como a nossa memória é seletiva. Da maioria das coisas eu só lembrava as partes que queria lembrar. E, juro, eu não era parcial escrevendo. Os diálogos de telefone e bate-papo (sdds MSN) estão todos lá, transcritos na íntegra - mesmo os que me fizeram chorar por dias. Concluo que a intenção nunca foi mentir pra Luana que eu seria no futuro.

No mais, duas questões: por que eu era tão dramática, minha gente? Eu fico pensando se naquela altura da vida eu tivesse dedicado metade do tempo que eu passava lendo/escrevendo carta e ouvindo kid abelha para estudar, talvez hoje eu fosse alguém com melhor currículo. Maturidade, eu te amo por ter me feito entender que nenhum namorico, nenhuma festa, nenhuma fofoquinha, por mais sadios que possam ser, são melhores do que estar de pijama na minha cama numa sexta à noite.

Aos 15 anos minha vida se resumia a euforia do primeiro beijo, notas vermelha em matemática, assistir filmes melosos e nutrir amores platônicos por garotos do 3º ano. Me sinto babaquíssima olhando pra trás mas, apesar da narrativa quase sempre vitimizada porém cheia de bom humor, eu curtia. Não tínhamos whatsapp, a internet era discada e boa parte das garotas registrou o primeiro romance num papel de carta.

O mais engraçado é os dramas rasíssimos do estilo "ele nem liga pra mim no colégio", seguidos de versos do Caetano Veloso que escuto até hoje, provando aí que as paixões passam, as canções ficam.

Ok, ok, sou cruel em julgar bobos os problemas da Luana de 10 anos atrás, aqui, do auge da minha ingênua sabedoria adulta (SABEEE DE NAAAAADA, inocente!). Não tenho o direito de dizer que ela não tinha porque sofrer. Coração partido dói pra porra, tanto faz ser aos 15 como aos 40. E depois daquelas decepções todas que conto ali, acredito que tantas outras vieram e virão. A diferença é que agora posso ir prum bar.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Doce solidão

Este é um post inteiramente dedicado a atividade de estar só.

Foi em algum momento, entre o tomar banho, pentear o cabelo e botar uma roupa limpa, aquele ritual todo solitário de autoconhecimento, que me peguei pensando em como estou feliz. Como é bom ter uma casa. Com é bom estar sozinha em casa. Como me realizo, todos os dias, ao sair do trabalho e, sem mais nada pra fazer no dia, pensar 'estou indo para a minha casa'.

Essa semana o Mauricio viajou e mesmo com a boa vontade de minha mãe em me fazer companhia, preferi ficar sozinha para escrever. Foi minha MELHOR experiência em muito, muito tempo. Ficar sem ouvir a própria voz por horas. Esquentar a sobra da comida chinesa na certeza de que ninguém a comeu. Jantar assistindo o superbonita ensinando o delineado perfeito. Não ter ninguém pra entrar no banheiro de manhã antes de mim. Tomar café na xícara do Portinari que eu sempre quis. Saber que, não importa o que aconteça, tudo estará no mesmo lugar onde eu deixei.

Antes de sair de casa eu tinha PAVOR de ficar só. Na minha cabeça, todos os piores acidentes domésticos do mundo aconteceriam justo quando não houvesse alguém por perto. Em alguma época da vida impressionei-me com isso (talvez vendo Premonição demais) de modo que já tinha feito a minha lista: choque com secador de cabelo, queda no banheiro ou uma explosão ao fritar batatas. De algum modo, era assim que eu morreria.

Passada a paranoia, - pois, síndrome do pânico: não trabalhamos com - digo que estou in love com essa liberdade. Liberdade de uma cama king size para me esparramar e ninguém por perto pra impor limites. Liberdade de poder ir a qualquer lugar, a qualquer hora e entre todas as opções mundanas, escolher ficar aqui na minha casa.

Não pensem que faço pouco gosto de companhia. Ter com quem dividir a vida é maravilhoso. Mas faz parte de qualquer tipo de amor sentir saudade - não da convivência ou das coisas que alguém faz por você, mas de tudo que aquela pessoa representa dentro do seu solitário mundo . A ausência da presença de um amor deixa um buraco enorme.

E no meio de toda essa reflexão eu fiquei doente. Surtei um dia num fast food, fazendo uma das poucas coisas no mundo ruins de serem feitas sozinha: almoçar. Com enxaqueca, tosse, choro e tudo, achei que ia morrer ali, vendo apenas rostos desconhecidos. Foi como experimentar, pela primeira vez, o doce amargo da solidão.