segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Menos cuecas


Começou assim: estendi uma dúzia de calcinhas no varal portátil, na janela do meu apartamento. Estava tudo tranquilo, eu estava sozinha em casa e a vizinhança também era só calmaria. 

Meia hora depois, os arredores do meu ap é invadido por técnicos brutamontes, na missão de instalar a tv a cabo da vizinha. Em seguida, o Mauricio chega em casa e diz com tom de reprovação: "Tá cheio de macho circulando no prédio. E tuas calcinhas tudo lá fora".

Nota número um: recebi recomendação médica de não secar calcinha no banheiro. Mulheres, não façam isso em casa.

Nota número dois: aconteceram dois episódios que até explicam o tom preocupado do Mauricio. Uma vez saímos de casa e eu esqueci o varal de calcinhas na janela. Deu uma ventania e voou calcinha por todo o prédio. Uma delas foi encontrada na boca do poodle do 102.

No segundo episódio estava o Mauricio resolvendo um problema na cerca elétrica com outro vizinho quando este, fazendo meu namorado corar, disse: "espera um pouco: aquilo ali não é da sua mulher?".

Mas, voltando pros técnicos cheiradores de calcinha instaladores de tv: fico me perguntando por que tanto pudor, sabe. Por que fomos criadas por séculos com o tabu de preservar a nós e nossas peças íntimas, ainda que isso prejudique nosso bem-estar, nossa saúde?

Eu não recrimino o Mauricio. Entre os homens rola mesmo esse link direto de calcinha e sexo. Mas gente, ela ali, surrada, estendida, é só uma peça do guarda-roupa, totalmente fora de contexto. E estou mais preocupada com a minha saúde do que com a mente de um "macho" em sua mais perfeita e primitiva demonstração.

Minha mãe conta que a sogra dela a proibia de trocar fraldas das filhas quando bebês na frente do meu pai e meu avô. TROCAR FRALDA DE UM BEBÊ – veja você que o problema é histórico e muito mais grave do que ousamos imaginar. Mas isso foi minha avó sendo a mulher da época, e mais de MEIO SÉCULO nos afastam disso. O duro é saber que mesmo assim, até hoje, insistimos em seguir ensinando as mulheres a como se portar, e não os homens a não serem tão... eles.

Há alguns meses uma amiga sofreu duras críticas por posar numa foto pra Folha segurando uma calcinha. Teresa, com o uniforme de jogadora, promovia o Rugby de Calcinha, grupo que criou pra divulgar o esporte entre as mulheres. Teresa segurava uma calcinha cinza, comum, e sorria. Choveu machismo na tl. Gente que nem lia a matéria (porque no primeiro parágrafo explicava se tratar apenas de um nome criativo para um time FEMININO de Rugby) ia lá dizer que era tudo puta. Sem argumentos, sem provas, sem noção. Sentença dos puristas de plantão? CULPADA.

Nós, esse bando de pecadoras, temos que nos dar ao respeito e esconder a sete chaves nossas peças “provocadoras”, enquanto pra eles é de boa sair por aí erotizando uma simples peça no varal alheio. Os namorados estão sempre a postos, nos mandando cruzar as pernas, aumentar a saia, esconder a alça do sutiã ou tirar as calcinhas do varal. E estes mesmos boys seguem babando por anúncio de lingerie, admirando a gata de transparência na balada e acessando link "Famosa paga calcinha em Ipanema. Veja!"

Me dê um mundo com mais calcinhas e menos cuecas, por favor.