quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Saudade embrulhada pra presente

Quando eu era criança, o mês mais esperado do ano era dezembro – e não era por causa dos presentes de natal ou da comilança. Era porque meu avô me levava numa livraria pra comprar o material escolar do ano seguinte e, como bicho solto, eu escolhia tudo de mais lindo e da moda, do jeitinho que eu queria. Canetas com bolha de sabão. Caderno com cheiro de chocolate. Corretivo multicolorido. E um monte de coisa que, na prática, não surtiam nenhum efeito nos estudos. Mas faziam eu me sentir no colégio.

Cresci uma adulta obsessiva por papelarias. Um pouco desse drama pessoal eu já narrei aqui, nesse post. O certo é que em duas décadas e meia de existência, finalmente, eu descobri como canalizar isso para o bem. Nunca é tarde pra ser um pouquinho menos idiota.

Mês passado, através das cartinhas de Natal dos Correios, conheci Pâmela e Dayron. Ambos estudam num bairro periférico da minha cidade, e, ao invés de bola ou boneca, pediram ao Papai Noel seus kits escolares para o próximo ano. A Pâmela foi meio modinha: queria tudo da Monster High, essas bonecas horrorosas que invadiram a tv, as mochilas e os cadernos. Já o Dayron, mais tradicional, queria tudo da Hot Wheels. A lápis, o menino de 11 anos escreveu: “minha mãe e meu pai não tem condição de compra poriso eu estou tipidino”.

 
Rotiois

Montar os kits de Pâmela e Dayron foi um dos meus maiores prazeres deste ano. Escolhi tudo como para mim mesmo: as melhores canetas, o caderno mais bonito, o estojo temático, e atentei até para os detalhes de borrachas e lapiseira. Em outros tempos eu levaria tudo pra casa, na minha compulsão por esses trecos, entocaria em uma gaveta e provavelmente nunca usaria. Dessa vez eu embrulhei tudo e deixei nos Correios.

Esse é o primeiro Natal sem o meu avô. Não pensem vocês que não dói – a lembrança dele está em cada momento, em todo detalhe, naqueles frames que povoam meu pensamento antes de dormir. Mas nesse tempo de ausência eu entendi que a melhor forma de preservar a memória de uma pessoa, é perpetuar as coisas boas que ela fazia.

Seja onde você estiver, vô, estará no sorriso de Pâmela e Dayron amanhã.

Sinto sua falta. Feliz Natal.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Do amor

Estou escrevendo para que esse episódio não seja confundido com algo desimportante. Porque pra ele, tudo que é importante na minha vida tem que está aqui registrado - é coerente, vindo de alguém que diz ter se apaixonado primeiro pelo meu blog, e só depois decidiu dar alguma moral para a autora.

A história começa em 2006, na faculdade, primeiro dia de aula no curso de Jornalismo. Lembro de, por dedução, escolher sentar próximo as pessoas da minha idade. A primeira coisa que nos mandaram fazer foi entrevistar a pessoa ao lado, afinal, tecnicamente seríamos, todos ali, futuros repórteres. Meu entrevistado de boné, cabelão loiro e sorriso meigo se chamava Mauricio Pokemon.

A vida foi passando e o curso também. Havia amores, desamores, trabalhos, provas, festas, meu cabelo mudou quatro vezes em três anos, mas só o que não mudava mesmo era a minha amizade com o Pokemon. Ele não era o meu amigo da balada, não éramos da mesma turma de bar ou viagens, mas tinha ali uma afinidade que eu nem sabia ao certo de onde vinha. Às vezes pegávamos o mesmo ônibus, às vezes ele me dava uma carona, trocávamos confidências e falávamos mal de deus e o mundo.

Começamos a trabalhar juntos no mesmo jornal, e as caronas passaram a ser mais frequentes. Nesse período, um monstro chamado TCC nos uniu ainda mais - e eram madrugadas trabalhando no projeto de uma revista, discutindo pautas, escolhendo as fotos, fazendo entrevistas, indo atrás de matérias. Um dia, no dia dos namorados e no meio desse turbilhão de trabalho, faculdade e confusão (será mesmo que não estou confundindo tudo?) ele me beijou. E aí, meu amigo, meu coração sossegou.

Foram quatro anos de convivência diária, pra só nos últimos dias perceber que o que havia entre nós era maior do que amizade. Não pense você que foi tudo fácil - de repente eu estava apaixonada pelo meu melhor amigo, mas esse amigo agora parecia um completo estranho. E ele era mesmo, como eu também era e sou, e somos, mudando toda hora, todo dia, sendo outro, mas permanecendo os mesmos. Nossa relação começou assim mesmo, confusa e complexa. Aos poucos é que as coisas foram se encaixando e a gente foi entendendo o que era mesmo aquilo tudo.

No ano passado, tomamos a decisão de morar juntos. Desde o primeiro ano de namoro, planejávamos como seria nossa casa, quantos filhos teríamos, e essas coisas de casal apaixonado. Parecia um troço muito longe, até que um dia eu arrumei a mala e disse "já vou, você vem comigo?". E ele veio.

Desde então eu vivia o pesadelo de não saber se ele estava aqui por ele mesmo ou por mim. Foi uma crise, acho que quando a gente sai de casa amplifica esse negócio de insegurança. Mas eu não era surtada a toa não, tinha muito fundamento na minha angústia: tudo tinha saído do plano, o ap era alugado, ninguém tava assim tão estável no trabalho e não havia, por hora, possibilidade de falar em casamento.

Sim, eu sempre fiz questão. Uma coisa sobre mim que pode te chocar agora, parecer piegas, mas é a verdade: eu. sempre. quis. casar. E o Mauricio sempre foi sensível o suficiente pra perceber isso, mas eu não sei o que acontecia que o pedido não vinha. Virei aloka do anel - procurava na mala, quando ele chegava de viagem, ou se marcávamos um jantar rotineiro eu já me arrumava pensando: "vai ser hoje". E não rolava.

Uma nota de esclarecimento: em minha defesa digo que acho tudo que envolve histórias de amor algo extremamente emocionante. Eu choro assistindo "Chuva de arroz". Acho casamento uma cerimônia belíssima, sonhava em viver isso desde que tinha oito anos e brincava de barbie. Eu nunca me importei exatamente com os rótulos - "noiva", "noivo", "marido", "namorado" - porque acho que quando rotulamos esquecemos de olhar a pessoa que há por trás dos rótulos. Graças a deus a sociedade, em tese, não te cobra mais nenhum tipo de explicação e você não tem mais que casar por conveniência ou pra explicar uma gravidez acidental, mas mesmo assim as pessoas continuam se casando. Isso não é maravilhoso? Num mundo tão maluco e cheio de ódio, não é bonito ver que as pessoas ainda se casam pelo simples desejo de ficarem juntas "pra sempre"?

Voltamos, agora pra outubro de 2014, quando eu tirei férias do trabalho pra estudar pro mestrado, descansar e curtir uma praia. Deixei tudo nas mãos do Mauricio, que reservou um hotel maravilhoso e realizou esse desejo que eu tava de rede, mar, sol e dele. Fomos cair na água, um belo dia, antes do almoço, e de repente, no meio daquela imensidão do mar, longe de tudo e de todos, surge um anel, como se tirado duma concha. Ele bota no meu dedo e diz: "Quer casar comigo?".




Eu achava que as pessoas que choravam em pedidos de casamento eram ridículas.
Eu fui uma ridícula que engolia ondas.

Depois daí eu não lembro mais de muita coisa numa sequência lógica. Saímos pra jantar, bebemos champanhe, dançamos danças esquisitas na escuridão da noite até cairmos exaustos na areia.


Nesse dia, eu finalmente fiz as pazes com a felicidade.








quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Cair e levantar

Eu demorei pra voltar aqui porque nos últimos dias enfrentei uma bad le-gal. Uns dias sem querer sair da cama, uma preguiça do mundo, um choro incontido na madrugada ouvindo Solitude porque eu sou dessas.

Ninguém nunca me explicou o que é a maturidade, mas eu acho que é essa fase de aceitação pessoal na qual começo a entrar. E tá escrevendo aqui a pessoa que comeu krokitos no jantar mas que assume a sua culpa. Porque tudo na vida é consequência do que eu faço ou deixo de fazer - e, a não ser que você seja ryco bem novinho, não tem ninguém pra ir limpando as merdas que você faz. Você, somente você, é o responsável por tentar qualquer mudança na vida que você vive. Tem uma parcela aí  de fé, de deus, de sorte ou destino, mas não vamos entrar nessas questões, seja lá no que você acredite. Estou falando mais da parte realista e prática da vida, aquela entre pagar as contas, lavar os copos e se sentir adulta por pintar a parede da sala sem comunicar a ninguém.

Tá foda não ter com quem dividir esses pepinos do dia-a-dia, não ter quem abraçar na hora de dormir. Claaaaaro que eu tô sentindo falta do Maurício. Mesmo com tudo desabando, meus dias ficam melhores com a sensação de que ele pode ser achado no google maps, que o celular tem área e que está online no whatsapp. 

Profissionalmente, meu estado é confuso. Queria voltar a estudar, trabalhar menos, ganhar mais. É um triângulo difícil de fechar, principalmente quando o tempo não tá mais tão assim a seu favor e qualquer curso de três meses pode fazer toda a diferença nessa equação. Chegou a hora de investir no mestrado? Tentar ter filhos? Mudar de cidade? Casar? Comprar uma bicicleta? Na dúvida, eu fui dançar zumba, que não estava no script mas que tem sido um barato.

Quando eu tô nessas crises, que podem levar dois, três dias ou até um mês (fique atento a persistência dos sintomas), me ajuda pensar nas pessoas que me inspiram e tentar agir como elas agiriam. Em geral é difícil mesmo, porque as pessoas têm tempos e limites diferentes, mas tem dado certo até agora. No embalo da vida, não dá pra ficar refletindo muito. É correr buscando coragem e leveza - nada ruim pode durar tanto.

Acreditando que seguir em frente é sempre a melhor opção, eu fui. Mas acho que acelerei o passo demais. Como uma rasteira da vida, eu levei uma queda digníssima no meu trabalho - com direito a vídeo, plateia, e povo mangando.

NA TELAAA:


O chão é um lugar absurdamente horrível de ficar - quando se chega a ele sem querer. Você olha para os lados desconcertada e pensando 'como diabos eu vim parar aqui?'.

E, às vezes, mesmo que ninguém lhe estenda a mão, é preciso aprender a levantar.






segunda-feira, 18 de agosto de 2014

minha casa


Este texto não é mais pra falar dele, e sim, dela. 
Ou dos dois.

Porque ele e ela se confundem pra valer dentro de mim.

Na última semana recebemos a notícia de que a casa do meu avô seria fechada. Para sempre. As meninas que trabalharam com a gente por uma vida inteira ligaram para dizer adeus. Mas uma história inteira de vidas que se cruzaram assim não acaba num telefonema. 

Resolvemos fazer um almoço despedida - que não deveria, necessariamente, ser encarado dessa forma. Era um almoço como mais um daqueles, rotineiros, em que eu sempre chegava atrasada, a De Deus atarantada colocando a mesa, vovô saindo do banho contente em nos ver e a Mirinha buzinando no portão. Comemos, sorrimos, relembramos casos e piadas e por alguns instantes eu podia jurar que ele estava ali.

As meninas me contaram que durante os três meses que vovô passou no hospital elas seguiram, todos os dias, realizando as mesmas coisas que faziam para ele: a cadeirinha de balanço em frente à TV, que ligavam no programa preferido dele e a janela fechada dois dedinhos, pra não entrar muito sol, exatamente como ele pedia. Nessa hora eu quis chorar, porque achei bonito a dedicação e o carinho que todas tinham por ele.




No fim do almoço caminhei pela casa. O cheiro, a luz, as cores. A parede de pedrinhas que minha avó construiu, colocando uma a uma. Os azulejos. O oratório. O birô do escritório, onde vovô colecionava, com orgulho, fotos dos netos e suas conquistas. O quarto onde passei minha adolescência  - recebi amigos, sorri, chorei, passei noites em claro, noutras dormi até não querer acordar. E de manhã cedinho seu Sena vinha bater à porta me chamando pra tomar café. Arrependi amargamente as vezes em que preferi dormir a atender o chamado de meu avô. Eu merecia uma pisa. 

Estava contando para minha sogra, dia desses, que a ausência do vovô naquela casa me deixava sem chão. Sem referência, sem abrigo, sem amparo. Era prali que eu ia pra escapar do trânsito, pra tomar café com peta, pra onde eu corria quando tudo dava errado, e quando dava certo também. Sentar na cadeira ao lado dele, apertar a sua mão e roubar um pouquinho de paz.

Não tinha hora ruim, era só chegar. Ele sempre me recebia com um sorriso alegre dizendo: "você está em casa". E, não era só uma maneira de falar, eu sabia. Ali era a minha casa, ele era a minha morada. 




Naquele jardim nós sentamos várias vezes, à tardinha, pra ver o tempo passar. Naquele terraço eu aprendi a caminhar, a correr, a andar de bicicleta, a balançar numa rede em um dia preguiçoso, a estudar, a chegar de festa escondida na ponta dos pés. Sem dúvida nenhuma um lugar de memória, minhas histórias, as lembranças que um dia eu vou querer contar sorrindo, quem sabe, sentada à porta de minha casa. E espero, em algum lugar desse mundo tão grande, me sentir tão feliz e segura como eu me sentia ali, naquela casa - a casa onde eu sempre morei.





domingo, 10 de agosto de 2014

De onde vem a força





Não me perguntem de onde eu tenho tirado essa força. Eu realmente não saberia responder. Teve uma madrugada aí que houve aquele descontrole. Um choro com falta de ar, o peso do mundo aqui dentro do peito doendo. Uma tristeza profunda e por motivos aparentemente sem sentido. "Aah ele nunca mais dormiu na rede dele", esse tipo de coisa e tal.

Tem um pouco de inconformismo aí, tem desamparo, tem dor, tem angústia e até culpa também. Mas  tem muito, e, principalmente, saudade. Saudade das manias, dos trejeitos, do sorriso, do abraço, da acolhida, do bom humor, da mesa reunida pra almoçar. E é essa saudade tão grande e tão sem fim que tem me feito há uma semana trancar a minha sala de trabalho, todos os dias, quando todos saem pra almoçar, e aproveitar pra chorar baixinho. 

Queria agradecer a todos que me mandaram seus sentimentos. Que tiveram a disposição de ir ao velório ou missa, ou que tiveram a atenção de mandar mensagens, palavras de apoio e conforto que eu nunca vou esquecer. Cada ligação, whatsapp ou visita foi realmente muito importante para mim. Estou em milhares de cacos, e cada manifestação dessa é como se vocês tivessem me ajudando a catá-los para seguir em frente.

Mas hoje foi um dia alegremente triste. Dia dos pais era uma das maiores tradições na casa do vovô. Todo mundo reunido pra comer bolo, conversar e vê-lo felizão com aquela casa cheia de gente. Onde quer que meu avô esteja, sei que um grande desejo seria ver a gente unido, então fomos, eu e minha irmã, almoçar na Santa Luz com o meu pai. Acordei cedinho no domingo e peguei a estrada, dirigindo pela primeira vez o caminho para aquele lugar que por muitos anos foi o verdadeiro refúgio e paraíso do meu avô. 

Como todo dia de viagem, vovô estaria pronto bem cedinho da manhã, daquele jeito discretamente ansioso que ele ficava. Como todo dia de festa, estaria feliz e arrumado só na pose, despretensioso dizendo "eu não gosto muito de festa", mas no fundo morrendo de vontade da chegada de todos. Os presentes estariam todos sobre a cama, marcados com o nome de cada um que ele mesmo escrevia de caneta. E os cartões, sem dúvida alguma, sua parte preferida, ele leria no dia seguinte, com um sorriso tímido e emocionado.

Eu fiz isso tantas vezes, mas hoje, especialmente hoje, eu daria qualquer coisa pra abraça-lo de novo.

sábado, 2 de agosto de 2014

Para sempre o meu amor




Sempre senti muita pena de quem não tem avós. Aquele quintal grande pra correr, doce fora de hora, beiju quentinho no prato, zelo e carinho completamente sem medida. Sou tão grata com a vida por ter calhado de nascer Sena. Sou feliz por ele ter sido tudo o que sempre foi pra mim. 

Sou a neta mais nova do vovô, e, por isso, a que teve menos tempo com ele. Gosto de pensar, no entanto, que sou, talvez, a que viveu os momentos mais intensos. O pegar na escola, quando ele chegava com um saco de batatinhas e a gente comia junto na sombra de uma mangueira. Um momento terno de cumplicidade.

Quando eu tive pneumonia, aos 10 anos, durante duas semanas ele levou uma enfermeira, todos os dias, para me aplicar injeções. Enquanto eu chorava e sofria, ele me pedia coragem. Sempre interpretei aquelas agulhadas como um ato de amor.

Dizem que avós mimam a gente. Eu nunca me achei mimada, mas é bem verdade que era fácil conseguir qualquer coisa no choro. Foi assim na formatura do ABC, que eu ia ficar de fora porque meus pais não tinham grana pra pagar, e eu deitei no banco do jardim triste e talvez emburrada, achando a vida injusta ali do alto dos meus seis anos. Ele chegou e pôs fim ao choro: “você vai ter a sua festa”. E assim foi. Uma lembrança, um retrato amarelando num álbum de fotografias.

Ele me deu o meu primeiro computador, quando nem sabia pra que raios aquela coisa servia - mas bastava dizer que era pro estudo, e tudo ficava importante pra ele. E foi assim que durante toda a minha vida escolar eu tive as melhores mochilas, os melhores cadernos, os livros cheirando a novos, o uniforme completo, as melhores canetinhas coloridas do universo. Tinha também o famoso trocado da merenda - porque saco vazio, pra ele, não para nunca em pé. 

Sempre cresci ouvindo que ele não estaria aqui para sempre. Sempre houve, no fundo, essa preparação. Mas de algum modo eu sabia, lá no fundo, que ele jamais me deixaria pra sempre. O vovô? Partir antes da minha formatura? Que depois virou emprego, que depois virou casamento, que depois viraria ver meus filhos. Quantas vezes sonhei acordada em ver vovô no meu casamento. Porque a gente sempre pensa que é protagonista, até na vida dos outros. O fato é que nunca nos preparamos pra aceitar.

Pensar em não ter o vovô faz doer meu corpo inteiro. É um tremelique esquisito, um negócio que vem por dentro, engasga na boca do estômago e termina palpitando no peito. Mas eu não choro, porque acho justo. Corretíssimo que alguém uma hora abuse dessa vida, canse da luta, encha o saco de todos. Foi uma velinha se apagando, uma pilha chegando no fim, bateria descarregando, uma bica secando. E não tem nada que eu possa fazer pra mudar.

Quando eu acordar amanhã e ver que ele não tá mais aqui, vai ser como se eu tivesse perdido um braço, uma perna, um pedaço bem grande do coração. Não, não. Vai ser pior, porque membros e órgãos não amam a gente de verdade. Eu vou ter perdido a pessoa que mais me amou nesse mundo todo. Mas em respeito a ele, e a sua vontade, e as minhas lágrimas também, eu entendo. Ninguém é obrigado a se esforçar pra viver, para ir além, com dor, com tristeza e chateação, por um puro capricho nosso de não saber lidar com a perda. Eu entendo você, meu avô. E aceito. Aceito a condição de viver com esse buraco, aqui, pra sempre.

Porque ele me ensinou o que é amar, ele que me mostrou o que é o amor. Não esses de cinema, nem esses de fachada. E sim aquele que vigia teu sono, que cura tua doença, que te prepara pra vida, que enche a barriga, que bota a cadeira na rua pra ver o tempo passar. Aquele que entende teu choro, que nunca te cobra, que mesmo morrendo de sono e cansado da vida, abre o olho pra te ver, acena sorrindo e diz “seja feliz, minha bidinha.”


Vô, o senhor foi a melhor pessoa que eu conheci na vida.

Vá em paz, e, seja pra onde for, leve junto para sempre o meu amor.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Centenas de casos de amor


Tomei coragem para desbravar o período tenebroso da vida de todo mundo, mais conhecido como adolescência. A coisa toda já merece um mérito só pela coragem - além de disposição, é preciso ter peito para escarafunchar um armário velho e obscuro, correndo o risco de encontrar lá dentro uma Anne Frank, escondidinha, escrevendo o seu diário.

Mas o único diário que tinha era meu mesmo, para desespero. Em uma palavra? Me-do. Medo de encarar assim tão de frente o meu passado e descobrir que já fui muito mais tosca do que vocês pensam.

Indo pra parte mais objetiva dessa experiência, são três ou quatro cadernos onde escrevi com invejável disciplina todos os acontecimentos que julgava importante lá pelos meus 15/ 16/ 17 anos. Aplicadíssima, porque olha, eu botava a data e hora em que escrevia, e a maior parte foi por volta de onze da noite. Hoje em dia, nesse horário, nem se fosse para deixar o novo testamento.

Vamos aos pontos interessantes: tendo lido todos os números de O diário da princesa, a minha narrativa segue a linha apavorada com os dilemas adolescentes. Em resumo? Romances, confusões e bad notas na escola. Mia Thermopolis formando caráter.

Engraçado perceber como a nossa memória é seletiva. Da maioria das coisas eu só lembrava as partes que queria lembrar. E, juro, eu não era parcial escrevendo. Os diálogos de telefone e bate-papo (sdds MSN) estão todos lá, transcritos na íntegra - mesmo os que me fizeram chorar por dias. Concluo que a intenção nunca foi mentir pra Luana que eu seria no futuro.

No mais, duas questões: por que eu era tão dramática, minha gente? Eu fico pensando se naquela altura da vida eu tivesse dedicado metade do tempo que eu passava lendo/escrevendo carta e ouvindo kid abelha para estudar, talvez hoje eu fosse alguém com melhor currículo. Maturidade, eu te amo por ter me feito entender que nenhum namorico, nenhuma festa, nenhuma fofoquinha, por mais sadios que possam ser, são melhores do que estar de pijama na minha cama numa sexta à noite.

Aos 15 anos minha vida se resumia a euforia do primeiro beijo, notas vermelha em matemática, assistir filmes melosos e nutrir amores platônicos por garotos do 3º ano. Me sinto babaquíssima olhando pra trás mas, apesar da narrativa quase sempre vitimizada porém cheia de bom humor, eu curtia. Não tínhamos whatsapp, a internet era discada e boa parte das garotas registrou o primeiro romance num papel de carta.

O mais engraçado é os dramas rasíssimos do estilo "ele nem liga pra mim no colégio", seguidos de versos do Caetano Veloso que escuto até hoje, provando aí que as paixões passam, as canções ficam.

Ok, ok, sou cruel em julgar bobos os problemas da Luana de 10 anos atrás, aqui, do auge da minha ingênua sabedoria adulta (SABEEE DE NAAAAADA, inocente!). Não tenho o direito de dizer que ela não tinha porque sofrer. Coração partido dói pra porra, tanto faz ser aos 15 como aos 40. E depois daquelas decepções todas que conto ali, acredito que tantas outras vieram e virão. A diferença é que agora posso ir prum bar.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Doce solidão

Este é um post inteiramente dedicado a atividade de estar só.

Foi em algum momento, entre o tomar banho, pentear o cabelo e botar uma roupa limpa, aquele ritual todo solitário de autoconhecimento, que me peguei pensando em como estou feliz. Como é bom ter uma casa. Com é bom estar sozinha em casa. Como me realizo, todos os dias, ao sair do trabalho e, sem mais nada pra fazer no dia, pensar 'estou indo para a minha casa'.

Essa semana o Mauricio viajou e mesmo com a boa vontade de minha mãe em me fazer companhia, preferi ficar sozinha para escrever. Foi minha MELHOR experiência em muito, muito tempo. Ficar sem ouvir a própria voz por horas. Esquentar a sobra da comida chinesa na certeza de que ninguém a comeu. Jantar assistindo o superbonita ensinando o delineado perfeito. Não ter ninguém pra entrar no banheiro de manhã antes de mim. Tomar café na xícara do Portinari que eu sempre quis. Saber que, não importa o que aconteça, tudo estará no mesmo lugar onde eu deixei.

Antes de sair de casa eu tinha PAVOR de ficar só. Na minha cabeça, todos os piores acidentes domésticos do mundo aconteceriam justo quando não houvesse alguém por perto. Em alguma época da vida impressionei-me com isso (talvez vendo Premonição demais) de modo que já tinha feito a minha lista: choque com secador de cabelo, queda no banheiro ou uma explosão ao fritar batatas. De algum modo, era assim que eu morreria.

Passada a paranoia, - pois, síndrome do pânico: não trabalhamos com - digo que estou in love com essa liberdade. Liberdade de uma cama king size para me esparramar e ninguém por perto pra impor limites. Liberdade de poder ir a qualquer lugar, a qualquer hora e entre todas as opções mundanas, escolher ficar aqui na minha casa.

Não pensem que faço pouco gosto de companhia. Ter com quem dividir a vida é maravilhoso. Mas faz parte de qualquer tipo de amor sentir saudade - não da convivência ou das coisas que alguém faz por você, mas de tudo que aquela pessoa representa dentro do seu solitário mundo . A ausência da presença de um amor deixa um buraco enorme.

E no meio de toda essa reflexão eu fiquei doente. Surtei um dia num fast food, fazendo uma das poucas coisas no mundo ruins de serem feitas sozinha: almoçar. Com enxaqueca, tosse, choro e tudo, achei que ia morrer ali, vendo apenas rostos desconhecidos. Foi como experimentar, pela primeira vez, o doce amargo da solidão.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Menos cuecas


Começou assim: estendi uma dúzia de calcinhas no varal portátil, na janela do meu apartamento. Estava tudo tranquilo, eu estava sozinha em casa e a vizinhança também era só calmaria. 

Meia hora depois, os arredores do meu ap é invadido por técnicos brutamontes, na missão de instalar a tv a cabo da vizinha. Em seguida, o Mauricio chega em casa e diz com tom de reprovação: "Tá cheio de macho circulando no prédio. E tuas calcinhas tudo lá fora".

Nota número um: recebi recomendação médica de não secar calcinha no banheiro. Mulheres, não façam isso em casa.

Nota número dois: aconteceram dois episódios que até explicam o tom preocupado do Mauricio. Uma vez saímos de casa e eu esqueci o varal de calcinhas na janela. Deu uma ventania e voou calcinha por todo o prédio. Uma delas foi encontrada na boca do poodle do 102.

No segundo episódio estava o Mauricio resolvendo um problema na cerca elétrica com outro vizinho quando este, fazendo meu namorado corar, disse: "espera um pouco: aquilo ali não é da sua mulher?".

Mas, voltando pros técnicos cheiradores de calcinha instaladores de tv: fico me perguntando por que tanto pudor, sabe. Por que fomos criadas por séculos com o tabu de preservar a nós e nossas peças íntimas, ainda que isso prejudique nosso bem-estar, nossa saúde?

Eu não recrimino o Mauricio. Entre os homens rola mesmo esse link direto de calcinha e sexo. Mas gente, ela ali, surrada, estendida, é só uma peça do guarda-roupa, totalmente fora de contexto. E estou mais preocupada com a minha saúde do que com a mente de um "macho" em sua mais perfeita e primitiva demonstração.

Minha mãe conta que a sogra dela a proibia de trocar fraldas das filhas quando bebês na frente do meu pai e meu avô. TROCAR FRALDA DE UM BEBÊ – veja você que o problema é histórico e muito mais grave do que ousamos imaginar. Mas isso foi minha avó sendo a mulher da época, e mais de MEIO SÉCULO nos afastam disso. O duro é saber que mesmo assim, até hoje, insistimos em seguir ensinando as mulheres a como se portar, e não os homens a não serem tão... eles.

Há alguns meses uma amiga sofreu duras críticas por posar numa foto pra Folha segurando uma calcinha. Teresa, com o uniforme de jogadora, promovia o Rugby de Calcinha, grupo que criou pra divulgar o esporte entre as mulheres. Teresa segurava uma calcinha cinza, comum, e sorria. Choveu machismo na tl. Gente que nem lia a matéria (porque no primeiro parágrafo explicava se tratar apenas de um nome criativo para um time FEMININO de Rugby) ia lá dizer que era tudo puta. Sem argumentos, sem provas, sem noção. Sentença dos puristas de plantão? CULPADA.

Nós, esse bando de pecadoras, temos que nos dar ao respeito e esconder a sete chaves nossas peças “provocadoras”, enquanto pra eles é de boa sair por aí erotizando uma simples peça no varal alheio. Os namorados estão sempre a postos, nos mandando cruzar as pernas, aumentar a saia, esconder a alça do sutiã ou tirar as calcinhas do varal. E estes mesmos boys seguem babando por anúncio de lingerie, admirando a gata de transparência na balada e acessando link "Famosa paga calcinha em Ipanema. Veja!"

Me dê um mundo com mais calcinhas e menos cuecas, por favor.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Resoluções de ano novo

Ok, 2014 começou, é mais um ano que passou, menos um que passará. Embora não seja obrigatório fazer aquele velho balanço de tudo que aconteceu, agradecer ao ano em público no facebook e  tudo mais, acredito na importância da lista de resoluções de ano novo. Na minha lógica, botar no papel já é um quase realizar. Então ~balancem~ comigo:

O que fiz em 2013:

- Terminei a pós-graduação;
- Montei um ap pra chamar de nosso;
- Uma nova tatuagem;
- Ganhei outro prêmio de reportagem;
- Ganhei um sobrinho;
- Fui a Brasília e conheci Caco Barcelos hahaha;
- Assisti um show da Gal;
- Comprei um violão;
- Arrumei um outro emprego;
- Gastei toda a renda do novo emprego em três viagens em quatro meses;

O que pretendo para 2014:

- Fazer algum curso marketing digital / redes sociais / analista de mídias etc;
- Assistir mais filmes, ler mais;
- Gastar menos;
- Aprender a cozinhar e arrumar a minha cozinha;
- Parar (ou pelo menos reduzir ao máximo) de comer fora (sendo que esse item depende da execução do item acima);
- Viajar mais;
- Parar de reclamar tanto da vida e das pessoas;


Sendo que se eu conseguir realizar os tópicos "gastar menos" e "viajar mais" simultaneamente, eu prometo ensinar pra vocês.

2014, vem que é noiz.