terça-feira, 9 de julho de 2013

sem compromisso

Quando eu tinha dez anos, mudamos, eu e minha família, para o apartamento onde moro. Na correria de encaixotar tudo, minha mãe esqueceu meus livros e eu não pude fazer as tarefas da escola pro dia seguinte. Eu tinha tanto medo da professora, que obriguei minha mãe a fazer um bilhete assumindo a culpa pelo meu descompromisso. Não era medo da bronca, embora, se você tivesse feito a 4ª série comigo, esse motivo seria o mais plausível quando lembrasse o naipe da professora. O meu medo mesmo era de ser taxada com aquele adjetivo de significado horroroso para mim: irresponsável.

"Prô, a Luana não fez o para-casa porque nos mudamos ontem e não deu tempo de organizar tudo. Peço desculpas e mando esse bilhete, pois ela ficou com medo de que você a ache irresponsável". A intenção da minha mãe foi boa, sabe. Atender o pedido bobo da filha criança e tão responsável. Mas nem precisou passar muito tempo pra que eu percebesse o quanto estúpida foi a ideia do bilhete. No fim da aula a professora, que não me deu bronca, me chamou na mesa dela e disse que tinha achado forte o termo "irresponsável", e que jamais pensaria isso de mim só por aquilo. Constrangida, eu entendi ali que ser responsável ou não, é uma questão de ponto de vista. E que, assim como confiança, é algo que se conquista. 

Tem um amigo meu, que aqui chamaremos de Tom Baxter, que vive de criticar um amigo nosso em comum, o Paul Gauguin. Diz que ele é irresponsável, descompromissado, e, sabe, eu não teria motivos para não engrossar o coro, mas acontece que: não. Ele não é. Ou pelo menos, comigo, ele nunca esqueceu o dever de casa. 

Tudo isso só pra dizer que comecei a pensar nos julgamentos contraditórios aos quais somos submetidos, cotidianamente, pelas convenções de uma sociedade cheia de horários e regras. Você pode ficar até 4 da madrugada no computador trabalhando. Mas se não acorda as 8 é um desocupado. Dá plantão em feriado e dia santo, mas não tem expediente no sábado? Xi, é vida mansa. Não sabe há anos que as palavras "férias" e "julho"podem estar juntas na mesma frase, mas aluga dvd toda quarta-feira e fica assistindo até altas horas. Você é um grande vagabundo.

Não me olhe como se a polícia tivesse atrás de mim só porque não estou disponível no horário dito "útil", "comercial". Nunca soube ser operária, e, se soubesse, arrumaria um lugar quentinho e confortável na fábrica pra dormir escondida. Porque são 2 horas da manhã e eu estou aqui, escrevendo. Sem a menor responsabilidade.