quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Obrigada, papai noel

presente de natal ;*

O meu amigo oculto esse ano foi o meu amor. É legal isso de um amor de amigo, um amigo amor. As pessoas, essas criaturas estranhas com armaduras de ferro contra os sentimentos, são loucas. Elas criam receitas baseadas em experiências clichês e frustrantes, como se o amor fosse um bolo. Como se fosse simples, mesmo com as medidas corretas, acertar o ponto para não solar. Aquela fórmula do amor que o Kid Abelha cantou, minha gente, não existe.

Consegui esconder do Mauricio que ele era o meu amigo oculto por uns 15 dias, tempo recorde. Para uma pessoa que conversa sobre absolutamente tudo com o namorado, no quesito desempenho eu merecia um dez. O Mauricio sabe o que eu penso e sinto na maior parte do tempo, sem que eu precise dizer muita coisa. Sabe fatura de cartão de crédito, número do RG, manequim, sobremesa preferida, o maior medo e o mico clássico da adolescência. Difícil achar algo que nesses 6 anos de convivência tenha ficado realmente oculto.

Na véspera do Natal, quando fui atrás do presente perfeito pro namorado oculto, quebrei toda a tradição e ignorei as regras em um telefonema perguntando se a marca tal de bermuda era ok. Não consigo mais comprar chicletes sem perguntar pra ele se é melhor morango ou hortelã. Se tem tratamento, não me levem pra rehab, por favor.

Porque lindo é a gente se entender mesmo sem seguir as regras. "Não fica tão dependente dele", diziam minhas amigas. "Não se leva namorado pra fazer compras", dizia minha mãe. "Não beba na frente do rapaz", mandavam as titias. Conselheiras, lamento informar que todo esse tempo fui pelo caminho torto. Desde que quebrei a regra número um, sobre namorar o melhor amigo, a coisa foi só piorando. Sou uma quebradeira compulsiva de regras. Maurício entra comigo até no provador, tomamos os maiores porres das nossas vidas juntos e eu não consigo mais dormir sem seu braço. Gal Costa me entenderia.

Não me arrependo nem por um momento de não ter feito questão de ocultar nada. Tudo que eu já vivi com esse meu amigo-amor-oculto resultou numa cumplicidade que, mesmo que venhamos a romper um dia, ninguém vai conseguir apagar ou reviver. Rimos das nossas piadas internas, temos duas ou três brincadeirinhas medonhas e sigilosas, compartilhamos a mesma opinião sobre a maioria das pessoas e coisas que conhecemos e só nós dois sabemos o que aconteceu na véspera da última eleição naquela pousada em Barra Grande.

Não me importo que ele me veja com pijama descosturado, que descubra os podres da família, que saiba onde guardo o absorvente ou que eu babo no travesseiro. O amor veio pra destruir essas barreiras e provar que podemos ser cada vez menos ocultos e sempre mais amigos. Acordei de ressaca em um Natal estranho e vi que papai noel não podia ser melhor pra mim. O meu presente estava bem do lado, respirando, com fungada no cangote e bafinho de leão. E os olhos remelentos e meigos denunciavam um amor desregrado e sem medida.