domingo, 24 de junho de 2012

À nossa casa

Estou fazendo esse registro com a força de quem deseja que as palavras tenham poder. Não há pretensões maiores do que poder mostrar a você, quando você existir, que um dia você foi pensada com força e desejo. Quero que você saiba que nada vai estar em você por acaso. Tudo, até nossos sapatos jogados despretenciosamente em seu vão, terão sido pensados com carinho, pode apostar.

É que ontem eu fui dormir sonhando com você. Imaginando o que eu vou sentir quando começar a levar parte importante da minha vida para dentro de você. Não será tudo, porque tudo será o que viverei depois de entrar por aquela porta e dar de cara com sua sala aconchegante e ampla. Aquele tapete acolhedor, a TV passando um filme velho e as gracinhas que farei pedindo atenção. O abraço no sofá que termina em amor, sem medo de ser interrompido.

Sua cozinha americana - gourmet é muito moderninho - e a geladeira vermelha com fotos na porta, conservando o pedaço de bolo da festa de ontem. Os copos coloridos que eu mesmo comprei, um a um, até formar aquele conjunto. Que drink vamos oferecer aos amigos? Teremos batatinhas e amendoins pra servir naquela bandeja artesanal comprada no mercado?

Consigo imaginar o corredor com aquela luz convidativa. Que quadros vamos pendurar ali? Um mural da família, as fotos daquela viagem - ele me olhando com os braços erguidos na praia, naquele fascínio que só o mar nos permite. Vamos entrar no banheiro? Não há um box, mas a cortina tem motivo de peixinho e as escovas de dente dos que amanhecem em você estão juntinhas como um par a namorar.

Seguindo adiante, a luz que entra pela janela reflete as cores da cortina que escolhemos juntos para lhe enfeitar. Ela balança com o vento, e consigo sentir, sentada na cama espaçosa - chega de torcicolo e dor nas costas. Um quebra luz ilumina a capa de um livro na cabeceira. Quem estará naquele porta retrato? Nossas roupas em uma arara, aquelas gavetas entreabertas na cômoda que herdamos e colorimos num domingo qualquer.

Um refúgio escondido em você guardará nossos livros e discos e terá uma vitrola linda no canto esquerdo. Vai fazer inveja aos seus vizinhos, nossos dias e noites musicais onde o som da música se confunde com o barulho da rede balançando, cabendo dois. Nesses dias não precisaremos de mais nada para ser feliz.

Mais tarde chegará um novo habitante, e você vai receber com muito afeto. Vamos afastar os móveis, espalhar brinquedos pelo seu chão. Vou proteger suas paredes dos lápis de cor, mas teremos de fazer pequenas obras, como armar um pula-pula no gramado. Não se espante se em alguma noite sua sala virar uma floresta de faz de conta, com nós três acampando com lençóis embaixo da mesa de jantar. Você vai adorar, eu garanto.

Em algum canto de você trabalharemos, noutros dançaremos ou comeremos - naquele meu jeito indisciplinado de comer vendo televisão. Vamos dormir e sorrir, de vez em quando chorar, mas uma coisa é realmente certa: seremos felizes como nunca. Quando esquecermos, mesmo que por um minuto, a sua lei, vamos olhar para uma quina entre a cozinha e a sala (aquela onde a Zoé bateu a cabeça dia desses e fez seu primeiro 'dodói') e nela vai está empendurado um pequeno objeto de metal com um segredo. Será a chave do nosso aconchego.

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