quarta-feira, 30 de maio de 2012

como nossos pais

Tem essa parte, na entrevista do João Cláudio à Revestrés onde ele diz que todo mundo tem a sua tragédia pessoal e todo mundo é obrigado a fazer dela a sua história de vida. Pois bem, a minha tem sido descobrir que os meus pais são humanos, tão passíveis a erros quanto eu, você e aquele nosso amigo em comum.

Esse post era pra ser dramático, porque não pense você que foi fácil aceitar isso. Foram algumas quebras de realidade, mas depois um inusitado encontro de descobertas me fez sentir a brisa da ironia da vida batendo no rosto novamente. Fui à casa de Geraldo Brito. Este mesmo, violonista, que teve uma de suas músicas entre as melhores do país, fez shows em Londres, e foi o único piauiense entrevistado pela revista Player Guitar - que me mostrou deixando escapar um orgulho discreto. Mas não adiantou. Para mim, Geraldo Brito é o Geraldim, das histórias de mamãe: testemunha ocular da juventude de meus pais.

É que sempre ouvi falar do Geraldo em uma famosa história romântica. Mamãe contava que ele integrava o grupo que, liderados por meu pai, fazia serenatas pra ela. Na época, claro, em que serenata na janela valia mais que qualquer "relacionamento sério" no facebook. Mamãe conta, modesta toda, que quando ela saia na janela era motivo de confusão entre os rapazes, na disputa pelo seu olhar. Pois é. Geraldo, antes de ser esse mito, era só o cara que tocava violão pra minha mãe.

Aí que Geraldo deu um pulo quando soube minhas raízes geneológicas. No apartamento dele, com fotos do seu encontro com Gal e Caetano penduradas na parede, a pauta familiar se sobrepôs ao real motivo da minha visita. Geraldo contou que meu pai era conservador, careta. Choquei. Lembrei de uma foto que vi certa vez em algum álbum velho, onde meu pai aparecia cabeludo, de calça boca de sino, calçando tamanco e *pausa de reflexão* vestindo UM TOP. Nunca apurei o que esse estilo podia dizer sobre sua personalidade.

E então eu descubro que por trás de toda aquela rebeldia aparente havia um cara bem quadradão, que acreditava "nos princípios da família", risos. Tentava ser "da turma", nas batucadas de samba e rodinhas de violão, mas eis que chega a vovó e manda ele estudar fora acabando com a farra. "Naquela época a negada não tinha muito o que fazer não, então o negócio era beber cachaça e tocar violão". Pouca coisa mudou, Geraldo.

Minha mãe parecia uma indiazinha, morena, do cabelo liso beirando a cintura de medidas invejáveis dentro de um biquíni - mas usava Melissa aranha na praia, moda nunda foi lá o seu forte. Isso eu vi numas fotos dela e do meu pai no tempo de namoro. Vi também fotos promocionais de um show do Geraldo, praticamente dessa mesma época, nas quais ele aparece magrinho, cabeludo, de barbicha e calção de banho - não na praia, mas no rio Parnaíba. Não sei o grau da intimidade do trio, mas fiquei imaginando os três amigos, na coroa, tomando Antartica no fim de semana. Ah, anos 70 que não voltam mais.

Minha divagação acabou quando, na saída do prédio do Geraldo, cruzamos com uma vizinha que foi surpreendida com a notícia de que eu era "filha da Márcia". "Da Maaaaaarcia?? Do Seeeena?! Meldeos, crescemos todos juntos na Felix Pacheco! Eu e sua mãe aprontamos muito!" Fátima, não me esconda nada. Ambas desfilaram numa escola de samba, espero que pintadas de glitter ou com tapa sexo.

Acho que daquelas serenatas românticas em diante, Geraldo nunca mais se afastou do violão. Minha mãe entrou pro serviço público e ha uns 3 anos encontrou Fátima enquanto escolhia hortifrutas no supermercado. Meu pai era Sansão - a vidaloka foi embora com o último fio de cabelo que a calvice, sem dó, o tomou. E minha dor é perceber que tem um pouco disso tudo em mim. João Cláudio estava certo. Todo mundo tem a sua tragédia pessoal e a minha é uma música do Belchior.

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