segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Férias de mim

Hoje, segunda-feira, não saí de casa. Na verdade, aqui cheguei de manhã. Estou naquela delícia de trocar o dia pela noite, que só quem já tirou férias conhece.

O problema todo é que, mesmo de férias, tenho uma obrigação diária: visitar o meu avô. Há uns cinco dias não vou lá para o almoço. Amo o meu avô, mas tudo aquilo que se faz por obrigação se torna um pouco chato e cansativo, admito. Mas visitar o meu avô não pode, nem deve ser. Quem tem parente, tem obrigação.

Minha irmã acabou de chegar do trabalho, arisca e engraçada como sempre. Trouxe um recado: meu avô, esperto e experiente como um bom e quase centenário senhor, concluiu que por ter abandonado o emprego eu esteja sem dinheiro nem para a condução. Perdendo o emprego, perdi também o namorado, a carona. Um raciocínio lógico para quem espera uma explicação. Mandou dizer que eu vá visita-lo, na promessa de me dar o dinheiro para o ônibus.

Achei lindo. Ô, vô. Que saudade sinto. Sei que como homem sereno e compreensivo que sempre foi, entenderia perfeitamente os meus motivos desse tempo afastada até daqueles que amo. Mas entendo também que como pai e amigo que sempre foi, tem todos os motivos de reclamar minha ausência na mesa do almoço.

O que me consola é saber que, ao contrário do que se pensa, as pessoas velhas não se agarram aos fios de vida como se fossem os últimos que lhe restam. Vi uma pesquisa, na ocasião não lembro onde, em que se provava que as pessoas velhas pensam muito menos na morte do que os jovens imortais. Desta maneira, não me espanto ao chegar na casa do meu avô e encontra-lo ocupado com suas atividades, como se lhe viessem mil anos a frente: a leitura matinal, o cochilo após o almoço, a caminhada no fim da tarde. Vez por outra um passeio de carro, uma visita a ponte nova, ao hipermercado que classificou como formidável, uma palavra que eu não ouvia há anos.

Certa vez, ao planejar uma visita a ele no domingo, fiquei sabendo que seria viagem perdida. Estava vovô ocupado, conversando através do Skype com parentes na Venezuela.

Como constatamos, meu avô tem uma vida mais agitada que a minha. Acho que, hoje, todo mundo tem. Não me importa, de verdade. Estou de férias. Da vida, das pessoas, de tudo. Escolhi tirar um tempo para mim, embora agora comece a achar que o ideal mesmo seria um tempo de mim.

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