sexta-feira, 1 de julho de 2011

Fugiu com a novela

Não sei explicar exatamente como aconteceu. Sempre fui adepta do 'tira o som dessa tv pra gente conversar'. Apedrejava e torcia o nariz para quem, julgava eu, deixava de viver para acompanhar a vida do rei do gado, a inveja obsessiva de Flora, ou a recuperação milagrosa de Luciana. 'Psiu, cala a boca, vai começar', berrava alguém em frente a televisão e eu sorria baixinho pensando 'eca, um noveleiro'.

Ai que a coisa me pegou, como uma droga, um vício, uma doença. Não tem saída, não tem perdão: todos os dias, as 21h e um pouquinho lá estou eu assistindo a mais um capítulo de Insensato Coração, um folhetim que começou arrastado, cheio de sofrimento e dias nublados na prisão, mas que agora me levanta sorrisos, choros e gargalhadas deitada no sofá.

Minha irmã é claro, não podia deixar passar essa, e faz piada com a minha mudança drástica de gosto todo momento. Meu pai fica procurando semelhança entre os personagens da trama e pessoas da vida real: “A Eunice da novela? É igualzinha a tia fulana!”. Minha mãe todo dia chega com mais uma novidade: é a Cecília grávida, Leila e Paula formando um casal lésbico e a trouxa da Norma sendo enrolada novamente pelo Leo. Especulações surreais que enchem nosso imaginário de ânsia pelo próximo capítulo.

Ontem cheguei ao ápice da minha fase noveleira. Sai de casa a noite, um pecado para aqueles que ficam de plantão esperando o 'boa noite' do Willian Bonner só para não perder os primeiros minutos de novela. Estava há uma semana adiando a saída com o namorado para conversar, lanchar, tomar sorvete, ou tudo aquilo que as pessoas normais costumam fazer longe das telas de plasma, cubo ou lcd coloridas.

Graças a deus, durante o passeio no shopping, encontrei um refúgio: centenas de Tvs empilhadas todas ao mesmo tempo exibindo, adivinhem só? Isso mesmo, a novela das oito – que na verdade começa as nove. Disfarcei um pouco, fiquei examinando preços e promoções até que quando percebi não havia outra definição para a cena: era uma viciada em estado crítico e avançado, em pleno hipermercado.

Aproximei um pouco e tomei a liberdade de aumentar o volume da TV à venda só para ouvir melhor os desfechos da vingança de Norma. Uma dupla de funcionários carregando caixas de mercadorias topou em mim e pediu desculpas. Voltei ao mundo real. Percebi um simpático senhor de braços cruzados ao meu lado, a compartilhar a TV. Nos entreolhamos e ele disse 'toma Leo, agora tu vai ver o que é bom!” - num desabafo espontâneo e cheio de cumplicidade.

Fiquei sabendo através do J.O, companheiro de redação, que a telenovela brasileira está completando 60 anos – não que a Globo não fizesse questão de anunciar isso a cada 5 minutos em seus intervalos. A cultura e tradição da teledramaturgia não diminuiriam minha culpa. Apenas fiquei menos angustiada quando ele me confessou ser noveleiro de carteirinha. Depois disso disparou quatro nomes de novelas memoráveis e disse que o drama é de família: algumas primas chegam a mandar e-mail para ele comentando os melhores capítulos. Talvez eu ainda tenha salvação.

3 comentários:

  1. é; ainda bem que esse bicho só me mordeu uma vez, na tal da VAMP (idos tempos), de resto eu saio ileso desse mal! Bjo, saudações musicais moça...

    APS

    ResponderExcluir
  2. Eu amo telenovelas, minisséries, seriados e bastidores da TV. Viajo, desestresso. É universo fascinante e acho que não vou enjoar nunca!

    ResponderExcluir
  3. Olha aqui a prima viciada kkkk! Amo novelas, não só aquela estoria, mas os bastidores, os autores, o jeito peculiar que cada um tem pra escrever o texto, diretores,a trilha sonora. Poucas são as pessoas que encontro que compartilham esse mesmo jeito de assistir. A maioria fica apenas com superficialidade das estorias(que às vezes nem é tão boa ou bem contada, um clichê) e esquecem de ver a novela inteira,as artes que estão ali, bem ao alcance,são essas pessoas que desdenham e que equivocadamente, ingenuamente, talvez, tratam as novelas como "subcultura"_como se existisse cultura sub_ "um mal". Uma pena, não sabem o que perdem. Meu vício ultimamente é "Cordel Encantado", mas vou parando por aqui senão o comentário fica maior que o post... sempre acontece isso quando eu, o primo aí de cima, minha irmã e o amigo dela nos juntamos: começamos a falar de novelas e não conseguimos mais parar...rsrsrs

    ResponderExcluir