quinta-feira, 30 de junho de 2011

É proibido cochilar

Muita gente pode não saber mas, além de tirar fotos, meu namorado tem outro grande dom: me acordar. Seja noite ou seja dia, faça sol ou chova canivetes, lá está ele com a sua capacidade única de adivinhar o melhor momento do meu sono para, por que não? Dá uma ligadinha.

Sou a rainha do sono. Acho que ainda não tive a oportunidade de dizer aqui o quanto eu gosto de dormir, cochilar, tirar uma sesta ou qualquer outra denominação que me transporte pro mundo dos sonhos. Não consigo controlar. Durmo no sofá, na rede, na poltrona, deitada, sentada, em pé, lendo, assistindo tv ou até mesmo conversando. Não duvide se um dia, ao me contar alguma história muito longa, perceber que no meio da conversa, num piscar de olhos - se me permite o trocadilho - eu adormeça.

Sonolência não é um estado e sim uma forte característica minha. Por conta disso aproveito ao máximo cada minuto de sono feliz, seja depois do café, antes do almoço, na hora da novela das seis ou num belo domingo a tarde. E não há nada no mundo que me aborreça mais do que ser despertada por outros - sejam eles pessoas, pesadelos ou/e principalmente telefones.

A musiquinha começa, meu coração dispara e dou um pulo. De supetão atendo, imaginando ser o despertador, uma emergência ou o pior de tudo: a hora de levantar. Porque dormir é ótimo, ruim mesmo é ter de acordar. Qualquer dia desses morro disso, de verdade. "Morreu de que?", indagarão os mais curiosos. "De telefone. Tava dormindo, acordou com uma chamada e zaz: morreu". Todos lamentarão a ligação inoportuna.

Por conta dessa minha fantástica adoração ao sono e aversão a celulares tocando já odiei grandes nomes da MPB - que eram toques do meu celular - depositando neles toda a culpa por interromper meu sono. Vivo trocando o toque, como forma de repúdio por quem acorda uma pessoa que dorme. Mas a culpa, tão grande culpa, sempre é da voz do outro lado. "Ow, amor, te acordei?" - "Não, não (disfarçando a voz rouca), tudo bem" - "Volte a dormir, depois nos falamos", dirá ele, um pouco arrependido. Tarde demais. Antes de desligar já terei me certificado de estar de volta ao mundo real: onde sirenes, despertadores e celulares estão aí a todo momento nos provando que a vida não está para cochilos.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Para viver mil anos

"acho que se você viajar, talvez eu fique na fossa
talvez ninguém possa me consolar
acho que se você viajar talvez eu quebre a louça
e atravesse a Rebouças sem olhar pra lado algum..."


Tomei emprestado esses versos de Chico César para dizer que, sem Mauricio Pokemon não há mais nada. Ele tomou um ônibus para Gilbués - sul do Piauí - no último domingo, e me deixou aqui, cheia de ânsia e saudade.

Tô fazendo uma listinha das coisas que tenho para contar quando ele voltar, e olha, não tá fácil. Parece que tudo resolveu acontecer ao mesmo tempo: notebook quebrando, pautas furando e carros barruando. Não tive como mantê-lo informado de tudo, já que nos falamos poucas vezes ao dia, sempre muito rápido e sempre do mesmo jeito: voz tremida de saudade e desejo de que pelo menos um pouquinho do meu amor viesse de volta para mim naquele instante.

Sempre tive medo de amar alguém. Assim, desse jeito, de verdade. Não por prever desilusões ou mágoas, mas pelo simples fato de que, amar tão forte assim requer dedicação, entrega, zelo. Não sei zelar por muita coisa não. Perco canetas, estrago sapatos e meus livros estão sempre com as páginas sujas de alguma coisa. Zelar por um amor assim tão raro é outra coisa. Exige preocupações que antes não estavam por ali, na esquina do sentimento com a razão.

Desde que o Mauricio viajou, me pego pensando sem mais nem porquê se ele tem se alimentado bem, se está passando protetor solar e se cobrindo antes de dormir. Queria está por perto para ajeitar a roupa amarrotada, lhe fazer um rabo de cavalo descente ou mesmo avisar quando ele estiver usando pares de meia trocados. A sensação que tenho é a de que ele não consegue mais dar sequer um passo longe de mim. Quando na verdade, eu é que me encontro aqui completamente perdida...

Amar é zelar por essa outra vida que você escolheu para ser dependente a partir de agora. É saber e ter plena consciência de que você depende do bem-estar do outro para ser feliz e continuar seguindo. Até no amor somos meio egoístas. E eu, que nunca cuidei bem nem de mim, começo a achar que ninguém mais no mundo vai zelar pelo Mauricio como eu. Quanta pretensão, não é mesmo? O amor é pretencioso.

Não me lembro ao certo quando comecei a ficar assim. Foi em algum momento entre o primeiro 'eu te amo' dito de mansinho na lanchonete, até a despedida no domingo, enquanto ele colocava cuecas e máquinas fotográficas na mochila e eu pensava em maneiras de sobreviver pelos próximos dias. Antes do Mauricio partir, por via das dúvidas, refoçamos nosso trato: cuido de você, meu bem, você cuida de mim. E estamos conversados. Talvez essa seja a fórmula para viver mil ano juntos, e, se descobrimos mesmo o segredo, agora só faltam 999.

Nossa primeira batida

Imaginem vocês milhares de pessoas desesperadas desejando voltar para casa a tempo do jantar após um enfadado dia de trabalho - e às vésperas de um feriadão. Multiplique essa cena por mil e pronto: isso foi o cruzamento proximo ao jornal que enfrentei nesta quarta-feira com cara de sexta.

Foi ai, nesse cenário lindo que é qualquer avenida de Teresina às sete da noite, que um caminhão arrastou o carro da minha irmã. Ok, não foi assim tão trágico. Eles andaram assim alguns metros 'coladinhos' e eu, que vinha no banco de trás, dei aquele grito que só convém a pessoas que se surpreendem com um enorme pneu de caminhão aparecendo na janela a seu lado.

Tudo aconteceu muito rápido. Em estado de choque, minha irmã desceu do carro e foi conferir o préjuízo. Quando me dei conta eu estava em pé, do lado de fora do veículo, chamando o caminhoneiro de idiota e perdendo toda a razão. Mas, calma, há uma explicação plausível.

Minha irmã comprou esse carro há uma semana. É um semi-novo, que a levou metade da poupança e que antes mesmo de chegar à nossa garagem já era personagem de uma pequena história de amor. Minha irmã perdeu o contato da dona do carro à venda que viu na rua e ficou por dias com a imagem dele na cabeça, desiludida. Até que, um belo dia, passando despretenciosamente por uma avenida, ela cruzou novamente com o carro dos seus sonhos. E soube ali, naquele instante, que ele seria seu.

O que eu queria mesmo era ter chamado o nada simpático senhor do caminhão em um canto e explicado a ele que, ao bater naquele Ford Ka prata ele não levou apenas um pedaço do para-choque, mas também dos nossos corações. Sentimentalismo à parte, o Ka mau chegou na família e já faz parte dela como nosso mascote: amamos não pelo que é, mas pela conquista que representa para nós.

Pode parecer pouco para você leitor, pra um outro motorista apressado que passou pelo local buzinando ou até para o caminhoneiro imprudente. Mas para minha irmã, que comprou o primeiro carro, para mim, que acabo de começar as aulas de direção e sobretudo para a minha mãe, que sempre denpendeu de ônibus ou carona, esse é sim um grande progresso.

Mesmo tendo medo, sempre sonhei em dirigir. Brincava com barbies dentro de caixa de sapatos vazias como se fossem veículos ultra modernos no meu mundo da imaginação. O dia de ter um carro para chamar de meu ainda não chegou - mas sabe? Nem reclamo. Minha irmã tem sido bem generosa comigo em relação às caronas e sempre fui feliz pelas conquistas dela, de maneira que agora, nesse momento, sinto toda a dor de quem vai enfrentar dias de carro na oficina e julgamento das pessoas.

Bom, ninguém disse que seria fácil, né? Minha irmã ganhou sua primeira marquinha de spray no asfalto e agora estamos gargalhando de tudo e agradecendo por ninguém ter se machucado - exceto pelo carro, que para nós é quase um ser vivo e está arranhadinho agora. E para os caminhoneiros locões de rebite, pensem sempre nos primeiros carros e conquistas dos motoristas a seu redor - e não estraguem suas felicidades, ok?