quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Permissão para dirigir




Finalmente, aos 21 anos, ainda sem esmalte nas unhas e com alguns reflexos de vermelho no cabelo - resquícios de uma rebeldia que já nem existe mais - me olho no espelho, crio vergonha na cara e repito um novo mantra criado por mim esta semana: sim, eu vou dirigir.

Explico: ou isso ou eu ia jogar meu processo no lixo, porque, enquanto houvesse amanhã, haveria uma Luana cara-de-pau na recepção da auto-escola Jóckey implorando "por favor, posso adiar minhas aulas teóricas para.... dois mil e... 30?". Não sei por qual motivo, mas de certa forma eu sabia que o negócio era chato. Quando todos os meus amigos completaram a maior idade, tudo que eu ouvia por ai eram histórias de subornos com os instrutores, mitos sobre a hora do exame no Detran, piadas sobre reprovação no teste psicotécnico e até casos de namoros que começaram nas infinitas aulas de legislação e direção defensiva. Acho que eu não tinha mesmo como formar outra opinião a respeito.

Auto-escola é simplesmente sentir sono enquanto o instrutor lhe fala sobre um monte de regras e exceções que você não vê na prática e mostra vídeos sobre trágicos acidentes de trânsito. É também encontrar pessoas com quem você estudou, tipo, na 5ª série, cujo nome você não lembraria nem valendo um milhão de reais. Mais chato do que o papinho sobre os bons tempos do 6ºA e os rumos que suas vidas tomaram - você nunca pensou que fulana daria para enfermeira, mas sim, ela prestou vestibular. E, por céus, você é jornalista? Existe emprego para isso? - é notar que a fulana também mudou, e perceber nas mudanças dela, as suas transformações.

Mas, voltemos ao assunto em questão, que é ter a liberdade de ir e vir conduzindo um veículo automotor. Ou pelo menos em tese, porque né, eu só paguei a auto-escola, o carro mesmo tá difícil. Na verdade, sou total contra esse delírio atual de que ter um carro é uma meta de vida, é se sentir superior. Somos, em suma, todos pedestres, e por mim não abriria mão dessa condição, não fosse nosso transporte público uma bela bosta. Andaria tranquila de metrô, se em The tivesse um, ou pelo menos terminais com ticket único para ônibus - e não tivesse também um sol de 40ºC lá fora na maior parte do ano, porque, cá entre nós, o pior de andar de bus é chegar sempre suada em todo lugar.

E no fim, é isso. Estou lá eu, por 3h todos os dias, estudando normas e regras de trânsito para futuramente, quem sabe, não ser lá uma motorista tão ruim. O mais interessante é que em cada aula eu vou percebendo que tudo que eu sempre vi meu pai, tias, primos, namorado e até motorista de ônibus fazendo enquanto eu ocupava o lugar do passageiro, está, na verdade, errado. E mesmo eu brigando pro Maurício parar de dirigir com o cotovelo enquanto fala no celular ou pro papai não fumar enquanto dirige, mudar esses hábitos é mais difícil que conquistar 24 territórios no War. Pra mim, ser um bom motorista é uma pura e simples questão de caráter e cidadania. E, esta sim é uma questão difícil de se resolver.

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