segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre meninas e neve

A maior prova de amizade que uma mulher pode dar a outra é apresenta-la sua cabelereira. E, quando na verdade nem éramos ainda tão mulher assim, a Tássia me deu essa prova. E ali, toda menina moça como sempre foi, ela ajudou a mudar o meu cabelo e a minha vida.

Seria até pecado da minha parte dizer que esse foi o maior legado de nossa amizade. Nem de longe. Clube da lulyzinha, cachorro-quente da maçonaria, sorvete napolitano com calda de chocolate quente. Essas foram só algumas das delícias que eu dividi com a menina que na infância matava os pintinhos de estimação do irmão. Lembrando assim, parece tudo tão longe. Aquelas tardes de domingo em que, jogadas na bagunça-organizada do quarto roxo, discutíamos sobre os nossos romances colegiais com a mesma intensidade e relevância com a qual decidíamos para que curso prestar vestibular.



É que naquele tempo, parecia tão natural chorar ouvindo Los Hermanos, quanto entrar no shopping correndo e gritando pra ver um filme do Johnny Depp. Ficar mal nas provas bimestrais, mas sofrer muito mais porque os carinhas da escola (aqueles por quem nossos corações imaturos tratavam logo de se apaixonar) não ligavam no dia seguinte. Caminhar do Inec ao Diocesano com o único propósito de almoçar porcaria no fim da aula e se sentir feliz com uma carta, um bilhete ou um origami pra pendurar na lâmpada. Passar o carnaval jogando Imagem e Ação e tocando violão pelas ruas da Morada do Sol as 3 da madrugada como se fosse um bloco de rua. Na verdade, era meio que nosso bloco ali. E precisava de uma avenida toda pra gente passar.

De vez em quando eu acho um pedaço dessa época em agendas, cartas, diários ou rabiscos num caderno velho qualquer. Tudo isso fazia parte do nosso mundo, que no auge de uma adolescência tão efusiva, não ultrapassava os poucos quarteirões do bairro que até hoje nos separam – separavam. Hoje tua vida vai traçar alguns quilômetros a mais nessa história, te levando pra tão longe, e eu podia jurar que já adulta seria fácil viver dessas lembranças de menina. Mas ainda é tão difícil dizer tchau hoje quanto naquelas tardes de domingo na tua casa, acredite.



Esse texto era pra ter um pouco mais de gratidão, e menos de melancolia. Acho que tem um pouco a ver com a proximidade do meu aniversário, e a lembrança de um 16 de dezembro tão especial em 2006, quando tu me fez descer de pijama as 6 da manhã pra ser a primeira a me dar parabéns e me entregar teus presentes preparados com tanto carinho. Esse ano, tu nem vai tá aqui, e eu vou me encher de saudade e alegria por tudo ter dado tão certo pra ti.

Sabe o que é melhor de tudo? Ter conseguido uma despedida num show do Zeca Baleiro, porque, se há algum cantor que marcou essa amizade, sem dúvida alguma foi ele – dos planos pra roubar o meu colar de palheta ao apelo por um bis numa cartolina, lembra? - Foi em grande estilo, vai, confessa. Então vai, pintinha, segue o teu caminho, vai ver teu floco de neve. Porque aqui, a saudade ainda vai bater no teto.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Naquela estação



Se não me falha a memória, essa foto vai fazer 4 anos no ano que vem. Essa foto, que marcou um significante período da minha vida – um período cinza, sombrio e de espera - foi tirada pelo Maurício Pokemon, aquele amigo legal da faculdade, antes é claro, dele se tornar o que é hoje para mim.

Uma menina magricela, de cabelos assanhado e coletinho, observa o horizonte numa intrigante perturbação: "Pra que os trilhos, se não passa o trem?”. Um local de embarque e desembarque vazio e triste, numa simetria harmoniosa de sombras e contrastes. Era igual, igualzinho o meu coração. Era como um raio-X. Posso dizer, com certeza, que essa é uma das melhores fotos que eu tenho. Mas como aquele garoto conhecia tão bem o que se passava dentro de mim?

Essa foto, tão explícita e reveladora, foi apenas a primeira de muitas que ganhei daquele que até hoje tem gosto em me fotografar. De lá para cá, foram lentas e deliciosas as conquistas – como convém a descoberta de um grande amor. Eu fui ganhando tempo, espaço, importância, um blusão pra dormir e uma escova de dente no banheiro dele.

Hoje, dia 12 de dezembro, completamos um ano e meio de namoro. Posso dizer que em todo esse tempo muitas fotos (mais felizes) foram registradas no papel e no meu coração. Feriados de curtas viagens, semanas de puro trabalho, domingos de intenso amor.

Uma vez, ainda na faculdade, lá pelo fim de algum período, perguntei-lhe: “E agora?”. Foi quando ele, daquele jeito meigo e sem dúvida no olhar, profetizou: “A única certeza que tenho pro meu futuro, é que você vai estar lá”. Eu estou aqui, e vou estar sempre, e não há qualquer outro lugar no mundo onde eu queira estar, se não a seu lado.

E quanto a foto acima, eu estava completamente enganada. Não havia porque esperar trem algum. Meu coração já estava batendo naquela estação.

(Te amo, poks ;*)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Férias de mim

Hoje, segunda-feira, não saí de casa. Na verdade, aqui cheguei de manhã. Estou naquela delícia de trocar o dia pela noite, que só quem já tirou férias conhece.

O problema todo é que, mesmo de férias, tenho uma obrigação diária: visitar o meu avô. Há uns cinco dias não vou lá para o almoço. Amo o meu avô, mas tudo aquilo que se faz por obrigação se torna um pouco chato e cansativo, admito. Mas visitar o meu avô não pode, nem deve ser. Quem tem parente, tem obrigação.

Minha irmã acabou de chegar do trabalho, arisca e engraçada como sempre. Trouxe um recado: meu avô, esperto e experiente como um bom e quase centenário senhor, concluiu que por ter abandonado o emprego eu esteja sem dinheiro nem para a condução. Perdendo o emprego, perdi também o namorado, a carona. Um raciocínio lógico para quem espera uma explicação. Mandou dizer que eu vá visita-lo, na promessa de me dar o dinheiro para o ônibus.

Achei lindo. Ô, vô. Que saudade sinto. Sei que como homem sereno e compreensivo que sempre foi, entenderia perfeitamente os meus motivos desse tempo afastada até daqueles que amo. Mas entendo também que como pai e amigo que sempre foi, tem todos os motivos de reclamar minha ausência na mesa do almoço.

O que me consola é saber que, ao contrário do que se pensa, as pessoas velhas não se agarram aos fios de vida como se fossem os últimos que lhe restam. Vi uma pesquisa, na ocasião não lembro onde, em que se provava que as pessoas velhas pensam muito menos na morte do que os jovens imortais. Desta maneira, não me espanto ao chegar na casa do meu avô e encontra-lo ocupado com suas atividades, como se lhe viessem mil anos a frente: a leitura matinal, o cochilo após o almoço, a caminhada no fim da tarde. Vez por outra um passeio de carro, uma visita a ponte nova, ao hipermercado que classificou como formidável, uma palavra que eu não ouvia há anos.

Certa vez, ao planejar uma visita a ele no domingo, fiquei sabendo que seria viagem perdida. Estava vovô ocupado, conversando através do Skype com parentes na Venezuela.

Como constatamos, meu avô tem uma vida mais agitada que a minha. Acho que, hoje, todo mundo tem. Não me importa, de verdade. Estou de férias. Da vida, das pessoas, de tudo. Escolhi tirar um tempo para mim, embora agora comece a achar que o ideal mesmo seria um tempo de mim.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Eu despedi o meu patrão

Essa foi a minha última semana no jornal em que trabalho. É a primeira vez em 4 anos que eu estou completamente despautada. Sem celular tocando, sem editor cobrando, sem chilique de entrevistado maluco. Sinto-me bem.

Antes que questionem de quem partiu essa decisão, adianto que foi minha culpa, minha tão grande culpa. Quero um tempo pra mim, resolvi me dá uma licença premium por conta própria. Em tempos de um mercado tão difícil e incerto, sei que parece loucura. Mas muitos entenderão os meus motivos, e mesmo que não, a mim basta minha mente e coração em paz.

O certo é que eu estava muito angustiada em escrever coisas que não acredito e conviver com pessoas que não admiro. Preciso de um tempo pra pensar na vida, nos meus projetos e sonhos. Reconstruir meu texto e rever meus princípios. Às vezes é preciso dá a cara a tapa, sair da rotina acomodada e pregar um susto na vida. Arriscar hoje pra ser feliz amanhã.

Foi bom o tempo que durou, admito, aprendi muito em quase dois anos por lá e, olha que coisa, fui feliz no período mais aperriado que passei: carregar DEZ suplementos nas costas e dar conta de TCC e estágio era exaustivo e motivador. E eu adorava. Passava muito tempo na rua e quase nada naquela redação fria - de sentimento, de emoção.

Mas, lá no fundo há um pouquinho de gratidão em mim pela primeira empresa que me contratou após o estágio. Não adianta dizer o contrário: todo estagiário quer, acima de tudo, ser contratado. É um tipo de mérito e reconhecimento pelo seu esforço em aturar todo o abacaxi que vai sempre pros iniciantes.

Só que esse deslumbre foi passageiro. Nunca fui igual aqueles produtores que mal pisam no chão nem a nenhum repórter que enche a boca e veste a camisa da empresa. Ponto negativo pra mim, nunca fui a funcionária perfeita, reconheço. Se adaptar aquele habitat, só vendendo a alma ao diabo, dizem. E fui covarde quando chegou o momento de negociar a minha.

(Abre parêntese)

Não generalizo, sabe. No meio do ninho de interesses e disputas, há joias raras. Garimpando dá pra encontrar. Tati, ô querida Tati! Se tiver chegado até aqui, você que foi a ponte que me levou pra essa nave-louca e foi também responsável pelas melhores matérias que já fiz, queria poder te dar mil abraços de agradecimento. Você merece tantas coisas que não estão naquele lugar. Você, que sozinha é teen, é criança, é moda e é beleza também, tem talvez a função mais importante em todo o jornal: atrair os jovens, os futuros leitores de uma mídia tão defasada. Mas perdoa, Tati. Eles não sabem o que fazem.

(Fecha parêntese)

No fim das contas, agora faço parte das estatísticas de desempregados com diploma embaixo do braço. Não estou triste, nem desesperada. Vou desligar o celular, fazer uma viagem, voltar pros meus livros e pensar no que fazer da vida daqui pra frente, porque, convenhamos, vocês acham mesmo que acaba ali? Pela primeira vez em muito tempo essa sensação de esperança e vontade de fazer mais por mim me invade o peito. Na verdade, está tudo só começando.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Tudo acaba em forró

Não vivo só de trabalho não, de vez em quando rola festa também. Dá uma preguiça danada, eu sei: roupa, maquiagem, unhas e toda aquela preocupação com o cabelo pra não sair de casa parecendo um personagem do Tim Burton. Mas ai teve essa formatura do primo do Maurício e eu, que sequer fui pra minha formatura, encarei de boa.

Lembro de ter ido a poucas festas de formatura na minha vida. Ok, eu odeio muito, de verdade. O pretexto mais comum é virose, e o exibível vira morfo em gavetinhas espalhadas pelo meu quarto. Não sei ai por fora, mas aqui em Teresina há essa febre de festa-de-formatura-super-evento-badaladissimo. Tem gente se matando todo fim de semana pra conseguir um exibível. Tem gente que VENDE exibível pra formatura de Direito com a banda AVIÕES DO FORRÓ. Rola esse comércio paralelo sim, tô te dizendo.

Mas sim, quaaaaaaaando eventualmente vou a alguma formatura, é sempre muito engraçado. Primeiro acho muito brega vestido de formanda, nossa. Eu e Mauricio estamos rindo muito até hoje de um modelo arrasador lá que deixava o peito da menina parecendo uma língua, de tanto balançar. Depois curto demais galera tomando porre e descendo do salto. Do meio pro fim tá todo mundo descalço, dançando swingueira com a cara cheia do whisky.

Ok, tem a parte emocionante também. Eu acho lindo quando os formandos vão sendo chamados um a um, e eles vem desfilando com suas músicas preferidas ao fundo. Eu tava prestes a me emocionar quando a primeira formanda de cara me apresenta um pout-pourri escroto daqueles. Não sei se é regra, mas pelo que analisei, cada formando tem direito a escolher até três músicas. Daí a menina vem descendo ao som de 'I Gotta Feeling' e quando a galera tá no 'uuuuu, uuuuu', vem aquela mudança brusca para 'DESCE, DESCE, DESCE PIRIGUETE'. No meio da passarela ela encontra o padrinho de formatura e os dois juntos começam a dançar 'EU VOU CANTAR PRA TUUUU, GIRL BEAUTIFUUUUUL'. Fim da cena.

Não julgo a menina, sabe. Os meninos também pisaram feio em suas playlist, com destaque para um carinha que entrou na pista ao som de uma swingueira de quinta e finalizou com 'Profissional Papudinho', do eterno Roberto Vilar. Abraçando algum familiar no centro da passarela, o menino ainda tirou do bolso um papel quadradinho e mostrou para nós, plateia atenta: era a carteira de profissional papudinho, juro.

Uma das formandas quase ganha meu voto por escolher 'Boa Sorte', da Vanessa da Mata - infelizmente na versão de, argh, Claudia Leite. Um outro carinha também entrou bonito com 'Você não sabe o quanto eu caminheeeeeeei', dos bons tempos de Cidade Negra. Não fosse ter terminado com o forrozão 'Elas ficam loooooucas', ganharia de mim um abraço afetuoso.

O que eu fico imaginando é o que passa pela cabeça dessas pessoas quando vão fazer essa seleção. As músicas parecem diretamente saídas da última micareta ou de um cd greates hits do pagode do Saci. Não sei, não sei mesmo. Fico imaginando no momento dos preparativos, cada um chegando com as músicas num pen drive, neguim dizendo 'caaara, tive que botar Chicabana, só me lembra aquele carnaval em Luis Correia', e outro 'E eu tive que escolher Garota Safada, claro, é minha história com a fulaninha'. Mas que porra.

Eu não sei, porque não tive festa de formatura, nunca nem parei pra pensar nisso. Só acho que escolher uma música naquele momento onde seus amigos e família estão pra lhe prestigiar, depois de anos de brigas e amizades na faculdade, merecia pelo menos um pouco mais de senso e dedicação. Algo como a-música-da-minha-vida, sei lá. Fui comentar isso aqui em casa e quase levei pedra, pra variar. Minha mãe disse que eu não tava considerando o fato de que essas pessoas GOSTAM dessas músicas, e que nem todo mundo vivia de Caetano, Chico e Novos Baianos, como eu. Nada contra swingueira nem forró - ok, swingueira sim - no fim das festas é o que todo mundo acaba ouvindo. Mas daí pra encerrar perguntei se ela escolheria Diana como música de entrada, que é o que ela sempre pede depois de duas ou três cervejas. Seria lindo ela entrando no salto, de vestidão chique e a galera no coral 'OOOOOOOOH MEU AMAAAAAAAAADOOOOOO'. Negou na lata.

domingo, 4 de setembro de 2011

Você pinta como eu pinto???

- DE NOOOOOVO, LUAAAANA??

Isso foi minha irmã, estagnada porque eu tô pintando a unha pela 24º vez em, o que? Dois dias.

Não venham me julgar, ok. A culpa, de certa forma, é um pouqinho de todos vocês. Até bem pouco tempo atrás eu nem tinha unha. Róia todas, róia sem parar. Era uma mistura de ansiedade com tédio e aí eu fui ficando com dedos de alien até uma inocente aposta com o Maurício. Não sei dizer se foram só negócios em questão, sei que foi: minhas unhas tão grandinhas e agora eu posso pintaaaaaaaaaar.

Passado o período de reabilitação, agora eu tenho outra doença: sou, segundo as pessoas aqui de casa, a maníaca do esmalte. Pinto, pinto, pinto a unha sem parar. Pinto, abraço a acetona, tiro tudo, e pinto de novo. Procuro a perfeição, o traço uniforme, a camada certinha de esmalte na unha. Troquei, amigos, o hábito de roer pelo de pintar as unhas.

Sei que parece exagero, mas olha, não foram vocês que entraram na farmácia pra comprar um absrovente objetos de uso pessoal e se pegaram com a cestinha cheia de esmaltes, de todas as cores, marcas e estilos. Peguei alicate da turma da Mônica teen, gente, e só parei com essa loucura quando a maquininha de preço me disse que o spray secante de esmalte era QUINZE REAIS E NOVENTA CENTAVOS.

Ai ok, eu nao tinha esse dinheiro todo e o Mauricio me sugeriu um amigável empréstipo, que recusei, é claro, com o mínimo de sensatez que ainda me resta. Mas eu devia ter aceitado, sabia? 15 reais seria o mínimo para descarrego de culpa dele por esse meu transtorno. Vivia com papinho de que unha grande era lindo, sexy e tal, mas creio que nunca imaginou chegar ao ponto de me ligar pra sair no sábado a noite e ouvir um 'Não, não posso, tenho que pintar as unhas'. Nem tampouco passar meia hora do seu domingo comigo dentro de uma farmácia tentando decidir entre as cores pétala branca, leite de côco e docinho de côco, que pra ele eram completamente idênticas.

Dentro do carro, voltando da farmácia, ele arriscou um diagnóstico com um pouco de receio. Disse que eu era uma viciada em estado crítico, e que logo mais estarei morando na cracolândia, acompanhando os malas a procura de lata pra fumar pedra e eu tremendo, mordendo os lábios e com os olhos saltando para fora da caixa em busca dos novos lançamentos da Risqué. Morri com essa.

Não sou uma viciada, gente. Talvez, no máximo, esteja sofrendo de um leve transtorno obssessivo compulsivo, mas olha só, Roberto Carlos convive de boa com as loucurinhas dele. Acho completamente ok pintar as unhas 3 vezes por semana ou passar horas no blog Unha bonita aprendendo técnicas, ou ainda arrancar os cabelos tentando entender como é que aquela guria do face conseguiu fazer unha de jornal *-*. Isso aqui é uma arte, e como tal, é digna de qualquer overdose.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Momento Piovani

As pessoas pensam que jornalista gosta de polêmica. Ledo engano. Polêmica é um saco: dá trabalho, tem que ouvir um monte de gente e nunca se chega a lugar nenhum - principalmente, amigos, quando você está envolvido nela.

Essa semana protagonizei um belo espetáculo num portal de notícias da cidade de Castelo. Um professor entusiasta de la chegou (graças ao bom Google) ao meu humilde blog e ficou ultra ofendido com o post que fiz sobre minha ida ao Cachaçafest. Tomado por uma indignação e um sentimento de bairrismo gritante, ele leu coisas que, minha gente, juro: eu não escrevi. Não fiz nenhuma ofensa ao povo de Castelo ao falar que a casa em que fiquei estava em construção. Muito menos ao deixar claro minha ignorância em relação ao lugar. Não conheço a história de Castelo, não sou de lá, nem fui pra ficar.

Meu senso de humor, graças a deus, sempre me permitiu rir dos fatos, dos outros, das situações em que me meto e até - e principalmente - de mim mesmo. Acho que todo mundo ai dos coments rasgados de xingamentos devia primeiro ir fazer um curso rápido de interpretação de texto.

Uma amiga minha, cujo nome o sigilo de fonte me permite não revelar, me viu quase abalada com a situação e deu o melhor conselho ever: dar uma de Piovani, a rainha da phyneza em respostas no Twitter. Mas vou poupar toda a galerinha revoltada de ler as palavras 'rola' e 'chupar' na mesma frase, ok?

Pego no tranco amanhã às 8, eu deveria estar dormindo, sério. E quem vier com gracinha de Marauê pra cima de mim leva porrada, vô avisando.



quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sem coroa nem castelo

Tinha esse festival, em Castelo, de nome bem sugestivo, cujo conteúdo e atrações desconhecíamos. Foi considerando tudo isso que eu e o Maurício botamos uma muda de roupa nas mochilas e fomos até lá, conhecer o Cachaçafest.

Castelo do Piauí fica a umas duas horas daqui, e tudo que eu sabia sobre a cidade era que a fábrica da Mangueira - mais famosa cachaça do Piauí - ficava lá. Nada mais me lembro.

Alugamos um quartinho na casa da irmã do Jr, que "trabalha com turismo" (leia: aluga quartos e organiza trilhas para passeio na pedra do Castelo. Mais sobre isso logo abaixo). Uma simpática e digna dona-de-casa nos recebeu e cobrou 50 reais pela noite. Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Sem brinks: ela estava em construção, de modo que nada de móveis nem pintura nas paredes. Porta nos quartos? Artigo de luxo. Improvisamos com cortinas de lençol.



Despois do workshop sobre o uso do banheiro - não tinha água encanada. Banhamos de balde e canequinha, gente - fomos encontrar nossos amigos da banda Seu Chico. Cidade pequena é isso, né. Galera chegando e se esbarrando de cara: assim encontramos o Nego Grilo na varanda do Hotel Nobre, que de nobre mesmo só um bebedouro com água gelada e um salão com uma mesa de ping-pong empenada.

Foi lá no hotel que uma mocinha recepcionista, provável filha da dona, nos levou até o Seu Chico. Subimos dois lances de escada, ela bateu no quarto 16 e um senhor de bigode e samba-canção saiu na porta. A mocinha se mandou e nós ficamos sem entender nada. Seria o produtor? O pai de algum dos meninos? Explicamos estar a procura dos meninos da banda que se apresentaria logo mais no festival, e ele sem muita certeza respondeu: "Ahh. tão espalhados por ai". Maurício, muito curioso, questionou: "O senhor por acaso se chama Francisco?", no que ele respondeu positivamente - caímos total na risada.

Não demorou muito, encontramos Tibério descendo as escadas. Surpreso em nos ver, também gargalhou horrores com o prévio mau-entendido entre os chicos. Entregamos a ele nossa revista, ele agradeceu, fomos embora comer arrumadinho e, enfim, conhecer o evento. Final Feliz.

Veja você o quão cruel a vida pode ser ao lhe proporcionar uma noite à seco em um evento chamado CACHAÇAfest. Com crise de garganta, abraçava antiflamatórios a pelo menos um dia e meio quando, muito esperta, decidi afrontar a medicina: vou tomar uma dose de cachaça e amanhecer boazinha. Resultado? Uma Luana com febre e dores no caminho de volta pra casa.

Mas antes deu tempo de conhecer mais coisas, ok, não foi tão traumático assim. Já com as malas no carro, passamos na tão falada Pedra do Castelo, uma espécie de ponto turistico local. Juro por deus como não dava nada por ela. Uma pedra? No meio do sol quente? Vamos embora que é mais negócio, pensei. Mas daí Maurício me convenceu de que, se estávamos lá, melhor conhecer logo porque poderíamos *voz de profecia* nunca-mais-voltar. E fomos.



Quer saber? O ponto alto da viagem. Pagamos cinco reais a um guia muito engraçado, que nos levou até a pedra em formato de castelo - destrúido, é claro - que deu origem ao nome da cidade. E era aí que estava a graça. A cultura popular foi criando significados para cada formação rochosa: o salão de entrada, o quarto do rei, os locais ocupados por ex-votos e devotos de Nossa Senhora do Desterro, padroeira da região. E o mais impressionante de tudo: pinturas rupestres! Eu nunca, nunquinha, tinha visto pinturas de urucum (É isso, professor?) nas paredes assim, de perto. Só em livros de história e na tv. Imagino que a pedra do castelo seja assim uma prima pobre da Serra da Capivara, mas achei fantástico ficar tipo, cara-a-cara com os garrachos sem sentido do homem pré-histórico.

E voltamos. Sem cachaça, sem mais histórias e uma gripe dos infernos. Estou ha três dias sem pisar no trabalho, na cama com 39.

Fotos: Maurício Pokemon

sábado, 16 de julho de 2011

Férias italianas

Semana passada os pais do Poks foram dá um pulinho na praia e ficamos só, os dois, sem conversa, sem férias, sem carinho ou comida da sogra. Foi um pouco triste, confesso, imaginar todo mundo curtindo um caranguejo na beira-mar, enquanto a gente dava duro no jornal. Mas, como tudo na vida tem dois lados - três, dizem os mais otimistas - descobrimos que é veríssimo aquele ditado sobre os gatos sairem e os ratos fazerem a festa. E, se não tinhamos cão, digo, praia, caçamos mesmo com o gato. E chega de tanto chavão nessa história.

Bom, a ideia foi fazer um #casalzinhonacozinha a la Dani Cruz. A hastag foi inventada pela blogueira de sampa que eu adoro. Ela protagoniza as mais divertidas tentativas de cozinhar com o namorado e narra tudo no - agora site - Mais Magenta. Fiz umas comprinhas com o Poks e levamos pra casa dele tudo que era necessário para fazer a melhor macarronada de todos os tempos.

Não levem a mal, mas esse é o único prato que sei fazer. E, querem saber? Ficou uma delícia! Estávamos tão empolgados com a ideia do jantarzinho a dois, que acho que mesmo se tivesse ficado ruim a gente tinha se divertido - claro, sujando 4 panelas, melando a cozinha toda e chorando com as cebolas, todo mundo pode ser feliz um dia.



Vou botar aqui a receita pra vocês, mas sem medidas nem passo-a-passo, porque eu sou péssima com metodologia culinária. Quer uma dica? Comece por onde achar melhor, não se apresse em terminar o jantar antes da novela e vá provando tudo pra ver se não pesou a mão no sal. Eu fiz assim e ficou tudo uma de-lí-ci-a (com direito a sogra provando e elogiando, quando chegou de viagem)

Molho:

- 3 tomates picados em cubos
- 2 cebolas picadas em cubos
- cheiro-verde (ou cebolinha, como preferir)
- molho detomate pomarola (eu uso o bolonhesa, mas tem um de ervas finas que é show também)
- tempero sazon para massas (é o amarelinho)
- creme de leite
- salsicha em rodelas
- pedacinhos de calabresa torrados (pode ser bacon, é que nós somos pobres - hahaha)
- 300g de carne moída bem temperadinha



O modo de fazer aqui é mais ou menos o seguinte: ir dourando as cebolas primeiro, depois acrescenta o tomate e o cheiro-verde e o molho pomarola. Acrescente a salsicha, o tempero em pó e deixe cozinhar um pouco. O creme de leite entra por último, pra dá aquele gostinho de estrogonofe. A carne, é claro, tem que ter sido cozida em outra panela, e só depois você mistura com o resto do molho.

Esqueci de outra coisa: fatias de queijo mussarela ou pedacinhos de queijo coalho. A vontade. (O Poks gosta que tudo se pareça com um grande sanduichão, então eu botei também presunto. Mas eu recomendo mesmo queijo e salame. Fica divino.)

Por último, cobri tudo com queijo, joguei uma pitada de orégano e botei no forno, numa daquelas marinex, só pra gratinar. Pra acompanhar, um suco de uva beeeeeem gelado!



OBS IMPORTANTE: O ponto do macarrão! Pelamor, não pode ficar duro, nem paposo demais. Esse, basicamente, é o segredo de toda macarronada. Em geral, basta contar 10 min no relógio pra massa ficar al dente, como chamam por ai. Mas, dependendo da marca, esse tempo pode ficar entre 7 e 8 minutos: por isso, é bom ficar de olho.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Terapia ao volante

O leitor mais atento já deve saber que eu tô aprendendo a dirigir. Estou fazendo o tremendo sacrifício de enfrentar horas de tortura na baliza. Mais difícil do que saber o ponto ideal da meia embreagem é, amigos, acordar às 7 da manhã pra isso.

Mas o post não é sobre isso. Quero contar pra vocês sobre meu instrutor, a pessoa mais paciente do mundo. O nome dele é George, um cara alto, óculos de grau, tranquilão, aliança na mão esquerda - e uma impressionante agilidade no pé direito, capaz de acionar o freio antes que eu jogue o carro com tudo no veículo da frente.

Não vou ser uma boa motorista, não nasci pra isso - embora o George tente me convencer todo dia do contrário. “Tira esse não da boca, Luana. Tente, antes de ser tão negativa”, diz ele me ajudando a ligar o carro em momento de pânico em plena avenida. Quem nunca estancou no meio de um cruzamento não sabe o que é desespero.

Fiz da chatice que é aprender a dirigir um excelente momento de terapia. Eu estava produzindo uma matéria confidencial sobre medo de dirigir e conversávamos bastante sobre esse tema. Vez por outra minhas divagações eram interrompidas por alertas de "A seeeeeta, Luana" - menos 3 pontos.

Nos primeiros dias de baliza vivi momentos de pura tensão. A perna deu câimbra, calos surgiram em minhas mãos e eu não conseguia por nada engatar a ré. Olhava para todos os outros carros em treinamento, e apenas aprendizes solitários suavam a camisa e derrubavam cones - enquanto seus respectivos instrutores papeavam, falavam ao celular ou ouviam música em um banco da praça. Dei graças pelo George. Com os braços doídos, suada e descabelada, olhei para ele com os olhos marejados e sem mais esperanças. "Você precisa de um tempo, né? Vamos dá uma volta”. Ele me entendia.

Certa vez, acidentalmente, derrubei a baliza. Me justifiquei dizendo que pensava estar de 1ª, quando na verdade, a ré estava engatada. O instrutor-filósofo sorriu e disse: “Todo penso é torto”.

Hoje encerrei as aulas práticas e já começo a pensar no bicho-papão do teste. Não temo, só me sinto insegura em saber que estarei sozinha com estranhos em um carro que por tantas horas foi meu divã. Perguntei ao George onde ele estaria quando eu precisasse das suas cordenadas. "Vou está lá longe, torcendo por você". Obrigada, cara.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Fugiu com a novela

Não sei explicar exatamente como aconteceu. Sempre fui adepta do 'tira o som dessa tv pra gente conversar'. Apedrejava e torcia o nariz para quem, julgava eu, deixava de viver para acompanhar a vida do rei do gado, a inveja obsessiva de Flora, ou a recuperação milagrosa de Luciana. 'Psiu, cala a boca, vai começar', berrava alguém em frente a televisão e eu sorria baixinho pensando 'eca, um noveleiro'.

Ai que a coisa me pegou, como uma droga, um vício, uma doença. Não tem saída, não tem perdão: todos os dias, as 21h e um pouquinho lá estou eu assistindo a mais um capítulo de Insensato Coração, um folhetim que começou arrastado, cheio de sofrimento e dias nublados na prisão, mas que agora me levanta sorrisos, choros e gargalhadas deitada no sofá.

Minha irmã é claro, não podia deixar passar essa, e faz piada com a minha mudança drástica de gosto todo momento. Meu pai fica procurando semelhança entre os personagens da trama e pessoas da vida real: “A Eunice da novela? É igualzinha a tia fulana!”. Minha mãe todo dia chega com mais uma novidade: é a Cecília grávida, Leila e Paula formando um casal lésbico e a trouxa da Norma sendo enrolada novamente pelo Leo. Especulações surreais que enchem nosso imaginário de ânsia pelo próximo capítulo.

Ontem cheguei ao ápice da minha fase noveleira. Sai de casa a noite, um pecado para aqueles que ficam de plantão esperando o 'boa noite' do Willian Bonner só para não perder os primeiros minutos de novela. Estava há uma semana adiando a saída com o namorado para conversar, lanchar, tomar sorvete, ou tudo aquilo que as pessoas normais costumam fazer longe das telas de plasma, cubo ou lcd coloridas.

Graças a deus, durante o passeio no shopping, encontrei um refúgio: centenas de Tvs empilhadas todas ao mesmo tempo exibindo, adivinhem só? Isso mesmo, a novela das oito – que na verdade começa as nove. Disfarcei um pouco, fiquei examinando preços e promoções até que quando percebi não havia outra definição para a cena: era uma viciada em estado crítico e avançado, em pleno hipermercado.

Aproximei um pouco e tomei a liberdade de aumentar o volume da TV à venda só para ouvir melhor os desfechos da vingança de Norma. Uma dupla de funcionários carregando caixas de mercadorias topou em mim e pediu desculpas. Voltei ao mundo real. Percebi um simpático senhor de braços cruzados ao meu lado, a compartilhar a TV. Nos entreolhamos e ele disse 'toma Leo, agora tu vai ver o que é bom!” - num desabafo espontâneo e cheio de cumplicidade.

Fiquei sabendo através do J.O, companheiro de redação, que a telenovela brasileira está completando 60 anos – não que a Globo não fizesse questão de anunciar isso a cada 5 minutos em seus intervalos. A cultura e tradição da teledramaturgia não diminuiriam minha culpa. Apenas fiquei menos angustiada quando ele me confessou ser noveleiro de carteirinha. Depois disso disparou quatro nomes de novelas memoráveis e disse que o drama é de família: algumas primas chegam a mandar e-mail para ele comentando os melhores capítulos. Talvez eu ainda tenha salvação.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

É proibido cochilar

Muita gente pode não saber mas, além de tirar fotos, meu namorado tem outro grande dom: me acordar. Seja noite ou seja dia, faça sol ou chova canivetes, lá está ele com a sua capacidade única de adivinhar o melhor momento do meu sono para, por que não? Dá uma ligadinha.

Sou a rainha do sono. Acho que ainda não tive a oportunidade de dizer aqui o quanto eu gosto de dormir, cochilar, tirar uma sesta ou qualquer outra denominação que me transporte pro mundo dos sonhos. Não consigo controlar. Durmo no sofá, na rede, na poltrona, deitada, sentada, em pé, lendo, assistindo tv ou até mesmo conversando. Não duvide se um dia, ao me contar alguma história muito longa, perceber que no meio da conversa, num piscar de olhos - se me permite o trocadilho - eu adormeça.

Sonolência não é um estado e sim uma forte característica minha. Por conta disso aproveito ao máximo cada minuto de sono feliz, seja depois do café, antes do almoço, na hora da novela das seis ou num belo domingo a tarde. E não há nada no mundo que me aborreça mais do que ser despertada por outros - sejam eles pessoas, pesadelos ou/e principalmente telefones.

A musiquinha começa, meu coração dispara e dou um pulo. De supetão atendo, imaginando ser o despertador, uma emergência ou o pior de tudo: a hora de levantar. Porque dormir é ótimo, ruim mesmo é ter de acordar. Qualquer dia desses morro disso, de verdade. "Morreu de que?", indagarão os mais curiosos. "De telefone. Tava dormindo, acordou com uma chamada e zaz: morreu". Todos lamentarão a ligação inoportuna.

Por conta dessa minha fantástica adoração ao sono e aversão a celulares tocando já odiei grandes nomes da MPB - que eram toques do meu celular - depositando neles toda a culpa por interromper meu sono. Vivo trocando o toque, como forma de repúdio por quem acorda uma pessoa que dorme. Mas a culpa, tão grande culpa, sempre é da voz do outro lado. "Ow, amor, te acordei?" - "Não, não (disfarçando a voz rouca), tudo bem" - "Volte a dormir, depois nos falamos", dirá ele, um pouco arrependido. Tarde demais. Antes de desligar já terei me certificado de estar de volta ao mundo real: onde sirenes, despertadores e celulares estão aí a todo momento nos provando que a vida não está para cochilos.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Para viver mil anos

"acho que se você viajar, talvez eu fique na fossa
talvez ninguém possa me consolar
acho que se você viajar talvez eu quebre a louça
e atravesse a Rebouças sem olhar pra lado algum..."


Tomei emprestado esses versos de Chico César para dizer que, sem Mauricio Pokemon não há mais nada. Ele tomou um ônibus para Gilbués - sul do Piauí - no último domingo, e me deixou aqui, cheia de ânsia e saudade.

Tô fazendo uma listinha das coisas que tenho para contar quando ele voltar, e olha, não tá fácil. Parece que tudo resolveu acontecer ao mesmo tempo: notebook quebrando, pautas furando e carros barruando. Não tive como mantê-lo informado de tudo, já que nos falamos poucas vezes ao dia, sempre muito rápido e sempre do mesmo jeito: voz tremida de saudade e desejo de que pelo menos um pouquinho do meu amor viesse de volta para mim naquele instante.

Sempre tive medo de amar alguém. Assim, desse jeito, de verdade. Não por prever desilusões ou mágoas, mas pelo simples fato de que, amar tão forte assim requer dedicação, entrega, zelo. Não sei zelar por muita coisa não. Perco canetas, estrago sapatos e meus livros estão sempre com as páginas sujas de alguma coisa. Zelar por um amor assim tão raro é outra coisa. Exige preocupações que antes não estavam por ali, na esquina do sentimento com a razão.

Desde que o Mauricio viajou, me pego pensando sem mais nem porquê se ele tem se alimentado bem, se está passando protetor solar e se cobrindo antes de dormir. Queria está por perto para ajeitar a roupa amarrotada, lhe fazer um rabo de cavalo descente ou mesmo avisar quando ele estiver usando pares de meia trocados. A sensação que tenho é a de que ele não consegue mais dar sequer um passo longe de mim. Quando na verdade, eu é que me encontro aqui completamente perdida...

Amar é zelar por essa outra vida que você escolheu para ser dependente a partir de agora. É saber e ter plena consciência de que você depende do bem-estar do outro para ser feliz e continuar seguindo. Até no amor somos meio egoístas. E eu, que nunca cuidei bem nem de mim, começo a achar que ninguém mais no mundo vai zelar pelo Mauricio como eu. Quanta pretensão, não é mesmo? O amor é pretencioso.

Não me lembro ao certo quando comecei a ficar assim. Foi em algum momento entre o primeiro 'eu te amo' dito de mansinho na lanchonete, até a despedida no domingo, enquanto ele colocava cuecas e máquinas fotográficas na mochila e eu pensava em maneiras de sobreviver pelos próximos dias. Antes do Mauricio partir, por via das dúvidas, refoçamos nosso trato: cuido de você, meu bem, você cuida de mim. E estamos conversados. Talvez essa seja a fórmula para viver mil ano juntos, e, se descobrimos mesmo o segredo, agora só faltam 999.

Nossa primeira batida

Imaginem vocês milhares de pessoas desesperadas desejando voltar para casa a tempo do jantar após um enfadado dia de trabalho - e às vésperas de um feriadão. Multiplique essa cena por mil e pronto: isso foi o cruzamento proximo ao jornal que enfrentei nesta quarta-feira com cara de sexta.

Foi ai, nesse cenário lindo que é qualquer avenida de Teresina às sete da noite, que um caminhão arrastou o carro da minha irmã. Ok, não foi assim tão trágico. Eles andaram assim alguns metros 'coladinhos' e eu, que vinha no banco de trás, dei aquele grito que só convém a pessoas que se surpreendem com um enorme pneu de caminhão aparecendo na janela a seu lado.

Tudo aconteceu muito rápido. Em estado de choque, minha irmã desceu do carro e foi conferir o préjuízo. Quando me dei conta eu estava em pé, do lado de fora do veículo, chamando o caminhoneiro de idiota e perdendo toda a razão. Mas, calma, há uma explicação plausível.

Minha irmã comprou esse carro há uma semana. É um semi-novo, que a levou metade da poupança e que antes mesmo de chegar à nossa garagem já era personagem de uma pequena história de amor. Minha irmã perdeu o contato da dona do carro à venda que viu na rua e ficou por dias com a imagem dele na cabeça, desiludida. Até que, um belo dia, passando despretenciosamente por uma avenida, ela cruzou novamente com o carro dos seus sonhos. E soube ali, naquele instante, que ele seria seu.

O que eu queria mesmo era ter chamado o nada simpático senhor do caminhão em um canto e explicado a ele que, ao bater naquele Ford Ka prata ele não levou apenas um pedaço do para-choque, mas também dos nossos corações. Sentimentalismo à parte, o Ka mau chegou na família e já faz parte dela como nosso mascote: amamos não pelo que é, mas pela conquista que representa para nós.

Pode parecer pouco para você leitor, pra um outro motorista apressado que passou pelo local buzinando ou até para o caminhoneiro imprudente. Mas para minha irmã, que comprou o primeiro carro, para mim, que acabo de começar as aulas de direção e sobretudo para a minha mãe, que sempre denpendeu de ônibus ou carona, esse é sim um grande progresso.

Mesmo tendo medo, sempre sonhei em dirigir. Brincava com barbies dentro de caixa de sapatos vazias como se fossem veículos ultra modernos no meu mundo da imaginação. O dia de ter um carro para chamar de meu ainda não chegou - mas sabe? Nem reclamo. Minha irmã tem sido bem generosa comigo em relação às caronas e sempre fui feliz pelas conquistas dela, de maneira que agora, nesse momento, sinto toda a dor de quem vai enfrentar dias de carro na oficina e julgamento das pessoas.

Bom, ninguém disse que seria fácil, né? Minha irmã ganhou sua primeira marquinha de spray no asfalto e agora estamos gargalhando de tudo e agradecendo por ninguém ter se machucado - exceto pelo carro, que para nós é quase um ser vivo e está arranhadinho agora. E para os caminhoneiros locões de rebite, pensem sempre nos primeiros carros e conquistas dos motoristas a seu redor - e não estraguem suas felicidades, ok?

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Angical e um pouco de história - de amor

Sábado fui para Angical, no interior do Piauí. Juntei as trouxas com Mauricio, compramos uma porção de revistas e porcarias para comer no carro e pegamos a estrada sem nenhum motivo ou causa específica - exceto pela incumbência de devolver dona Maria, avó materna do Maurício, para sua terra natal.

Angical é uma cidadezinha no centro-norte do Piauí, depois de São Pedro e antes de Amarante. Pequena e pacata, a maior atividade para se ocupar o tempo por lá – sobretudo para aqueles que desembarcam ao cair da noite – é contemplar o nada. Anyway, eu adoro explorar lugares novos, sejam eles pequenos ou grandes, populares ou não.

Fomos, eu e Maurício, procurar algo para jantar por volta das oito horas. O local mais badalado naquele sábado – e acho que em todos os dias – era a praça do mercado central, onde famílias comiam arrumadinhos, cachorros cercavam as mesas com ar de pidões e feirantes dormiam em redes improvisadas próximo as barracas do domingo que se aproximava.

Após a boquinha – bem farta, por sinal. Um senhor simpático nos serviu 700 gramas de picanha e coração bovino pela bagatela de 18 reais. Em Teresina, meio kg de uma picanha magrinha, coitada, é no mínimo 20 reais – resolvemos badalar pela praça central de Angical city para conhecer os nativos e ver se, por ventura, a noite angicalense nos seria sedutora. Naquela noite, a grande atração era a banda Raio Laser e o Pop Som – o som que a galera consagrou. A consagração era por conta da mensagem grafada no caminhão do grupo. A festa acontecia no clube Dois Coqueiros, que na verdade, só tinha um.

Voltamos pra casa abatidos, desencantados da vida, mas não perdemos o passeio. Foi na volta pra casa dos avós do Pokes que fizemos esses registros da criatividade angicalense na hora de dar nomes a seus pontos comerciais. Reparem.





No dia seguinte, antes do almoço, obriguei o Maurício a puxar papo com o vô Gonçalo - um simpático senhor de uns 70 anos, durão, que acorda cedo, limpa a casa, bota milho pras galinhas e vai pra roça de moto, qtau. Investiguei sobre a história do casamento dele com dona Maria, pois, havia boatos, tinha sido as escondidas.
(Abre parêntese)

Gonçalo nasceu em um povoado chamado Retiro, que hoje integra o município de Santo Antônio dos Milagres. Já dona Maria, veio de cachoeira, região ali mesmo por Angical. Eles se conheceram no auge dos 20 anos de idade, nos embalos do já extinto Angical Clube, o clube dos ricos, segundo seu Gonçalo. Para entrar na festa, aliás, era preciso usar um paletó e esperar ansiosamente 360 dias - a festa era anual e o paletó Gonçalo conseguia sempre emprestado dos amigos.

Ele lembra que ia ao clube a cavalo e que na época namorava uma moça chamada Zefinha. "Eu dançava com ela na festa, mas já de olho na Maria", gaba-se o garanhão. A família de Maria não aceitou o romance assim tão fácil. Pelo simples fato de, imagine só, Gonçalo ser filho de "mãe solteira". Ok, estamos falando de 50 anos atrás.

Para a história ficar ainda mais interessante, o jovem Gonçalo era praticamente prometido de uma das primas que, como o próprio conta, "tinha uma cegueira" por ele. "Ela ficava sondando a minha casa atrás de informações se nós estávamos namorando", relembra Maria.

O jeito foi dona Maria (fugida) casar com Gonçalo escondida e se refugiar na casa do pai dele. Com a promessa de casa, comida, roupa lavada e um quintal com galinhas, a moça se derreteu, e o resultado foram 5 filhos e uma dezena de netos para autografar o muro da fama da família Soares.



Dona Maria é só charme posando ao lado do momumento histórico-familiar, hein ;)

(Fecha parêntese)

Fomos visitar a histórica Amarante, ha uns 15 minutinhos de Angical logo após o almoço com frango assado, batidinho e saladinha fresca. Casarões da época da colonização portuguesa e o velho Parnaíba a abraçar a cidade: um belo cenário para terminar a tarde de domingo.


Fotos: Maurício Soares

segunda-feira, 16 de maio de 2011

If I was a it girl...



Ok, andei sumida. Mas nada que o esquema Piauí Fashion Week - doença - Detran não expliquem.

Voltei pra dizer que depois da exausta - porém interessante - cobertura do PFW eu fiquei meio, digamos, fashionista. Até resolvi fazer esse post falando das minhas novas aquisições em termos de maquiagem. Sim, isso mesmo. Sou It girl. Briiiiiiinks.

Confesso que nunca fui tão vaiodosa assim, mas de uns tempos pra cá as vitrines do Boticário tem me saído tão atraentes. Soube dos novos produtos Mate Intense pelos blogs de menininhas - quem nunca se pegou fuçando ou curiando mesmo que por acaso um tutorial de maquiagem na internet que atire a primeira pedra. Fiquei tão fascinada com as cores e a textura suave e aveludada que contei os dias pra que os produtos chegassem as lojas.

Comprei o batom rosa cor de boca rosado (131), o rosa chiclete (231) e o vermelho fechado (330). Esse último, ainda não usei. Dispensa olho carregado, e é 'qualquer coisa de absurdo... se joga no bocão!', nas palavras de Sadi Consati, criador da coleção. Das novas opções de blush trouxe pra casa o rosa boneca, já que o pêssego era muito parecido com um que eu já tenho.

Enfim, era só isso. Os preços tão acessíveis e ainda tem a promoção de comprar 3 ítens Intense e ganhar de brinde um lápis de olho preto, que na verdade eu ja tinha e é ótimo.

E não, não vou postar Look do dia amanhã, beijos. Na verdade, eu ando meio labrocheira esses tempos (eu AMO essa palavra), preguiça total de comprar roupa. Mas, se é pra andar rota, vamos pelo menos manter a cara de saudável com bochecha de boneca e lábio rosado, né miagente.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Sítio do Bosco - a maravilha de acampar na serra

Há uma semana, eu e meu namorado estávamos no pa-ra-í-so.

Sem pensar muito, arrumamos as malas, compramos porcarias práticas pra comer e uma barraca de camping. Isso mesmo.

O destino escolhido foi Tianguá, no Ceará. Cidade que eu só conhecia por suas rapaduras, batidas, mel, cachaças, alfinis, doces, bolinhos e outras iguarias vendidas naquela rodoviária friiiia. Mas, a poucos km dali existe um recanto frio, verde e sossegado. Essa é a descrição no site do Sítio do Bosco.



Porém, para nós, mais do que sossego e frio, essa viagem do feriado representava muitas outras coisas. Nossa primeira viagem a sós, nosso primeiro acampamento e nossa primeira Páscoa juntos. Precisa dizer por que foi tão especial?

Mesmo sendo mochileiros de primeira viagem, acho que no fim das contas eu e Maurício nos saímos muito bem. Nossa barraca foi a única que não molhou durante as chuvas, não perdemos nenhum pertence e chegamos ilesos e vivos - até mesmo depois de voar de parapente e ficar a 800m do chão.



Despreparados, esquecemos de levar apenas alguns ítens importantíssimos para a vida no campo: baralho, dama, dominó, violão e cachaça. A saída foi nos juntarmos a rodinhas de seresta que se formavam ao cair da noite, ou passar horas jogando batalha naval até o sono chegar. Mas, pra quem teme acampar por achar que é um tédio só quando cai a noite, a dica é: levem a barraca e descubram coisas maravilhosas para se fazer nela. Risos.

No domingo, nosso último dia de piquenique, banho gelado, balanço e horas dedicadas a comtemplar nuvens se formando no céu, era Páscoa. Maurício me acordou com meu ovo de páscoa lindo, aquele Chocolover da Nestlé, que vinha no baldinho. Dentro do pacote, um bilhetinho de fazer chorar de romântico.



Ficamos amigos do Bosco, da tia Cila (dona de uma carne de sol com macaxeira di-vi-nas), do Ezequiel (o garçom mais pertubadinho de todos os tempos), do papagaio tagarela e da Laica, cadela labradora mascote do sítio. Foram dias de descanso, amor e amizade.


Manual de sobrevivência em camping


Para quem pretende se aventurar e acampar pela primeira vez como nós, aqui vão minhas dicas - a maioria delas baseadas em meus próprios vacilos como escoteira inexperiente.



- Leve pouca bagagem, roupas de cores e combinações básicas, biquini, um tênis e chinelo para banho e cachoeira. Se for pra serra ou lugar frio, como nós, casaco e meias são indispensáveis. Se for fazer trilha, rappel ou voar de parapente, a calça é peça aconselhável. Eu não levei, tive a sorte de voar com um instrutor que pousava bem e meus joelhos voltaram intactos.

- Lanchinhos como biscoito, batatinha e cup noodles também são uma boa, porque nunca se sabe quando vai bater aquela fome e os restaurantes vão estar fechados.

- Cantil com água também é uma boa, se você for como eu, e teme morrer de sede no meio da madrugada.

- Repelente e protetor solar foram dois ítens que levei e não usei. Não se engane com o campo: o sol, mesmo atrás das nuvens, queima. Meu nariz tá bem aqui pra provar isso.

- Papel higiênico. Sempre. Não vou dizer por que, né.

- Abra mão de produtos como maquiagem, secador, chapinha e acessórios como bolsas, pulseiras, relógios. Mesmo que você seja patricinha assumida, alô-ou, é campo, vai desfilar pra quem, querida?! Deixe-se ao natural para não ficar tão desconexa com a paisagem #ficadica

- Por último, e não menos importante, respeite as regras do camping e pratique a política da boa vizinhança. Não jogue lixo no chão, nem fale alto ou escute suas músicas preferidas em som ou celular na área das barracas. É feio e chato, gente. Se bem que, no primeiro dia, eu e Maurício acordamos com um cara ouvindo Jorge Ben nas alturas. Agradecemos por nosso vozinho ter bom gosto. Foi lindo.

P.s: todas as fotos que ilustram esse post são do meu amor, Maurício Pokemon, originais de máquinas analógicas Canon, Holga, Yashica e Action Sampler.

domingo, 27 de março de 2011

Domingo, brownie e pastel



Todo domingo é a mesma coisa: acordo tarde, almoço com a mamãe e fico esperando o Maurício chegar pra descobrir que nossos planos são simplesmente não fazer nada de útil. Cada um se esparrama num sofá, às vezes vemos um filme, noutras falamos da vida - nossa e das dos outros.

Pra quebrar essa rotina altamente exaustiva do domingo, resolvi me permitir uma aventura gastronômica na cozinha da mamãe. Com Céu e Arnaldo Antunes rolando no som, e munida de chocolate, trigo, manteiga, açúcar e oustros ingredientes, me aventurei em uma receita de brownie simples que pesquei na internet, num desses sites tipo, vovó palmirinha. (sim, eu acesso)

Não pensem que foi fácil acertar o ponto entre um bolo fofinho e um brownie suculento. Vasculhei várias páginas na net em busca do verdadeiro segredo do brownie e fiquei assutada ao encontrar tantas variedades e dicas. Cozinheiras expert afirmavam que o grande lance era tirar a delicinha do forno quando espetasse um palito e ele viesse sequinho. Outras blogueiras apostavam no palito com massa - garantia de um bolinho mais molhado, como condiz a um brownie verdadeiro. Há até quem indique fazê-lo em banho-maria, mas aí já era ter que esperar demais.

Na dúvida, apostamos mesmo foi em pedacinhos de chocolate em barra meio amargo, salpicados sobre a massa. Também derreti chocolate com creme de leite e manteiga, pra fazer a calda. E, acreditem: ficou uma D-E-L-Í-C-I-A.

Depois de tanto doce, veio a vontade suplicante de algo salgadinho. Ai a mamãe deu a ideia de pastel, que é fácil, rápido e muito gostoso.Inventei deliciosos pastéis de pizza, que se resumiam a recheio de queijo, presunto e orégano - mas o que vale é a intenção, gente.

Queria ter fotografado toda essa nossa fartura dominical, mas, acreditem, namoro um fotógrafo que anda sem câmera. Ah gente, domingo é dia santo, vamos lá, esqueçam a profissão. A dona do celular com câmera razoável, infelizmente, não chegou a tempo de pegar os pastéis antes de serem devorados por nós.

Comemos tudo, até espocar, e acho que vou ficar em jejum pelos próximos 3 dias para desencargo de consciência. O resultado da minha experiência na cozinha foi um braço doendo (sim, minha mãe não tem batedeira. O jeito foi mexer a massa do brownie a mão) e até um elogio da sogra com o bom e velho "já pode casar".

Terminando a comilança, eu e Maurício arrumamos esse blog pra ficar menos cegante do que estava. E esse post é só pra estrear o template novo mesmo. Até breve ;)

terça-feira, 15 de março de 2011

Moro onde não mora ninguém (ai, quem dera)

Tá certo que não sou lá uma pessoa tão simples de se relacionar, mas pra mim, a regra básica desse negócio de convivência é saber que a sua liberdade termina onde começa a do outro. Era assim desde o tempo do colégio, em que tínhamos de dividir a sala, a professora e o giz de cera com os coleguinhas. É assim pro resto da vida, a quem desejar viver neste mundo.

Morar comigo não é fácil. Se você me acha legal, agradeça agora mesmo por não termos de dividir o mesmo teto. Sou exigente, chata, reclamona e prezo muito pela minha individualidade: no meu espaço ninguém mexe, por favor.

Atualmente, moro na casa do meu avô, a quem eu amo como um pai. Mais três pessoas vivem aqui com a gente: Yolete, o Raimundinho e a De Deus. Estou falando neles porque me aturam mais que a minha própria mãe, com quem eu só convivo nos finais de semana.

Yolete chegou para cuidar da minha avó, e com a morte dela foi remanejada para acompanhar o vovô. É uma mãe solteira metida a espertalhona, tem um humor legal e uma voz insuportável. Esse Y foi ela que inventou no próprio nome. Ela dorme aqui, ou seja, enche o saco 24 horas por dia.

A de Deus é na verdade Maria de Deus. Está conosco há 30 anos e é diarista – cuida da cozinha, produz café, almoço, merenda e janta, pra quem quer que apareça. Viu praticamente todo mundo da família nascer, carregou no colo, cuidou do machucado e preparou gemada pra todos os meus primos. Seus destaques são o beiju – que fazia todo mundo da família se deslocar pra cá as 6 da tarde no tempo da vovó – o arroz de festa e a canjica – responsável por várias marcas de queimadura em seus braços.

O Raimundinho é praticamente recém-chegado. Ele veio para cá depois que o vovô saiu do hospital, e precisava de atenção especial em atividades como tomar banho, trocar de roupa, ir ao banheiro. Ele tem 16 anos, estuda a noite e é uma espécie de aprendiz de enfermeiro. É simpático, gente boa, cuida do meu avô com o maior carinho e gosta de assistir comédias bizarras na tv.

Ok, apresentado todos os integrantes desse BBB residencial, confesso logo que minha primeira indicada ao paredão é a Yolete. Não suporto gente que só sabe trabalhar ouvindo rádio – e o pior, as piores estações. Este, na verdade, é um mal de todas que passam por aqui. Antes da Yolete morou aqui a Cruzinha, jovem, engraçada, estilo mãezona: era amiga de todos os meus amigos e fazia hambúrgueres deliciosos pra galera. Era outra maria-rádio, mas pelo menos essa eu consegui adestrar com o tempo: emprestava a ela todos os meus cds de pop-rock, que ok, furavam de tanto ela escutar. Mas valia a pena acordar com Kid Abelha a todo volume quando se tinha 15 anos.

Hoje acordo com forró. Isso, entretanto, me incomoda menos do que o fato dela só falar gritando. Na verdade, meu avô escuta muito pouco, por isso é natural despertar nessa casa com gritarias sobre horas de remédios, perguntas sobre como anda o intestino ou como passou a noite e esses outros assuntos comuns a gente idosa. Até fofoca, aqui em casa, é no viva-voz.

Nossa última briga, no entanto, nada tem a ver com barulho. Foi por causa dos jornais de QUATRO dias de carnaval que desapareceram enquanto estive fora. Imaginem o escândalo que dei com o meu trabalho, meus arquivos, na lata de lixo. Não sou muito de briga, nem impor autoridade, até porque nem posso. Não pago o salário de nenhum deles. Mas acho importante estabelecer regras de convivência – e cumpri-las, dando exemplo - para depois poder cobrar de alguém que perturbe a minha paz.

Resolvido o impasse com os jornais, restam os problemas com volume da televisão, descuido com a limpeza da casa e enxerimento no meu quarto – isso é o que mais odeio, portanto, portas sempre trancadas. Mas quando passei a dividir a internet com o meu primo-vizinho, a coisa piorou, porque o modem fica no meu quarto e aturo ligações A COBRAR da Yolete a qualquer hora do dia pra resolver problemas de conexão. Não tenho cara de técnica em informática nem atendente da Velox, mas enfim, paciência.

Por fim, me resta sempre compreender e aceitar a maioria dos incômodos ou chateações, porque eu sei, bem lá no fundo, que nada disso aqui é pra sempre. Estamos confinados numa mesma casa concorrendo a um milhão de reais cada um com seu motivo ou plano particulares. Uma hora ou outra cada um seguirá seu caminho e sobrarão apenas lembranças das conversas boas na hora do café, os risos com alguma piada velha contada pela de Deus e das vaquinhas para comprar pizza no domingo à noite – de alguma forma, mesmo longe de suas casas, todo mundo era feliz.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Permissão para dirigir




Finalmente, aos 21 anos, ainda sem esmalte nas unhas e com alguns reflexos de vermelho no cabelo - resquícios de uma rebeldia que já nem existe mais - me olho no espelho, crio vergonha na cara e repito um novo mantra criado por mim esta semana: sim, eu vou dirigir.

Explico: ou isso ou eu ia jogar meu processo no lixo, porque, enquanto houvesse amanhã, haveria uma Luana cara-de-pau na recepção da auto-escola Jóckey implorando "por favor, posso adiar minhas aulas teóricas para.... dois mil e... 30?". Não sei por qual motivo, mas de certa forma eu sabia que o negócio era chato. Quando todos os meus amigos completaram a maior idade, tudo que eu ouvia por ai eram histórias de subornos com os instrutores, mitos sobre a hora do exame no Detran, piadas sobre reprovação no teste psicotécnico e até casos de namoros que começaram nas infinitas aulas de legislação e direção defensiva. Acho que eu não tinha mesmo como formar outra opinião a respeito.

Auto-escola é simplesmente sentir sono enquanto o instrutor lhe fala sobre um monte de regras e exceções que você não vê na prática e mostra vídeos sobre trágicos acidentes de trânsito. É também encontrar pessoas com quem você estudou, tipo, na 5ª série, cujo nome você não lembraria nem valendo um milhão de reais. Mais chato do que o papinho sobre os bons tempos do 6ºA e os rumos que suas vidas tomaram - você nunca pensou que fulana daria para enfermeira, mas sim, ela prestou vestibular. E, por céus, você é jornalista? Existe emprego para isso? - é notar que a fulana também mudou, e perceber nas mudanças dela, as suas transformações.

Mas, voltemos ao assunto em questão, que é ter a liberdade de ir e vir conduzindo um veículo automotor. Ou pelo menos em tese, porque né, eu só paguei a auto-escola, o carro mesmo tá difícil. Na verdade, sou total contra esse delírio atual de que ter um carro é uma meta de vida, é se sentir superior. Somos, em suma, todos pedestres, e por mim não abriria mão dessa condição, não fosse nosso transporte público uma bela bosta. Andaria tranquila de metrô, se em The tivesse um, ou pelo menos terminais com ticket único para ônibus - e não tivesse também um sol de 40ºC lá fora na maior parte do ano, porque, cá entre nós, o pior de andar de bus é chegar sempre suada em todo lugar.

E no fim, é isso. Estou lá eu, por 3h todos os dias, estudando normas e regras de trânsito para futuramente, quem sabe, não ser lá uma motorista tão ruim. O mais interessante é que em cada aula eu vou percebendo que tudo que eu sempre vi meu pai, tias, primos, namorado e até motorista de ônibus fazendo enquanto eu ocupava o lugar do passageiro, está, na verdade, errado. E mesmo eu brigando pro Maurício parar de dirigir com o cotovelo enquanto fala no celular ou pro papai não fumar enquanto dirige, mudar esses hábitos é mais difícil que conquistar 24 territórios no War. Pra mim, ser um bom motorista é uma pura e simples questão de caráter e cidadania. E, esta sim é uma questão difícil de se resolver.