quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Para quando você voltar

Não sei por aí, mas aqui em casa aniversário é com bolo confeitado, guaraná e presentes. Esse 24 de novembro, no entanto, foi bem diferente. Ao invés de surpreendermos o vovô com votos de felicidade e presentes fofos e carinhosos, ele foi quem nos deu a surpresa: depois de passar a manhã inteira no hospital a notícia de que seria necessária uma operação deixou todo mundo abalado naquela quarta.

Seria diferente se não fosse o vovô. Seria diferente, se não fosse o aniversário dele. Seria diferente se não fossem 93 anos de vida completos e inteirinhos. Foi pensando em tudo isso que eu me peguei chorando ao imaginar meu avô submetido a anestesia geral, um corte no abdomen e a salas de hospitais frias e tristes, sem conforto e sem ninguém. Me contive. Liguei atrás de notícia, mas a voz do outro lado da linha não me convencia de que tratava-se de algo simples. Entrei no carro e em 5 minutos estava no hospital, ao lado de uns 10 ou mais familiares, lotando a sala de espera, conversnao assuntos banais, e no fundo, ansiosos por notícias ou um sinal divino. Uma prova de que não se tratava de um avô qualquer.

Entrei para vê-lo. Estava tranquilo e investigou sobre meu almoço, o jornal, as vitaminas e ofereceu um troco pra merenda. Senti, naquele momento, orgulho de ter seu sangue. E pela primeira vez, mesmo detestanto, eu tinha mesmo tomado as vitaminas.

Quatro horas e muita angústia e agonia depois - nada é mais vazio e solitário do que as cadeiras de espera na sala de um hospital - eis que surge o médico e diz tranquilo que o senhor João Sena completaria 94 anos em casa. Todos ficam tranquilos, aliviados, e recebem a noticia de que apenas alguns dias na UTI seria necessário para a recuperação dele. Agradecemos ao doutor e combinamos todos de comer bolo e comemorar o sucesso da cirurgia aqui em casa.

Antes de ir embora do hospital, entretanto, eu e minha irmã fomos além: ignorando todos os avisos de 'NÃO ENTRE SEM PERMISSÃO', seguimos até a UTI e chamamos os enfermeiros que cuidariam do plantão daquela noite. Explicamos que éramos neta do paciente do leito 3, e a essa altura o hospital todinho ja sabia que ele era o aniversariante do dia. Recomendamos que o agaselhassem bem na madrugada. Ele é friento, não se dá bem com ar condicionado, informei. E retirar a máscara para falar com ele também seria necessário. A pouca audição iria atrapalhar o entendimento, e eu só conseguia pensar nele apavorado acordando sozinho em um local estranho.

Todos entenderam e recomendaram que não nos preocupassemos. 'A noite passa rápido, e ele estará sedado', disse uma das enfermeiras. Não sei porque, aquela frase me preocupou. Num hospital, todos os pacientes são iguais, eu sei. Aquela moça não compreendeu nem de longe a importância pra mim da vida que guardari naquela noite.

Fui embora abatida, querendo colo, pedindo apoio. Todos estavam felizes e otimistas com a recuperação do vovô, mas eu vim pro quarto e chorei. Um vazio, um aperto, uma vontade de protegê-lo de todo o medo e toda a dor do mundo. Senti a casa me receber triste e desolada.

Hoje aproveitei a única hora permitida para visitas na UTI e fui vê-lo. Encontrei um vovô consciente, reclamando do hospital e pedindo pra assistir o Ratinho na tv. Abatido, mas acordado e querendo voltar para casa. Me agradeceu pela visita, pediu que eu cuidasse de tudo. Estou cuidando, vô. Nem mesmo faltei ao jornal hoje. Mas nesse momento, somente agora, queria que aquelas suas vitaminas me dessem a força suficiente pra continuar, acreditando que em breve você estará bem e em casa. Ocupando aquela cadeira que nesse momento balaça vazia ali na sala.

2 comentários:

  1. Vai sim, e vai continuar mandando tu tomar a vitamina e tu vai continuar fazendo aquela mesma cara..

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