quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Beijo Bandido


Os portões fecharam pontualmente às 22h. O público, formado por pagantes de mesas ou ingressos individuais era composto por jovens e adultos que embora não se misturassem no espaço do Atlantic City, se equiparavam por um simples detalhe: estavam ali para ver (alguns pela primeira vez, outros não), a apresentação de um ícone da Música Popular Brasileira, Ney Matogrosso.

A imprensa foi informada que só seriam permitidas fotos durante as 3 primeiras músicas do espetáculo. Sim, espetáculo. Apagaram-se as luzes e uma voz anunciou sua entrada. Lá estava ele, performático e lúdico como sempre. “Porque o Ney até cantando tango consegue ser Ney”, - alguém comentou ao lado. E foi exatamente “Tango para Tereza” que abriu a apresentação do show, uma das 14 faixas do seu mais recente álbum Beijo Bandido, cuja produção escolheu Teresina para iniciar a turnê Nordeste.

Passadas as 3 músicas iniciais (Tango pra Tereza, Invento e Fascinação, todas do novo disco), os fotógrafos se retiraram. Pronto, Ney estava em casa. À vontade, longe das câmeras e máquinas que pudessem fazer algum registro daquele momento, o cantor tirou o terninho que vestia, deixando ver o revestimento de seda vermelho e fazendo gestos, caras e bocas bem insinuantes. Para fazer a cena encher os olhos, só mesmo uma linda combinação de projeções ao fundo (que exibiam um Ney ainda mais ousado do que o que ali se apresentava) com um trabalho de iluminação e cenografia perfeito.

Somado a tudo isso, elementos que contribuíam para a sofisticação do show: nada de guitarras nem violões, e sim piano, violino, violoncelo e uma discreta bateria. Era chegado o momento de apresentar ao público – seja os fãs ou nem tanto, afinal, ninguém passou por uma geração sem conhecer ou ouvir falar em Ney Matogrosso – um intérprete mais maduro, porém ainda ousado, sem isso de focar limitações. Aos 69 anos, depois de ultrapassar a linha do tempo musical e se consolidar como um artista atemporal, Ney estava ali, lançando beijos e gravata a platéia.

Após passear pelo repertório selecionado para Beijo Bandido, onde os ápices foram suas versões para Bicho de Sete Cabeças (Zé Ramalho), Mulher sem razão (Adriana Calcanhotto) e Nada por mim (Herbert Vianna), Ney sob os aplausos calorosos de uma plateia hipnotizada fez bis, tris, e tudo que tinha direito. Afinal, apesar do intuito de tematizar o show com músicas que falam de amor, ciúme, desejo e submissão, não há como imaginar uma turnê de Ney Matogrosso que não passeie, ainda que no último minuto, por um período Secos e Molhados. E foi ao som de Fala, canção de 1973, que Ney cantando como nunca, confirmou sua voz como seu maior trunfo e despediu-se do palco. E o público permaneceu ali, então, apenas escutando.

(Originalmente escrita e publicada no portal 45graus no dia 11 de agosto)

Foto: Maurício Pokemon

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Um parabéns de (pro) coração

Existem pessoas que merecem coisas boas. Eu, você, aquele idiota da sua turma, talvez não sejamos dignos de premiações, títulos ou elogios. Mas isso não impede nossa capacidade de reconhecer quando uma pessoa deve ser admirada por algum feito. Em geral, não sou muito de rasgar sedas pra ninguém. Mas casos específicos me fazem dar braços, pernas, e o que mais tiver a torcer. São os casos isolados de pessoas que merecem uma felicitação apenas por serem assim, exatamente como são. É o caso único de Maurício Pokemon.

O sobrenome do Maurício é tranquilidade. Se um dia a humanidade se dedicasse a dar uma de Maurício, perceberia que metade dos problemas que existe atualmente somos nós mesmo que criamos. E adotaria a calma e a serenidade como leis básicas de sobrevivência. O Maurício transmite paz com o olhar. E esperança com o sorriso. E tem uma mania de acreditar no futuro com uma perseverança tão grande que contagia com doses de otimismo quem quer que esteja por perto.

Alegria e simplicidade que vem de família. Pra ele tanto faz se tem torrada ou morangos com chantili no café da manhã. Aliás, ele nem toma café da manhã mesmo. Coca-cola resolve tudo. Ele não se desespera se passou da hora do almoço, ou se não tem mais roupa limpa. Ele usa regata pra sair na noite se tiver calor, e sai com aquele amigo mesmo todo mundo dizendo que ele é, hm, esquisitinho.

O Maurício vai de chinelo pra festa chique e calça o tênis novo pra entrar na lama. E não troca de carro porque tem o Golzão como companheiro de aventuras. Ele tem colegas promotores e amigos flanelinhas. Seu passa-tempo preferido é conversar com velhinhos no mercado velho. Ele vai todo dia na praça dá um tchauzinho pra galera, seja 3 da tarde ou 1 da manhã. O Maurício dorme no chão. Sim, NO CHÃO. E nem vai se dá ao trabalho de te explicar o porque. E não importa se é domingo de manhã ou sexta dez da noite: ele não vai se negar a te ajudar.

Até aqui tudo bem. Com muito esforço e um trabalho de pesquisa rebuscado você poderia encontrar alguém pelo menos parecido. Mas o Maurício tem uma característica peculiar que o difere dos meros mortais. Ele consegue ver beleza aonde os insensíveis só enxergam o óbvio. E foi esse mesmo olhar, único e exclusivo - e cabe aqui dizer que hoje tem o poder de me melhorar - que me viu quando eu estava quase invisível. Ou talvez tenha sido só sorte mesmo, quando eu sentei exatamente naquela carteira há 4 anos atrás. Vai saber. Seja o olhar diferente ou o destino ("acho que tudo já estava traçado..."), eu só posso é agradecer a quem transformou meu melhor amigo no meu amor, como já diria algum tribalista qualquer por ai.

Ele merece, merece sim.
Parabéns, poks ;*