sexta-feira, 30 de abril de 2010

É só saudade

Não é difícil perceber quando chega o fim. Um olha pro outro assim meio culpado e meio sem graça, e com a angústia e a incapacidade de resolver qualquer coisa que é comum aos dois, reconhecem: é chegada a hora de dizer tchau.

Eu ainda consigo me lembrar do meu primeiro dia no Jornal O Dia. Eu, como todo bom principiante, entrei pelas beiradas. Fecho os olhos e ainda consigo me lembrar daquela sala com cheiro de quentinha abafada que tinha no terceiro andar do prédio. Um absurdo - eu dizia, toda vez que tinha que subir três lances de escada na ânsia de botar uma notícia em primeira mão no portalodia.com

Ai vieram as reformas estruturais. Alguns meses convivendo com a equipe portal e tv numa sala menor que o meu quarto. A tv 29 polegadas sempre ligada no Vale a pena ver de novo. Gente entrando e saindo toda hora. A velha pausa pro lanche, um pastel com coca do Balta, que a gente comia sentados na escada. As diversas variedades de gripe que tive entre o carnaval e a páscoa daquele ano. E entre uma matéria e outra eu percebia que era feliz por ter encontrado uma paixão de verdade (e não era você, Meireles ;P ahueihaie)

E chegou a grande inauguração da redação multimídia com computadores Windows 98, hahaha. Tudo era motivo de graça naquele lugar. E fomos todos muito belos, socializar. E acho que é a partir daí que me lembro de ter começado a perceber a redação do Jornal, digo, o impresso. Muito já se falava em redação integrada, mas até aquele momento, os repórteres dos três veículos mal se cumprimentavam, acho.
Destruir as barreiras de concreto que separavam portal, tv e jornal abriu uma mudança enorme para aquele sistema. E uma maior ainda pra minha rotina dali em diante.



Ai chegou o dia de dizer tchau pra Arlinda, quem primeiro acreditou que a menininha de cabelos vermelho tinha rumo pro negócio. Foi triste, deixou um buraco, mas serviu também pra provar que o que a gente construiu ali vai muito além de uma relação chefe-repórter. E foi então que veio em mim o medo de conhecer o novo coordenador. E, se dizem que não é por acaso que as pessoas entram na sua vida, o Hermes chegou no meu coração pra ficar, e pra fazer uma ponte que proporcionou a melhor experiência profissional até agora.

Ah, espera. Esqueci algo importante. Entre a saída da Arlinda e a chegada do Hermes, devo ressaltar uma outra relação importante. Uma pessoa habituada a correr atrás de bandidos e os crimes de Teresina, com quem fui obrigada a conviver quando a Arlinda me mandava pras pautas de Polícia. Sim, era o chatonildo do Diego. Se eu pudesse, aliás, escolher alguém pra dá um prêmio "obrigada por me aturar", com certeza seria ele. Dos contatos policiais aos conselhos durante as infinitas conversas na hora do lanche da tarde, eram as únicas coisas que me faziam ponderar as brigas com o Cícero, ladrão de suites, auehuia. Lembro exatamente desse dia, porque eu tive vontade de chorar e explodir enquanto ele, Diego, tomava o velho suco de Tamarindo contanto histórias do passado e me mostrando que, nada pode ser tão ruim assim pra sempre.

Ai, pois bem. Com a ida pro jornal impresso, veio a De Boa. Não necessariamente nessa ordem. Ah, a coluna... vou sentir falta da nossa relação doentia, e principalmente de acordar todos os sábados e ir pegar o jornal no jardim curiosa pra ver a diagramação do Diego. Ok, essa parte é mentira. Aos sábados geralmente eu tava de ressaca. E cheguei a ir trabalhar algumas vezes assim, confesso. Era tão engraçado. Chegar na redação com aquelas olheiras de quem virou a noite na farra, e achar que ninguém percebia a sua cara de disposição, haha. Ai era a hora de se entupir de café e ir pra rua, porque nos meus fins de semana de plantões sempre aconteciam coisas catastróficas, incrível.





E ai apareceu a Biá. Que na verdade, sempre esteve ali, me ignorando mesmo, hauieha. Uma coisa fofa de pessoa, que sempre tentou dar uma de durona comigo mas que eu sei, que no fundo no fundo, sempre quis me dá um abraço e dizer 'fica fria, estagiária, vai dá tuuuudo certo". Ter a Biá como minha editora foi um presente. Adorava ter o prazer de acordá-la todas as manhãs, desesperada por pautas e ouvir a voz rouquinha dela dizendo 'estagiáaaaaaria, bom dia!'. Espera. Caiu uma lágrima :~

E em tudo isso tiveram os contatos e convívios paralelos dessa minha participação no Sistema O Dia. Foi a maior honra da minha vida trabalhar com Marco Vilarinho, alguém em que me espelho e que desejaria ser metade do que é um dia - ok, talvez sem aquela delicadeza toda, né. Vou sentir tanta falta das nossas conversas e risos na redação, e das teorias dele sobre pessoas que nascem na piscinas e uma alimentação saudável a base de manga, aheuihaue. Era tanta comédia, que ficava difícil até trabalhar com aquela fonte de cultura do meu lado. Mas agora que ele ficou moderninho e fez um twitter, eu vou poder rir discretamente aqui em casa toda vez que ele postar coisas como 'comprei um mosquiteiro pra minha cama, tô me sentindo Luiz XIV da França' (Houston?)

Owwwwww o Houston :~ Ooowwwwwwwwwwww a Mayarinha. Que me fez chorar tanto no discurso de despedida. Eu consigo lembrar também da nossa primeira saída juntas, pra cobrir a morte do Alberto Silva. Eu, ela e o Robert, de quem eu tremia de medo até as pernas. Hahaha. Isso porque eu não sabia que era só dar intimidade pra esses reporteres de política, viu? Ô povo baixo! No mas, vão ficar muitas lembranças da gargalhada gostosa da Mayara no meio do nada na redação, e do meu lobo mau au au preferidinho de todos os tempos.

Ain. Adara, Gio, Laris, Raoni, Jailson, Aline, Flávio, Thamys, Nate, Eliz, Vanessa, Ceiça, Marcelão, Poli, Nil, Delano, Jota, Lidinha, Vivi, Dani, Mari, Samila, Abdias, Junim, Susy. E ainda os melhores fotógrafos dessa cidade, Jairex, Thiago, Assis, Elias. Muitos passaram, outros permanecem. É tanta gente pra citar que não caberia aqui. Joseeeeliiitoooo, bora dá uma volta? Hahehuaieh. Eu vou morrer de rir toda vez que lembrar dessas pequenas besteiras que fizeram parte da minha vida durante esse, hm, um ano e alguns meses de O Dia. Foram 294397584932 entrevistas, 20948835912 matérias e uma infinidade de aprendizado e conquistas.



Nesse momento eu não sei ainda exatamente o que fazer com esse vazio enorme que essas pessoas vão deixar na minha rotina. Durante essa semana toda eu pensei em maneiras de sentir raiva de tudo e todo mundo, mas eu juro, não encontrei. Tenho orgulho de dizer que convivi com essas pessoas e naquela empresa, me dedicando e tentando absorver o máximo possível do que me era proporcionado. Cada minuto, cada conversa. Vou guardar pra sempre.

Hoje foi muito estranho voltar pra casa percorrendo o mesmo caminho que tantas vezes fiz sorrindo. Aquele mesmo cenário agora me percebia de cabeça baixa e tristonha. E eu não sei como vai ser acordar segunda-feira sem pensar no bolo de sal com nescau do Baltazar ou em dar língua pra Adara chegando atrasada na redação. Talvez eu ainda seja só uma meninona mesmo, e é bem assim que eu me sinto, chorando agora como uma criança no recreio que esqueceu a merenda.

À todos, um enorme e saudosista obrigada por tudo. Que o caderno Torquato dê uma revigorada com alguém que entenda um pouco mais de cinema do que eu, afinal, e que o meu substituto saiba aproveitar sua estadia no melhor lugar pra se trabalhar do mundo. Sei que agora devo permanecer otimista em relação ao que vem pela frente. Mas esse post era só sobre saudade e gratidão mesmo.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Essa canção não é repetitiva


Há cerca de um mês eu era outra pessoa. Alguém totalmente egoísta e voltada pros meus anseios e desejos. Eu estava fechada pro mundo, e não me permitia ter relações mais que superficias com as pessoas, geralmente por deveres e trabalho. Eu tinha preguiça das pessoas. Isso porque eu tava sempre focada apenas no que me parecia interessante ou atrativo.

E foi então que eu vivi a melhor experiência da minha vida. Ok, agora falando assim soa um tanto exagerado, mas estou tentando ser fiel as minhas emoções ao chegar do Erecom - Encontro Regional de Estudantes de Comunicação - que aconteceu este ano em São Luis - MA. Eu nem tava certa de ir, porque pra mim, movimento estudantil não passava de um monte de iludidos vestindo camisetas do Che Guevara, fumando, e dando uma de revolucionário.

Eu estava enganada. Completamente enganada. Ainda no ônibus rumo à ilha senti que a maior revoulução que esses estudantes poderiam fazer era em mim. Foram só 5 dias, mas o suficiente pra mudar completamente a minha maneira de ver algumas coisas. Eu vivi, naqueles corredores da UFMA - e fora deles também, porque pelegar é preciso! - os melhores momentos e as melhores histórias que eu gostaria de contar aqui, mas que, pra quem não viveu, vão parecer surreais. É um mundo paralelo, como alguém definiu em algum dia. Você está ali, cercado de pessoas que nunca viu na vida, e que de repente parecem ser essenciais pra continuação da sua existência. E em poucos segundos de convivência, ninguém conseguia mais definir quem era amigo de infância e quem tinha acabado de se conhecer, no fascínio que é sentir as relações.

Conversei, conheci, descobri, brinquei, bebi, dancei, me diverti horrores. Participei de um núcleo de vivência muito bom, com o pessoal do Quilombo Urbano, e de um grupo de discussão bem proveitoso, sobre distribuição de música na internet. Mas pra mim, o maior aprendizado ainda ficou por conta do coletivo. Do fazer pelo outro. Do entender que todos juntos somos capazes de fazer revoluções que começam dentro da gente mesmo e que podem vir a transformar o mundo de repente, e por que não? As minhas melhores lembranças ficaram por conta dos momentos mais insignificantes, aos olhos de quem não consegue perceber o mundo através das pequenas coisas. É algo sobre fazer cabaninha pra alguém se trocar. Socorrer alguém precisando enquanto todo mundo ficava estático. Procurar remédio pra curar uma febre. Comprar um lanche pra alguém que perdeu a hora do almoço. Carregar uma bêbada pro alojamento. Dividir seu colchão com alguém mesmo que, hmm, deixa pra lá.

O Erecom passou e hoje, com duas unhas do pé a menos, eu percebo e comemoro as mudanças que proporcionou em mim. É mais do que tentar resolver os problemas seculares na comunicação do país. É tentar e conseguir transformar a sua comunicação com você mesmo. Pelo menos, pra mim foi assim. A praia, as musiquinhas, as cachaças, as festas, o pico-pico, o meupal, os acordas, as pessoas e histórias incríveis que conheci estão registradas na lembrança pra sempre, o que é bem melhor do que no blog. Eu vivi tudo que foi possível viver naqueles espaços, e hoje, olhando as fotos e lembrando, meu coração fica apertado de tanta saudade de ser e agir de maneira que só fazia sentido ali, naquele ambiente, em meio a tantas pessoas loucas e incertas como eu. Mas vocês não vão entender. É inútil, é irreal. É como ouvir Rebolation e ter vontade de chorar, juro.

E hoje, eu não sou mais tão vazia. E, se eu pudesse fazer um pedido agora, seria apenas guarnicê meu batalhão de novo.

É isso ai. Que venha a Paraíba, então.