quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O Natal existe

Eu abro o Twitter e vejo aos montes comentários de protesto ao apelo consumista do Natal e as lamentações pela tristeza e melancolia que antecedem as festas de fim de ano e me pergunto: Oi? Será se eu vivo o mesmo dezembro que essas pessoas?

A resposta, claramente, é não. Todo mundo tem sua maneira particular de ver e sentir o mundo, e isso a gente aprende desde cedo - é o tal do conhecimento empirico, a filosofia explica. Concluindo isso, cheguei a pensar em rever meus 'following' no Twitter e dei aloka no bonde do unfollow mesmo: xô gente depressiva e baixo astral. Minha reflexão e lembranças não couberam em 140 caracteres.

Eu não sei pra você, caro leitor, mas pra mim Natal é mágico. Faz tempo, lógico, que eu não boto mais sapatinho na janela do quintal, mas não vou mentir, acho fantástica a figura do Papai Noel. E há de quem tentar me convencer de que o bom velhinho tem alguma culpa nessa história de injustiça social.

A Marina disse ali que essa negatividade toda é comum nas pessoas que não tiveram infância e não aprenderam a viver o Natal. Faz todo sentido. Acho que fez parte da minha formação esperar ansiosa pela manhã do dia 25 para conferir os presentes deixados embaixo da cama. Eu ficava preocupada porque na minha casa não tinha chaminé, e aliás, nem em casa eu morava. Era um apartamento e sem elevador. Como ele, papai Noel, tão velho e exausto de rodar o mundo em uma noite iria subir dois lances de escadas carregado de bonecas, carrinhos e bicicletas? Era um problema.

Além dos presentes - que são importantes sim, não adianta dizer o contrário - dezembro pra mim tem outro significado. Eu adoro esse clima de festa, renovação e até descanso, mesmo estando sem saber o que são de fato férias ha uns 3 anos. O meu aniversário, as agendas lotadas de confratenrizações e ceias, a chuvinha que ignora o sol e enche de cores o céu, a expectativa pelo sorteio do amigo-oculto, aquele cartão de boas festas que recebo de quem nem conheço e o salpicão da mamãe no jantar. Escolher os presentes das crianças e enfrentar filas enormes nas lojas pra comprar uma caixa de meias felpudinhas pro vovô - e até as filas, confesso, eu gosto.

Não importa se você não é cristão, não gosta da sua família ou não acredita em Papai Noel: o Natal está ai, e não adianta culpar o fim do ano e os problemas do mundo pela sua natural desanimação. Presentei uma criança, faça cartas para você mesmo, coma delícias e pessoas. Talvez, quem sabe, isso resolva.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Para quando você voltar

Não sei por aí, mas aqui em casa aniversário é com bolo confeitado, guaraná e presentes. Esse 24 de novembro, no entanto, foi bem diferente. Ao invés de surpreendermos o vovô com votos de felicidade e presentes fofos e carinhosos, ele foi quem nos deu a surpresa: depois de passar a manhã inteira no hospital a notícia de que seria necessária uma operação deixou todo mundo abalado naquela quarta.

Seria diferente se não fosse o vovô. Seria diferente, se não fosse o aniversário dele. Seria diferente se não fossem 93 anos de vida completos e inteirinhos. Foi pensando em tudo isso que eu me peguei chorando ao imaginar meu avô submetido a anestesia geral, um corte no abdomen e a salas de hospitais frias e tristes, sem conforto e sem ninguém. Me contive. Liguei atrás de notícia, mas a voz do outro lado da linha não me convencia de que tratava-se de algo simples. Entrei no carro e em 5 minutos estava no hospital, ao lado de uns 10 ou mais familiares, lotando a sala de espera, conversnao assuntos banais, e no fundo, ansiosos por notícias ou um sinal divino. Uma prova de que não se tratava de um avô qualquer.

Entrei para vê-lo. Estava tranquilo e investigou sobre meu almoço, o jornal, as vitaminas e ofereceu um troco pra merenda. Senti, naquele momento, orgulho de ter seu sangue. E pela primeira vez, mesmo detestanto, eu tinha mesmo tomado as vitaminas.

Quatro horas e muita angústia e agonia depois - nada é mais vazio e solitário do que as cadeiras de espera na sala de um hospital - eis que surge o médico e diz tranquilo que o senhor João Sena completaria 94 anos em casa. Todos ficam tranquilos, aliviados, e recebem a noticia de que apenas alguns dias na UTI seria necessário para a recuperação dele. Agradecemos ao doutor e combinamos todos de comer bolo e comemorar o sucesso da cirurgia aqui em casa.

Antes de ir embora do hospital, entretanto, eu e minha irmã fomos além: ignorando todos os avisos de 'NÃO ENTRE SEM PERMISSÃO', seguimos até a UTI e chamamos os enfermeiros que cuidariam do plantão daquela noite. Explicamos que éramos neta do paciente do leito 3, e a essa altura o hospital todinho ja sabia que ele era o aniversariante do dia. Recomendamos que o agaselhassem bem na madrugada. Ele é friento, não se dá bem com ar condicionado, informei. E retirar a máscara para falar com ele também seria necessário. A pouca audição iria atrapalhar o entendimento, e eu só conseguia pensar nele apavorado acordando sozinho em um local estranho.

Todos entenderam e recomendaram que não nos preocupassemos. 'A noite passa rápido, e ele estará sedado', disse uma das enfermeiras. Não sei porque, aquela frase me preocupou. Num hospital, todos os pacientes são iguais, eu sei. Aquela moça não compreendeu nem de longe a importância pra mim da vida que guardari naquela noite.

Fui embora abatida, querendo colo, pedindo apoio. Todos estavam felizes e otimistas com a recuperação do vovô, mas eu vim pro quarto e chorei. Um vazio, um aperto, uma vontade de protegê-lo de todo o medo e toda a dor do mundo. Senti a casa me receber triste e desolada.

Hoje aproveitei a única hora permitida para visitas na UTI e fui vê-lo. Encontrei um vovô consciente, reclamando do hospital e pedindo pra assistir o Ratinho na tv. Abatido, mas acordado e querendo voltar para casa. Me agradeceu pela visita, pediu que eu cuidasse de tudo. Estou cuidando, vô. Nem mesmo faltei ao jornal hoje. Mas nesse momento, somente agora, queria que aquelas suas vitaminas me dessem a força suficiente pra continuar, acreditando que em breve você estará bem e em casa. Ocupando aquela cadeira que nesse momento balaça vazia ali na sala.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Ela é demais

- Luana, a Tatiara é tudo isso mesmo?

Essa pergunta foi dirigida a mim dia desses, alta madrugada, no msn. E me fez refletir. Não que eu não tivesse a resposta na ponta da língua em imediatos dois segundos depois. Mas porque de repente eu me dei conta de que estava na hora.

Tatiara de França. Esse é o mesmo nome que eu lia ha uns 5 anos, quando eu só sabia que era quinta-feira quando pegava o jornal que jogavam no jardim e via ele. Lá estava, em formato compacto, cores fortes, fontes atraentes. Parecia feito pra mim. Era o Forteens. E, embora Tatiara de frança ainda fosse um nome completamente estranho para mim, seu filhote e projeto já fazia parte da minha vida.

Foi então que este ano aconteceu o que os mais apressados chamariam de obra do destino. Ou acaso, tanto faz. E eu consigo lembrar exatamente o primeiro contato que a loirinha fez comigo no Twitter. O que me surpreendeu, é claro. Não por uma proposta de emprego em um microblog, mas pela capacidade invejável de ser simpática e cativante e ao mesmo tempo tão profissional em um site de relacionamentos que eu ainda nem sabia usar direito.

Ai lá se foi eu, ansiosa e amedrontada, conhecer pessoalmente essa menina-mulher Tatiara. Enquanto ela, editora, tentava me explicar como funcionava mais ou menos a nave louca da redação, eu pensava como eram lindas as sapatilhas dela. Dividida entre a empolgação de um novo estágio e o fanatismo - por deus, era ela mesmo a mamys do Forteens? Um sorriso acolhedor, um olhar compreensivo, uma fala rapidinha de quem tem tanto o que ensinar. A Tati me conquistou, ali mesmo, sem nem pedir licença.

Hoje, ali, no computador ao lado dela, eu fico só babando enquanto ela fecha uma, duas, três mil páginas. Pode mandar, ela desenrola. Inspiração, é isso que ela chama de competência. E deve ser isso também que faz ela entrar no msn uma hora da madrugada para ver as fotos de uma entrevista e ir dormir imaginando como encaixá-las nas páginas coloridas só para valorizar o trabalho do fotógrafo. A Tati levanta a gente, te chama de linda e pergunta se tu fez a sobrancelha. 5 minutinhos de conversa já é o suficiente para se sentir bem, e esse talvez seja o seu maior dom. Não adianta, ninguém é parecido. E sabe por que? Porque ela ama o que faz.

Nem só aquele bolo de festa que guardou pra mim, nem os bloquinhos, canetas, squeezes, fitinhas de santo e camisetas trazidos de muitos cantos do Brasil são os responsáveis pela opinião que formei sobre a the França. Tem toda uma admiração e encantamento por trás disso, que talvez, um dia quem sabe, eu consiga explicar direito. Ela deixa meus dias mais felizes - mesmo ao som de Pitty - e menos cansativos - e juro, o fato de compreender os atrasos nas matérias nem tem nada a ver com isso, tá legal?

E sabe, eu tô aqui escrevendo curiosa pra ver o Forteens de amanhã. Porque sei que, mais uma vez ela vai me surpreender e me encantar com as sacadas de títulos, destaques e posicionamento das coisas de um jeito que só ela consegue fazer. E eu vou recortar e guardar na minha pasta de coleção, exatamente como fazia 5 anos atrás com as minhas cartinhas que ela respondia e publicava toda atenciosa no Forteens. Só que agora, é um contexto mais especial. Nossos nomes ali juntinhos, na cabeça da matéria, pode não representar nada pra você, leitor. Mas para mim, chama-se realização.

- Sim, ela é tudo isso e muito mais.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Eu quero uma casa no campo

Foi no último dia dos namorados. Isso mesmo, essa data capitalista que faz com que os apaixonados troquem presentes e os mau amados se sintam um lixo. E eu, obviamente, fazia parte do segundo grupo, feito um saco plástico bem grande desses que os lixeiros recolhem no fim da noite.

E, sabe, a memória apronta cada uma com a gente. Lembro de um comercial de biscoitos que passava na tv quando eu tinha, ora, uns 4 ou 5 anos. Mas nem com todo esforço do mundo consigo lembrar qual roupa eu vestia naquela noite de junho. Lembro da praça, do banco e dele. A camisa de botão desabotoada. O sorriso largo no rosto. O nervosismo, a incerteza do momento exato, o minuto que antecedeu o beijo e aquele frio na barriga que, dizem, só se sente quando é deverdade. E foi.

Uma semana - ou teriam sido 4 anos? - foi o bastante para a certeza: era isso que eu queria pra sempre. Alguém pra falar mal do trabalho, dividir as angústias e sonhos, lanchar no domingo a noite, passear segurando apenas o dedo mindinho, abraçar apertado e dar beijo estalado, dividir o lençol e empurrar da cama de madrugada. Tava ótimo pra mim.

E foi ai que veio o que me pareceu ser a grande revelação sobre o amor. Namorar é muito mais do que dividir todos esses momentos. É um compartilhar enorme e maravilhoso, é uma doação tão grande de si, que transforma tudo na coisa mais gostosa que até hoje eu experimentei viver. É o almoço com a família, as piadas do tio, a lasanha da sogra. O domingo no parque, o fim de tarde vendo televisão, ou a conversa sobre o festival de 67 naquela viagem. A união e o companheirismo da família giram em torno do querer bem de alguém que, é claro, só pode mesmo se sentir a melhor pessoa do mundo. Quem disser que não ama assim, meu senhor, não conhece o amor.

Por muito tempo eu pensei e valorizei ser só. Hoje, não quero mais aquele apartamento com uma suíte, carro na garagem e passeio por quartos de hotéis solitários. Quero família grande, mesa farta, casa no campo, crianças correndo. Quero aquele abraço forte, aquele beijo gostoso feito coca-cola gelada numa tarde de sol. Quero aquele cafuné na ressaca, e aquele bom dia de voz rouca e dormida. Quero dividir o amor, somar alegrias e multiplicar todos os momentos juntos, sejam bons ou ruins - e pela primeira vez, isso não me parece um cálculo absurdo.

Quero tudo isso, e quero muito. Muito demais.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Beijo Bandido


Os portões fecharam pontualmente às 22h. O público, formado por pagantes de mesas ou ingressos individuais era composto por jovens e adultos que embora não se misturassem no espaço do Atlantic City, se equiparavam por um simples detalhe: estavam ali para ver (alguns pela primeira vez, outros não), a apresentação de um ícone da Música Popular Brasileira, Ney Matogrosso.

A imprensa foi informada que só seriam permitidas fotos durante as 3 primeiras músicas do espetáculo. Sim, espetáculo. Apagaram-se as luzes e uma voz anunciou sua entrada. Lá estava ele, performático e lúdico como sempre. “Porque o Ney até cantando tango consegue ser Ney”, - alguém comentou ao lado. E foi exatamente “Tango para Tereza” que abriu a apresentação do show, uma das 14 faixas do seu mais recente álbum Beijo Bandido, cuja produção escolheu Teresina para iniciar a turnê Nordeste.

Passadas as 3 músicas iniciais (Tango pra Tereza, Invento e Fascinação, todas do novo disco), os fotógrafos se retiraram. Pronto, Ney estava em casa. À vontade, longe das câmeras e máquinas que pudessem fazer algum registro daquele momento, o cantor tirou o terninho que vestia, deixando ver o revestimento de seda vermelho e fazendo gestos, caras e bocas bem insinuantes. Para fazer a cena encher os olhos, só mesmo uma linda combinação de projeções ao fundo (que exibiam um Ney ainda mais ousado do que o que ali se apresentava) com um trabalho de iluminação e cenografia perfeito.

Somado a tudo isso, elementos que contribuíam para a sofisticação do show: nada de guitarras nem violões, e sim piano, violino, violoncelo e uma discreta bateria. Era chegado o momento de apresentar ao público – seja os fãs ou nem tanto, afinal, ninguém passou por uma geração sem conhecer ou ouvir falar em Ney Matogrosso – um intérprete mais maduro, porém ainda ousado, sem isso de focar limitações. Aos 69 anos, depois de ultrapassar a linha do tempo musical e se consolidar como um artista atemporal, Ney estava ali, lançando beijos e gravata a platéia.

Após passear pelo repertório selecionado para Beijo Bandido, onde os ápices foram suas versões para Bicho de Sete Cabeças (Zé Ramalho), Mulher sem razão (Adriana Calcanhotto) e Nada por mim (Herbert Vianna), Ney sob os aplausos calorosos de uma plateia hipnotizada fez bis, tris, e tudo que tinha direito. Afinal, apesar do intuito de tematizar o show com músicas que falam de amor, ciúme, desejo e submissão, não há como imaginar uma turnê de Ney Matogrosso que não passeie, ainda que no último minuto, por um período Secos e Molhados. E foi ao som de Fala, canção de 1973, que Ney cantando como nunca, confirmou sua voz como seu maior trunfo e despediu-se do palco. E o público permaneceu ali, então, apenas escutando.

(Originalmente escrita e publicada no portal 45graus no dia 11 de agosto)

Foto: Maurício Pokemon

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Um parabéns de (pro) coração

Existem pessoas que merecem coisas boas. Eu, você, aquele idiota da sua turma, talvez não sejamos dignos de premiações, títulos ou elogios. Mas isso não impede nossa capacidade de reconhecer quando uma pessoa deve ser admirada por algum feito. Em geral, não sou muito de rasgar sedas pra ninguém. Mas casos específicos me fazem dar braços, pernas, e o que mais tiver a torcer. São os casos isolados de pessoas que merecem uma felicitação apenas por serem assim, exatamente como são. É o caso único de Maurício Pokemon.

O sobrenome do Maurício é tranquilidade. Se um dia a humanidade se dedicasse a dar uma de Maurício, perceberia que metade dos problemas que existe atualmente somos nós mesmo que criamos. E adotaria a calma e a serenidade como leis básicas de sobrevivência. O Maurício transmite paz com o olhar. E esperança com o sorriso. E tem uma mania de acreditar no futuro com uma perseverança tão grande que contagia com doses de otimismo quem quer que esteja por perto.

Alegria e simplicidade que vem de família. Pra ele tanto faz se tem torrada ou morangos com chantili no café da manhã. Aliás, ele nem toma café da manhã mesmo. Coca-cola resolve tudo. Ele não se desespera se passou da hora do almoço, ou se não tem mais roupa limpa. Ele usa regata pra sair na noite se tiver calor, e sai com aquele amigo mesmo todo mundo dizendo que ele é, hm, esquisitinho.

O Maurício vai de chinelo pra festa chique e calça o tênis novo pra entrar na lama. E não troca de carro porque tem o Golzão como companheiro de aventuras. Ele tem colegas promotores e amigos flanelinhas. Seu passa-tempo preferido é conversar com velhinhos no mercado velho. Ele vai todo dia na praça dá um tchauzinho pra galera, seja 3 da tarde ou 1 da manhã. O Maurício dorme no chão. Sim, NO CHÃO. E nem vai se dá ao trabalho de te explicar o porque. E não importa se é domingo de manhã ou sexta dez da noite: ele não vai se negar a te ajudar.

Até aqui tudo bem. Com muito esforço e um trabalho de pesquisa rebuscado você poderia encontrar alguém pelo menos parecido. Mas o Maurício tem uma característica peculiar que o difere dos meros mortais. Ele consegue ver beleza aonde os insensíveis só enxergam o óbvio. E foi esse mesmo olhar, único e exclusivo - e cabe aqui dizer que hoje tem o poder de me melhorar - que me viu quando eu estava quase invisível. Ou talvez tenha sido só sorte mesmo, quando eu sentei exatamente naquela carteira há 4 anos atrás. Vai saber. Seja o olhar diferente ou o destino ("acho que tudo já estava traçado..."), eu só posso é agradecer a quem transformou meu melhor amigo no meu amor, como já diria algum tribalista qualquer por ai.

Ele merece, merece sim.
Parabéns, poks ;*

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Carta a quem já se foi

Teresina, 24 de maio de 2010

Oi, vozinha.

Um ano inteiro já se passou e a sua ausência continua cada vez mais presente nessa casa, incrível. Pouca coisa, aliás, mudou por aqui, desde que você partiu. O vovô mandou podar mais as árvores do terraço lá de fora, mas isso eu nem queria contar - sei o quanto lhe contrariava o sol batendo no seu conjunto de cadeiras.

Bom, eu, confesso, não tenho sido uma boa neta. Continuo juntando o dinheiro da merenda pra tomar cerveja. Sabe como é, que também sem a bebida ninguém aguenta esse rojão, já dizia algum chico ai qualquer. Também esqueço diariamente de tomar as vitaminas que ele me dá, com tanto carinho e preocupação. Fico irritada porque ele desliga meu ventilador e tenho feito um esforço tremendo pra ter paciência de responder todos os dias as mesmas perguntas. Desculpa, vó. Isso não é lá o conceito de neta exemplar que vocês queriam, mas eu tô tentando.

Ok, não sou de todo tão cruel assim. Eu tenho corrido bastante, arrumei um estágio novo, vó! Agora eu saio de casa no começo da tarde e só volto depois das 10. Pego 3 ônibus por dia, e entendi porque todo mundo que trabalha no MN se mantém em forma: subo uma ladeira enooooorme naquele sol bacana de meio dia pra chegar na redação. Tá sendo cansativo, mas eu tô curtindo, sabe. Acho que até já fiz alguns amigos. Já fui pra jantarzinho e já descolei até carona pra aula, ó.

Aliás, por falar em amigos, eu estou numa fase tão boa com eles. Estreitando a relação com alguns e recuperando laços com outros. Me sinto tão bem, numa das melhores fases da minha vida, sério. Ao mesmo tempo em que, lamento pela fragilidade de algumas relações. É que tá tudo tão fugaz ultimamente, vó. Eu juro que tentei, mas não consigo ser de outro jeito: sou romântica e ainda espero a ligação no dia seguinte, ok.

Saindo dessa melosidade de amizade-amor - porque, embora casar esteja longe dos meus planos, eu ainda fico curiosa em saber quem será o marido perfeito que a senhora dizia estar reservado pra mim - estou quase terminando a faculdade. Não lamento por você não estar aqui pra compartilhar isso, nem vai ter festa mesmo, hahaha. Penso em fazer uma viagem, esticar logo uma pós, um mestrado, ou algo do tipo. Eu não posso parar de estudar não, vó, tanta coisa ainda me interessa. Mas, isso são planos pro fim do ano.

Ainda continuo fazendo coisas das quais me arrependo. Mas pelo menos descobri que isso é inevitável, e aprendi simplesmente a não me importar com elas. Continuo também relapsa com contas e prestações, e suspeito até mesmo que minha internet esteja pra ser cortada novamente - esqueci de pagar, novidade... O dinheiro também, nem consigo organizar. Tenho cada vez mais necessidade de compras do que a capacidade do meu dinheiro de pagá-las.

Amanhã, pro aniversário da De Deus, estamos planejando pro almoço, adivinha só? Creme de galinha! Hahahaha. Não será tão gostoso sem você, claro. Mas a gente vai tentar, ok? Sei o quanto é importante pra você que a gente seja feliz por aqui, e é isso que eu tô tentando, diariamente, sem nem exigir muito. Sou feliz por cada dia ter mais certeza do que quero pro futuro e por ter uma sensação estranha de que coisas boas estão reservadas nele. E, se por acaso tudo começar a desandar, eu vou agir com fé, como você sempre ensinou.

Agora preciso ir.

Um beijo cheio de saudade =*

Luana.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

É só saudade

Não é difícil perceber quando chega o fim. Um olha pro outro assim meio culpado e meio sem graça, e com a angústia e a incapacidade de resolver qualquer coisa que é comum aos dois, reconhecem: é chegada a hora de dizer tchau.

Eu ainda consigo me lembrar do meu primeiro dia no Jornal O Dia. Eu, como todo bom principiante, entrei pelas beiradas. Fecho os olhos e ainda consigo me lembrar daquela sala com cheiro de quentinha abafada que tinha no terceiro andar do prédio. Um absurdo - eu dizia, toda vez que tinha que subir três lances de escada na ânsia de botar uma notícia em primeira mão no portalodia.com

Ai vieram as reformas estruturais. Alguns meses convivendo com a equipe portal e tv numa sala menor que o meu quarto. A tv 29 polegadas sempre ligada no Vale a pena ver de novo. Gente entrando e saindo toda hora. A velha pausa pro lanche, um pastel com coca do Balta, que a gente comia sentados na escada. As diversas variedades de gripe que tive entre o carnaval e a páscoa daquele ano. E entre uma matéria e outra eu percebia que era feliz por ter encontrado uma paixão de verdade (e não era você, Meireles ;P ahueihaie)

E chegou a grande inauguração da redação multimídia com computadores Windows 98, hahaha. Tudo era motivo de graça naquele lugar. E fomos todos muito belos, socializar. E acho que é a partir daí que me lembro de ter começado a perceber a redação do Jornal, digo, o impresso. Muito já se falava em redação integrada, mas até aquele momento, os repórteres dos três veículos mal se cumprimentavam, acho.
Destruir as barreiras de concreto que separavam portal, tv e jornal abriu uma mudança enorme para aquele sistema. E uma maior ainda pra minha rotina dali em diante.



Ai chegou o dia de dizer tchau pra Arlinda, quem primeiro acreditou que a menininha de cabelos vermelho tinha rumo pro negócio. Foi triste, deixou um buraco, mas serviu também pra provar que o que a gente construiu ali vai muito além de uma relação chefe-repórter. E foi então que veio em mim o medo de conhecer o novo coordenador. E, se dizem que não é por acaso que as pessoas entram na sua vida, o Hermes chegou no meu coração pra ficar, e pra fazer uma ponte que proporcionou a melhor experiência profissional até agora.

Ah, espera. Esqueci algo importante. Entre a saída da Arlinda e a chegada do Hermes, devo ressaltar uma outra relação importante. Uma pessoa habituada a correr atrás de bandidos e os crimes de Teresina, com quem fui obrigada a conviver quando a Arlinda me mandava pras pautas de Polícia. Sim, era o chatonildo do Diego. Se eu pudesse, aliás, escolher alguém pra dá um prêmio "obrigada por me aturar", com certeza seria ele. Dos contatos policiais aos conselhos durante as infinitas conversas na hora do lanche da tarde, eram as únicas coisas que me faziam ponderar as brigas com o Cícero, ladrão de suites, auehuia. Lembro exatamente desse dia, porque eu tive vontade de chorar e explodir enquanto ele, Diego, tomava o velho suco de Tamarindo contanto histórias do passado e me mostrando que, nada pode ser tão ruim assim pra sempre.

Ai, pois bem. Com a ida pro jornal impresso, veio a De Boa. Não necessariamente nessa ordem. Ah, a coluna... vou sentir falta da nossa relação doentia, e principalmente de acordar todos os sábados e ir pegar o jornal no jardim curiosa pra ver a diagramação do Diego. Ok, essa parte é mentira. Aos sábados geralmente eu tava de ressaca. E cheguei a ir trabalhar algumas vezes assim, confesso. Era tão engraçado. Chegar na redação com aquelas olheiras de quem virou a noite na farra, e achar que ninguém percebia a sua cara de disposição, haha. Ai era a hora de se entupir de café e ir pra rua, porque nos meus fins de semana de plantões sempre aconteciam coisas catastróficas, incrível.





E ai apareceu a Biá. Que na verdade, sempre esteve ali, me ignorando mesmo, hauieha. Uma coisa fofa de pessoa, que sempre tentou dar uma de durona comigo mas que eu sei, que no fundo no fundo, sempre quis me dá um abraço e dizer 'fica fria, estagiária, vai dá tuuuudo certo". Ter a Biá como minha editora foi um presente. Adorava ter o prazer de acordá-la todas as manhãs, desesperada por pautas e ouvir a voz rouquinha dela dizendo 'estagiáaaaaaria, bom dia!'. Espera. Caiu uma lágrima :~

E em tudo isso tiveram os contatos e convívios paralelos dessa minha participação no Sistema O Dia. Foi a maior honra da minha vida trabalhar com Marco Vilarinho, alguém em que me espelho e que desejaria ser metade do que é um dia - ok, talvez sem aquela delicadeza toda, né. Vou sentir tanta falta das nossas conversas e risos na redação, e das teorias dele sobre pessoas que nascem na piscinas e uma alimentação saudável a base de manga, aheuihaue. Era tanta comédia, que ficava difícil até trabalhar com aquela fonte de cultura do meu lado. Mas agora que ele ficou moderninho e fez um twitter, eu vou poder rir discretamente aqui em casa toda vez que ele postar coisas como 'comprei um mosquiteiro pra minha cama, tô me sentindo Luiz XIV da França' (Houston?)

Owwwwww o Houston :~ Ooowwwwwwwwwwww a Mayarinha. Que me fez chorar tanto no discurso de despedida. Eu consigo lembrar também da nossa primeira saída juntas, pra cobrir a morte do Alberto Silva. Eu, ela e o Robert, de quem eu tremia de medo até as pernas. Hahaha. Isso porque eu não sabia que era só dar intimidade pra esses reporteres de política, viu? Ô povo baixo! No mas, vão ficar muitas lembranças da gargalhada gostosa da Mayara no meio do nada na redação, e do meu lobo mau au au preferidinho de todos os tempos.

Ain. Adara, Gio, Laris, Raoni, Jailson, Aline, Flávio, Thamys, Nate, Eliz, Vanessa, Ceiça, Marcelão, Poli, Nil, Delano, Jota, Lidinha, Vivi, Dani, Mari, Samila, Abdias, Junim, Susy. E ainda os melhores fotógrafos dessa cidade, Jairex, Thiago, Assis, Elias. Muitos passaram, outros permanecem. É tanta gente pra citar que não caberia aqui. Joseeeeliiitoooo, bora dá uma volta? Hahehuaieh. Eu vou morrer de rir toda vez que lembrar dessas pequenas besteiras que fizeram parte da minha vida durante esse, hm, um ano e alguns meses de O Dia. Foram 294397584932 entrevistas, 20948835912 matérias e uma infinidade de aprendizado e conquistas.



Nesse momento eu não sei ainda exatamente o que fazer com esse vazio enorme que essas pessoas vão deixar na minha rotina. Durante essa semana toda eu pensei em maneiras de sentir raiva de tudo e todo mundo, mas eu juro, não encontrei. Tenho orgulho de dizer que convivi com essas pessoas e naquela empresa, me dedicando e tentando absorver o máximo possível do que me era proporcionado. Cada minuto, cada conversa. Vou guardar pra sempre.

Hoje foi muito estranho voltar pra casa percorrendo o mesmo caminho que tantas vezes fiz sorrindo. Aquele mesmo cenário agora me percebia de cabeça baixa e tristonha. E eu não sei como vai ser acordar segunda-feira sem pensar no bolo de sal com nescau do Baltazar ou em dar língua pra Adara chegando atrasada na redação. Talvez eu ainda seja só uma meninona mesmo, e é bem assim que eu me sinto, chorando agora como uma criança no recreio que esqueceu a merenda.

À todos, um enorme e saudosista obrigada por tudo. Que o caderno Torquato dê uma revigorada com alguém que entenda um pouco mais de cinema do que eu, afinal, e que o meu substituto saiba aproveitar sua estadia no melhor lugar pra se trabalhar do mundo. Sei que agora devo permanecer otimista em relação ao que vem pela frente. Mas esse post era só sobre saudade e gratidão mesmo.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Essa canção não é repetitiva


Há cerca de um mês eu era outra pessoa. Alguém totalmente egoísta e voltada pros meus anseios e desejos. Eu estava fechada pro mundo, e não me permitia ter relações mais que superficias com as pessoas, geralmente por deveres e trabalho. Eu tinha preguiça das pessoas. Isso porque eu tava sempre focada apenas no que me parecia interessante ou atrativo.

E foi então que eu vivi a melhor experiência da minha vida. Ok, agora falando assim soa um tanto exagerado, mas estou tentando ser fiel as minhas emoções ao chegar do Erecom - Encontro Regional de Estudantes de Comunicação - que aconteceu este ano em São Luis - MA. Eu nem tava certa de ir, porque pra mim, movimento estudantil não passava de um monte de iludidos vestindo camisetas do Che Guevara, fumando, e dando uma de revolucionário.

Eu estava enganada. Completamente enganada. Ainda no ônibus rumo à ilha senti que a maior revoulução que esses estudantes poderiam fazer era em mim. Foram só 5 dias, mas o suficiente pra mudar completamente a minha maneira de ver algumas coisas. Eu vivi, naqueles corredores da UFMA - e fora deles também, porque pelegar é preciso! - os melhores momentos e as melhores histórias que eu gostaria de contar aqui, mas que, pra quem não viveu, vão parecer surreais. É um mundo paralelo, como alguém definiu em algum dia. Você está ali, cercado de pessoas que nunca viu na vida, e que de repente parecem ser essenciais pra continuação da sua existência. E em poucos segundos de convivência, ninguém conseguia mais definir quem era amigo de infância e quem tinha acabado de se conhecer, no fascínio que é sentir as relações.

Conversei, conheci, descobri, brinquei, bebi, dancei, me diverti horrores. Participei de um núcleo de vivência muito bom, com o pessoal do Quilombo Urbano, e de um grupo de discussão bem proveitoso, sobre distribuição de música na internet. Mas pra mim, o maior aprendizado ainda ficou por conta do coletivo. Do fazer pelo outro. Do entender que todos juntos somos capazes de fazer revoluções que começam dentro da gente mesmo e que podem vir a transformar o mundo de repente, e por que não? As minhas melhores lembranças ficaram por conta dos momentos mais insignificantes, aos olhos de quem não consegue perceber o mundo através das pequenas coisas. É algo sobre fazer cabaninha pra alguém se trocar. Socorrer alguém precisando enquanto todo mundo ficava estático. Procurar remédio pra curar uma febre. Comprar um lanche pra alguém que perdeu a hora do almoço. Carregar uma bêbada pro alojamento. Dividir seu colchão com alguém mesmo que, hmm, deixa pra lá.

O Erecom passou e hoje, com duas unhas do pé a menos, eu percebo e comemoro as mudanças que proporcionou em mim. É mais do que tentar resolver os problemas seculares na comunicação do país. É tentar e conseguir transformar a sua comunicação com você mesmo. Pelo menos, pra mim foi assim. A praia, as musiquinhas, as cachaças, as festas, o pico-pico, o meupal, os acordas, as pessoas e histórias incríveis que conheci estão registradas na lembrança pra sempre, o que é bem melhor do que no blog. Eu vivi tudo que foi possível viver naqueles espaços, e hoje, olhando as fotos e lembrando, meu coração fica apertado de tanta saudade de ser e agir de maneira que só fazia sentido ali, naquele ambiente, em meio a tantas pessoas loucas e incertas como eu. Mas vocês não vão entender. É inútil, é irreal. É como ouvir Rebolation e ter vontade de chorar, juro.

E hoje, eu não sou mais tão vazia. E, se eu pudesse fazer um pedido agora, seria apenas guarnicê meu batalhão de novo.

É isso ai. Que venha a Paraíba, então.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Sobre meu casinho secreto

A De Boa me consome. Fui comentar isso com o Diego essa semana, e ele tentou me consolar, mas não é pra ter pena. Eu gosto. É uma relação doentia, eu sei. E sinto muito em estar envolvendo todos vocês nisso, mas preciso dizer: ela me maltrata, me tira o sono, e me tortura nas sexta-feiras sem almoço no horário certo, mas não consigo me imaginar hoje sem ela.

Sou feliz por ter uma coluna. Acho chique isso. "Olá, fulano? Gostaria de pegar um depoimento seu sobre tal assunto... é pra uma matéria pra minha coluna no Jornal O Dia...". Tá certo que a coluna é do Diego,e já existia antes deu existir no jornalismo (iei, chemei de velho), mas deixa vai, tem minha fotinha lá também. A De Boa é minha fuga das matérias jornalísticas engessada cotidianas. É onde eu acabo de maneira ou de outra, expresando uma opinião sutil nas entrelinhas. Ou usando argumentos sobre tantos assuntos que ha tempso tenho guardado em algum lugar da memória. Gosto de escrever pra jovens, por fazer parte do grupo, e gosto de escrever pra adultos sobre o mundo jovem, que parece tão irreal e distante da realidade deles. E me surpreendo às vezes com o óbvio.

Eu nunca consigo terminar a matéria antes do prazo final para o fechamento. Sempre entrego ali, no último minuto, com todo mundo pressionando e depois de ler e reler, pensar na proposta novamente e achar que tá faltando alguma coisa. É que mesmo sem conseguir escrever sequer uma linha do texto com antecedência, eu tenho necessidade de pensar na pauta da vez durante todos os dias da semana. É uma espécia de construção de ideias. Me sinto a Carrie de Sexy and the city, que conversa com as amigas sobre sexo e relacionamentos durante toda a semana e depois escreve sua coluna, num misto de conclusões fundamentadas nas experiências das colegas e muitas vezes nas suas próprias. Só que a De Boa não fala só de relacionamentos, e iso é legal, porque me permite passear por tantos outros assuntos. E a parte mais legal da construção da pauta da semana, são as conversas de bastidores e os momentos de discussões na redação. Alguém que conhece alguém que fugiu de casa com o namorado, que usa anabolizante, que ama ou odeia o formspring, que adora micareta e que está em dúvida sobre o que ser quando crescer. E as histórias vão surgindo aos montes.

Não consigo explicar, mas é um troço complicado e trabalhoso. O resultado é sempre bom. Acho que porque até agora nunca aconteceu de uma pauta cair de última hora, o que seria desesperador e um tanto quanto traumatizante - e por isso agradeço a todas as psicólogas que se dispuseram a falar comigo na hora do almoço e ao editorzinho que tem a paciência de esperar as vezes até 4 da tarde, hahaha. Tomara que eu continue nessa relação totalmente submissa com a De Boa, que surgiu assim do nada na minha vida, como um desafio qualquer, e acabou virando minha prática mais prazerosa ultimamente.

P.S: O engraçadinho que disser que eu estou precisando de outra "prátia mais prazerosa" vai se ver comigo, ok.

P.S 2: Faltou a propagandinha básica, né? A De Boa sai no caderno Torquato do Jornal O Dia todos os sábados. É feita por mim e pelo Diego Iglesias.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Desgraça e glória dessa vida

Sou uma pessoa tão predestinada a fazer o que faço, que até nas horas de agonia meu refúgio é escrever. Isso se manifestou ainda aos 4 anos, quando, surpreendendo a todos, eu comecei a escrever e ler antes de entrar na escola - minto. Eu não lia ainda, mas escrevia meu nome direitinho, sabia todo o alfabeto e chamava o D de Sr. Barriga(?)

Sendo verdade ou não, o fato é que é difícil acreditar que o "destino" te reserve coisas boas quando quem trabalha feito um louco até muito além da conta é você. Chegando em casa sempre bem depois do almoço e encontrando a comida fria que eu não vou esquentar porque, além do fato de não termos um microondas aqui em casa (acho que quando meu avô e minha avó casaram isso nem existia, fato), botar a comida no fogo não vai fazer ela se transformar num bife de fígado acebolado com farofa do Sabor Brasil, que era o que eu queria comer exatamente agora. Ela vai continuar sendo a comida sem tempero da menina que trabalha aqui e que agora, aliás, está muito ocupada fazendo as unhas e não vai de modo algum se preocupar com a minha fome (e eu nem quero, porque A VIDA É MINHA O PROBREMA É MEEEU #solangeBBBalgumacoisa).

Só fazendo um esforço muito, muuuito grande, pra ser otimista em relação ao seu futuro vendo que na verdade, no presente, só você se ferra e abre mão de tantas outras coisas que gostaria de estar fazendo em nome de uma outra coisa que você nem sabe se de fato, fará. É o salário que vem pouco, as contas que se reproduzem assexuadamente por bipartição, os sapos diários que você tem que engolir e as pessoas insuportáveis que você tem que aturar diariamente com aquela cara constante de 'que dia lindoooo'. O céu tá nublado e, embora o tempo tenha fechado, a realidade parece finalmente estar se abrindo pra mim.

É difícil seguir sem motivação. E é difícil encontrar motivação quando o corpo pede uma rede, os olhos pedem descanso, e o coração quer um conforto. Eu penso em tudo que fiz até aqui, faço um draminha. Paro, respiro, e sigo em frente, com a certeza de que dias melhores estão por vir e, olhe bem, isso não inclui plantões nos feriados, porque isso é coisa pra quem ganha bem. Talvez eu chore depois, mas agora deixa sangrar. Deixa o carnaval passar...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

E essa parte é felicidade

Ha pouco mais de uma semana aconteceu algo fantástico. Eu, que já estava colaborando pra coluna do Diego no jornal, fui chamada pelo editor-chefe em sua sala e convidada pra fazer um "teste" no fim de semana pra pular do portal pro jornal. Meu ex-chefinho já tinha me indicado, mas achei que não seria pra agora, porque sinceramente, nunca me acho realmente pronta. Topei o desafio, e, quando estava saindo do expediente no portal encontrei com o editor-chefe novamente, entrando no seu carro. Sorrindo e convincentemente impressionado, ele elogiou muito o meu texto pra "De Boa" e disse um simpático "até amanhã". Foi o dia mais feliz da minha vida.

Aí passa sábado, passa domingo, e até pauta política eu enfrentei. Na segunda-feira, lá estava eu, no meu primeiro dia como repórter de cidade do Jornal O Dia. Mais uma matéria pra De Boa no sábado, e mais uma vez o Mussoline me chama na sala dele. Fico tensa toda vez, não dá pra evitar. E, em meio a tanta tensão, ele me pergunta se o Diego tinha mexido ou mudado o meu texto. Com a minha negação, ele rir meio sério (que é uma expressão meio difícil de fazer, mas quem conhece sabe que é a especialidade do Mussoline), e diz: "Muito bom, muito bom mesmo. Esse começo, nossa, maravilhoso". E eu penso "bom, pelo menos meu novo chefe ler minhas matérias".

Até hoje fico pensando que a qualquer momento o Mussoline vai me chamar na sala dele, me mostrar uma grande e enorme cagada que qualquer um imaginaria impossível de acontecer, vai me demitir e eu vou sair de lá chorando muito. Mas por enquanto, tô curtindo. Todo dia eu aprendo uma coisa nova. Embora elogie, o Mussoline sempre vai mudando uma coisa aqui outra aculá. A maioria erros de revisão, outros, falta de foco, pura herança de portal.

E eu tô feliz. Feliz de um jeito que me preocupa. De repente eu estou fazendo o que sempre quis fazer, onde sempre quis estar. Eu me lembro, no meu primeiro ou segundo período da faculdade, eu indo visitar a redação do jornal O Dia com a minha turma e imaginando "poxa vida, será que um dia eu vou tá aqui?". E lá estou eu agora, com a minha mesinha, meu computador, minhas pautas e minha alegria. E eu tô atingindo meus objetivos muito cedo, então tenho que procurar mais coisa pra querer porque do contrário isso vai começar a perder a graça. Digo, não que eu seja uma pessoa acomodada e quero isso aqui pra sempre. Mas por enquanto, quero só uma cerveja com os amigos pra comemorar a nova fase, nada mais.

E pra quem é da turma do "eu já sabia", meu muito obrigada por todo incentivo e apoio. É por medo de decepcionar vocês que eu não vou desistir. E pra quem não acreditava que a menininha de cabelos vermelhos chegaria lá, a palavra é: reconhecimento.