domingo, 24 de maio de 2009

O domingo mais triste de todos



É, vovó escolheu bem. Domingos sempre são tristes mesmo, né? De alguma forma a gente sempre vai ficar lembrando desse domingo que poderia ter sido mais um daqueles domingos que a gente tomava café com bolo de tardezinha, quando o povo chegava da missa. Mas tudo bem. Quer dizer, bem, bem, não tá não. Mas a gente vai continuar levando daqui, a lembrança daqueles olhos azuizinhos, cor do céu em dia de sol, e de toda a alegria que ela sentia quando via a família toda reunida em dia de festa. Todo mundo de bucho cheio, sentando ao seu lado pra contar o que é que há. Quando criança, me lembro ainda um pouco com pavor da insistência em me dar banho no quintal umas mil vezes por dia. A organização e zelo pelas coisas e terraços sempre limpos. "Essa parede aqui, fui eu quem construi, pedrinha por pedrinha, fui colocando.", ogulhava-se. A preocupação com nossa alimentação e estudos."Eu estudei em colégio de freiras, sou professora formada", dizia ela enchendo o peito e desejando que os netos seguissem o bom exemplo. Nunca vou esquecer todo o esforço e dedicação. Nunca.

Já na velhice, deu pra falar coisas profundíssimas. "Minha filha, você vai ser muito feiz. Você, você é das minhas. Você é daqui. Daqui de casa. Da nossa gente. Você vai arrumar um marido, um homem bom. Mas agora não, agora você é minha", dizia com uma profundidade tão grande no olhar que as vezes me espantava. Pegou o hábito de brincar com os botões do vestido, e recusou umas 10 bolinhas de fisioterapia que quase sempre trazíamos para ela. Por muitas vezes, discutia com o vovô. "Ô que o Sena é horrível! Bruto, bruto, bruto! Véi careca e bruto!", gritava bem zangada, porque ele não a deixava ficar puxando a bermuda dele, o que para ela era uma forma de carinho. Eram o casal perfeito. Ela birrava e ele não escutava. Mas tinham um enorme amor, um pelo outro e os dois pela família. Antes de ir para o quarto, toda a vida no mesmo horário, ela fazia questão de ir avisá-lo. "Seninha, eu já vou, você vai depois?". E a cena se repetiu por 92 anos...

Tinha carência por agarrar nas mãos das pessoas a quem queria bem. E ela só queria bem, bem demais, a todo mundo. "Eu lhe quero muito bem, minha filha. Você e sua irmã. Sua irmã tem meu nome, seu pai botou em minha homenagem. Mas você, você também tem um nome muito bonito. (pausa para reflexão) Como é mesmo o seu nome?" Ela já não lembrava. Mas reconhecia e se sentia confortável com minha presença. Como em tantas noites que acordei com ela conversando no meio da madrugada, e me sentava junto de sua rede para não deixá-la ter medo do escuro. "Eu não gosto de escuro", alertava, e as vezes rezávamos, noutras cantávamos...

E agora cada cantinho dessa casa me lembra os 20 anos em que passei com ela. E amanhã, quando eu não acordar com a briga que ela tinha todos os dias na hora do banho, com a mulher que a ajudava (já não andava, nem comia sem auxílio), vou sentir aquele buraco aqui dentro. Que não vai fechar assim tão fácil não. Todos os dias ao olhar pro vovô, seu companheiro a 65 anos e que sequer teve a oportunidade de ver a esposa pela última vez, eu vou morrer um pouquinho. Mas vou estar firme. Vou sim. Como prometi a mim, como prometi a todos. Mas hoje, não há nenhuma cantiga de ururbu dançador que me faça sorrir.

Hoje, só pelo menos por essa noite, o meu coração tá fechado, vó.

6 comentários:

  1. palavras nesse momento são todas, sem distinção, meio que "sem sentido", nada nem ninguém pode saber a dor que você está passando agora, a dificuldade que foi fazer um texto, postar um video, justo hoje, justo domingo..e talvez seja no silencio que vem o grande conforto, fechar os olhos e ouví-la mais uma vez dizer: "minha filha você vai ser feliz!", imaginar ela agarrando-lho pela perna toda vez que chegava em casa, lhe abraçando e dizendo: "ô minha filhinha"..., ou do dia que ela disse:"amigo? aquele ali mesmo não...é namorado"..., do mais ela está num bom lugar, e orgulhosa da neta que tem... (conte comigo pro que der e vier, PS TeAmo)...

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  2. Lindo texto, Luana,fico admirada da tua força pra escrever alguma coisa tão linda num momento tão difícil. Por outro lado, essas emoções transpareceram no texto e me deixaram arrepiada, tocada, assim, como se eu a conhecesse.
    A relação de vocês é linda e profunda, não vai se perder nunca.
    Sobre o texto é isso. Sobre a dor... não quero falar besteira, me abstenho de qualquer comentário.
    A vida às vezes é injusta.

    Beeeijo
    =*

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Texto Lindo Luh!sei q vc n deve ta mt a fim d conversar nesse momento,mais fikei sabendu do acontecido e n resisti em te escrever algumas coisas aki..pois eh quero q em primeiro lugar tenha forças,pois com certeza sua vó está olhandu por vc num lugar bem melhor q esse aki!!e com certeza ela n quer lhe ver axim triste,quer sua felicidade a todo instante!por mais q eu n a conhecesse,esse texto me tocou mt pois nele mostrou toda intensidade do carinho das duas e tbm pq passei por isso e lembrei do meu avô,mais eh axim mesmo,o tempo conforta a gente e nos mostra o quanto foi maravilhoso ter essa pessoa em nossa vida,para nos ajudar em tudo q precisasse e nos ensinar a cima d tudo!!Com certeza essa relação sua com ela vai ficar pra sempre,pois eh linda e verdadeira...vcx sempre estarão juntas!!

    o q precisar estarei aki!!
    bjaoo =***

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  5. também uma vovó maravilhosa foi embora levando muito de mim. sinto saudades dela e sei o quanto dói sentir saudades de vó. de todas essas coisas, o sorriso fica sempre nas lembranças que estas, mesmo quando são das brigas, em se tratando de vó, não deixam de ser boas. um beijo, menina comigo tão parecida. (:

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