quinta-feira, 5 de março de 2009

Você se foi, você partiu

Querido Felipe,

digo, querido MESTRE Felipe,

faz pouco menos de 3 horas que tu partiu, e eu já tô aqui escrevendo a primeira carta (e eu sei que serão muitas), endereçada a Praia do Futuro. É que quando tu saiu por aquela porta, com aquela mala do tamanho do mundo - e que eu tenho certeza que me caberia lá dentro, era só eu ter emagrecido aqueles 3 quilos - uma pilha de livros velhos - alguns muitos, outros nem tanto - o leãozinho embaixo do braço e uma manta pro caso de fazer frio na viagem, eu senti. Senti sim, naquele abraço, o teu coração apertado. A gente fica aqui se lamentando da falta que tu vai fazer e se esquece que talvez a barra maior vai ser pra ti, que, além de livros, cds, manta e um leão de pelúcia velho e assanhado, tenha que levar na mala também coragem. E muita. Mesmo a gente sabendo que tu já tá quase cearense de tanto que andou por lá esses últimos tempos, a gente se preocupa, sabe? Eu tenho certeza que depois que tu saiu, e a vó foi lá pra dentro do quarto como quem termina de arrumar a bagunça que tu deixou ao finalizar a mala, ela tava chorando. Mas não de pensar que agora vai dormir sozinha a maioria das noites, e que tu não vai tá mais lá por perto pelos próximos anos, pra reclamar da comida, da vida, do som da tv, das coisas que ela compra ou dela te acordar pra alguma coisa. Ela devia mesmo era tá pensando em quem vai lavar tuas cuecas, fazer teu prato na hora do almoço, guardar os melhores pedaços do frango pra ti ou deixar teu sanduíche só no ponto de esquentar no microondas pra quando tu chegar morto de fome daquelas farras infinitas. Mas deixemos o choro da vó de lado, porque ela gosta de chorar sozinha, escondida. (na verdade, eu nunca tinha visto a vó chorando antes de hoje).

Pois bem, então. Eu vim pra casa né? Depois da gente se abraçar e tu perguntar se eu ia te deixar no ônibus - Ôpa, foi mal. Vamos fingir que você foi de avião, pra ficar mais poético - eu respondi 'não, esse é o último', me referindo ao abraço e não ao choro, porque eu sei que ainda vou chorar muito por esses tempos que você tiver fora. É engraçado que as pessoas ficam tentando consolar a gente dizendo que Fortaleza é bem aí, e que agora a gente tem um apartamento na praia pra passar as férias e feriados, como se o tio nunca tivesse morado lá e como se isso fosse a mesma coisa de ouvir quase que todo dia tua palma já tão conhecida aqui em casa e ir abrir o portão correndo, pra tu sair do sol e vim usar meu computador com o pretexto de vir me visitar. Ah, aquelas tardes! Tu mal acabou de partir e isso tudo já parece tão distante... queria eu ter aproveitado mais cada segundo daqueles aqui contigo. Mas não, eu sempre com aqueles sonos mais cretinos do mundo, que me faziam dormir até babar, e às vezes quando abria os olhos tu já tinha até ido embora - e só depois eu via um copo sujo de bananada ou leite com nescau que a De Deus fazia pra ti com tanto carinho.

Mas também não é nem de vitaminas e copos sujos que quero falar agora não. Na verdade, eu queria que você pudesse me ver nesse momento, como tão boba que sou. Quer dizer, que pudesse ver em foco só o rosto e os olhos marejados, de cima pra baixo, diante da tela do computador, em plano americano, como se chama no jornalismo, não precisando mostrar assim o pijama velho e maior que eu uns 2 números que tô usando nessa noite fria.

Choveu até agora pouco. Parecia que tinha alguém lá em cima adivinhando a tristeza da gente aqui embaixo. É impressionante como de repente a casa ficou tão vazia sem tu e as tuas tralhas. Eu fiquei na janela olhando a chuva cair enquanto a mamãe fumava um cigarro e fungava um pouco lá na porta, fazendo planos de te ligar no sábado pra saber como foi a viagem e outras coisas. A vovó lá dentro, como já disse. Aí depois eu vim pra casa, ainda com chuva. Mas não se preocupe, não me molhei. Vim de táxi. E fiquei tentando calcular no caminho quantas vezes a gente teria feito o mesmo percusso de manhã, de tarde, de madrugada, conversando besteira, falando das pessoas e das coisas - e mais das pessoas do que das coisas - e agora ele começava a parecer tão grande e perigoso sem você por perto. Tudo aqui, aliás, vai ficar agora meio grande demais, meio eterno demais, meio sem graça demais. Pode apostar. Mesmo todo munso falando que 2, 3 anos, sei lá quantos vão ser, passam rápido e que quando a gente menos esperar você vai estar aqui de volta. Mas eu sei que não vai ser bem assim, e isso me faz chorar mais do que saudade.

É o diabo do medo. Um medo quase que desesperador que eu sinto de que você não volte mais. E o pior é que isso pra mim já é quase tão certo, que nem me espantaria ligar no fim de semana pra saber como você está e você se dizer ocupado, com uma turma nova de amigos em algum boteco bem massa da cidade e não poder falar muito. Aí você vai conhecer um monte de gente, um monte de gente até melhor que eu, melhor que nós. Pessoas que talvez nem liguem pro fato de você ser de Guaribas - hahaha, brincadeeeeira - e te tratem como o tal, como o MESTRE. O título que você vai conseguir por merecimento, e que na verdade, eu acho bem melhor do que pintor de parede mesmo.

E aí no meio desse grupo vai ter alguém especial por quem você talvez se apaixone, e aí termina os anos de pesquisa, e nós vamos todos ter de convencer a vó de ir para o seu casamento provavelmente em Jericoacoara, ou em algum outro lugar assim que eu não conheço, e convencer a tia Lêda de aumentar a produção de bolo pra poder pagar hotel pra hospedar toda a família, porque até já imagino que não vai caber todo mundo no seu apartemento com dois quartos, sala e cozinha - cozinha do tipo americana, que a gente tanto falava que era boa de fazer reuniões com amigos e macarronadas por causa daquele balcão de mármore, lembra? - O outro quarto poderia até caber as meninas com a Nati e a Rebeca que tanto vão fazer questão de ficar na casa do tio Xilipe, se não tivesse ocupado com tantas coisas que tu comprou com o salário bom que tá ganhando como professor de alguma universidade fodona por lá. Eu vou poder te ajudar a instalar o pc última geração que tu comprou, aí nós vamos rir muito lembrando do sufoco que tu passou pra concluir a monografia no meu tartaruga...

Isso tudo me faz rir e chorar muito, e tudo ao mesmo tempo assim de maneira muito estranha. Porque eu te desejo sim, muita coisa boa. Aliás, todos nós aqui, os Cunha Lopes e os teus amigos, quase Cunha Lopes também de tanta convivência e muita gente até te inveja de tanto amor que tu recebe de uma família até meio pequena. Mas eu queria de verdade mesmo era tu perto da gente, mesmo sabendo que isso é de um extremo egoísmo de nossa parte, mas fazer o que, né? É que agora que tu tá distante eu tenho a sensação de que faltou dizer tanta coisa. Mesmo eu tendo saído do emprego e matado aula só pra ir te dizer alguma coisa mais, e acabei dizendo meio atropelada, diante de tanto chororô. Eu não sei bem se tu ouviu. Era alguma coisa entre escreve com frequência, toma xarope pra essa tosse, dá uma olhada nos e-mails sempre que puder e eu te amo muito e você vai deixar um buraco do tamanho do universo aqui e eu vou ter que rebolar muito pra preencher esse vazio.

Aí eu chorei, chorei bastante. Mais do que na despedida, mais do que no domingo. E fui fazer aquele molho pra salsicha que tu ensinou, cantarolando alguma coisa como 'meu amor partiu', e descobri que o requeijão misturado com o pomarola fica muito mais gostoso que o creme de leite, que deixava até o molho meio adocicado. Hahaha, adocicado me lembrou 'adocica' do Beto Barbosa, que me lembrou os caicais, que me lembrou você dando instruções de como era naqueeeeeele tempo que um cara tinha que fazer pra conquistar uma garota na lambada, hahahaha.

Ah, que merda. Todos vão sentir tanto a sua falta. Até o vovô falou aqui pra mim algo do tipo 'é, o Felipe é um rapaz muito... muito... muito...', é esqueci a palavra, mas era algo como 'interessado' ou 'merecedor', na lingagem do tempo dele. E, enfim, eu não vou saber como compensar isso as pessoas. A mãe ficou pra dormir lá hoje com a vó, não se preocupa. Já tá tendo até briga pelo teu espaço no guarda-roupa e por todo o buracão que tu tá deixando lá. Eu sempre que puder vou passar lá. Vai me partir o coração entrar naquele espaço que é tua cara e não ouvir tua voz cantando no chuveiro naqueles banhos de quase uma hora que me faziam perder a paciência de te esperar pra gente ir tomar uma cerveja ou comer uma pizza ali por perto e ter alguma conversa sobre qualquer assunto que faziam eu me sentir tão entendida como quase ninguém conseguia fazer. Mas eu vou lá, vou sim. Saudade às vezes até que é bom. Me fazem repensar em quase tudo que aprendi e na verdade, no que mais desaprendi contigo e vê o quanto eu fui feliz por ter tido você no meu caminho, na minha família, no meu coração, suprindo toda a necessidade que eu já tive de carinho, afeto e atenção até hoje.

Hoje eu nem sou mais aquela menina mimada e chata, que tu começou a mostrar algumas músicas legais e de repente a gente foi tendo tanta coisa em comum e tantos gostos e piadas iguais que as pessoas quase nem reconheciam quem era quem, mas eu ainda sinto necessidade de aprender um monte de coisa, e gostaria que você pudesse estar por aqui pra me guiar, ser meu exemplo, meu espelho. Por exemplo, essa dor que tá incomodando aqui no peito não vai sair assim tão fácil, e você não me falou que seria difícil quando fez todo esse plano maquiavélico de ir morar na beira-mar, ok? Acho isso muito não válido, seu bandido. Fraude. Espera aí: fraaaaaaaaaaaaaaaaaude. É isso mesmo que tu é.

E já chega de escrever por hoje, porque eu nem tenho mais nada pra dizer mesmo e tá passando da minha hora de ir dormir, coisa que eu não posso fazer, é claro, sem antes trabalhar mais um pouco. Olha, vê se não esquece daquilo que a mãe falou quando tu já ia saindo na porta: se segure na gente, meu filho! Somos sua família e vamos está o tempo todo aqui, caso tudo dê errado e você descubra que na verdade se encantou mesmo foi com brochas, pincéis e suvinis ou mesmo e principalmente se você enrricar aí pelas bandas do Ceará, tá legal? Esquece da gente não, primo.

Sem mais dramas.
Te cuida. Sucesso.

Um comentário:

  1. Chorei muito, aliás ainda estou chorando... por isso não vou comentar muita coisA. OBRIGADO PELO CARINHO. TÔ MORRENDO DE SAUDADES!!!!!!!!!!!

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