segunda-feira, 20 de julho de 2015

Deus é música

Sempre que eu gosto muito de um cantor/cantora/escritor/artista, eu imagino que barato seria ser amiga dessa pessoa. Sentar pra bater um papo com Manoel de Barros na sua oficina de desocupação. Tirar uma selfie com Caetano de cueca. Ligar para Gal pra saber o que é que há. Jogar futebol (eeeeu?) no sítio dos Novos Baianos. Essas viagens. 

Algumas, que é o caso de quem vou falar agora, eu congelo no tempo, no meu desejo medonho e egoísta de ter sido sua contemporânea: Baby Consuelo. Acontece com a Gal também, eu não sei, eu queria ser sua amiga de praia em pleno os anos 70, show Fa-tal, píer de ipanema, etcétera e tal. 

Baby e 4 dos seus 6 filhos. Cantou no Rock in Rio com barrigão de oito meses e era comum parar o show pra amamentar.


Mas eu não sei se bateria o mesmo lance que eu tenho certeza que bateria com Baby. Eu queria ser aquela amiga que a convidou para fugir de casa. Pintaríamos, juntas, os cabelos. E eu veria sua meia dúzia de filhos nascer - quem sabe seria tia-madrinha da Buchinha, ou botaria Zabelê para dormir cantarolando "Acabou chorare".

Loucuras à parte, tudo isso é só para dizer que nada me tocou tanto, artisticamente, nos últimos tempos, do que o show "Baby Sucessos - A menina ainda dança". Eu não queria que isso aqui se transformasse em "crítica de disco", longe de mim. Mas quero tentar ser clara e precisa sobre tudo que senti vendo/ouvindo esse dvd (que aliás, assisti 4 vezes em dois dias).

Baby, maravilhosa <3 td="">

Baby sempre esteve na minha memória musical porque minha mãe sempre gostou muito de cantar - e meu pai tocava algumas coisas do Moraes Moreira, mas ambos desprezavam um pouco a parte Novos Baianos, que vim conhecer e curtir na adolescência. Depois veio o Pedro Baby, quarto filho de Baby e Pepeu Gomes, que eu conheci tocando com a Gal - é ele o responsável por aquela parte que todo mundo chora, no Recanto, com o solo de Vapor Barato.

Aconteceu (pelo menos é como eles contam), que Pedro teve a sacada de convidar a mãe para um show revivendo seus grandes sucessos. Baby, que há décadas não cantava nenhuma daquelas músicas (ela virou pastora, ou "popstora", como ela diz), precisou consultar o senhor seu deus para conseguir o aval, mas ele já estava na voz do Pedro: "Mãe, você acha que deus não ia querer ver um filho tocando com sua mãe?"

E ela foi. E o show é simplesmente LINDO. Pedro convidou uns amigos (Betão Aguiar, no baixo, é filho de Paulinho Boca de Cantor), montou o repertório e é quem dirige o show. Escolheu a dedo as canções e, mesmo mantendo os arranjos originais, pareceu dar cara nova a tudo. No set, algumas que eu amo de paixão (A menina dança, Tinindo Trincando) e todo o lado esotérico de Baby. Ela quis acrescentar o gospel e ele, enfático: "Mãe, repare bem nas suas letras e me diga se não já havia, em todas elas, uma presença divina".

Mãe e filho no show que eu quero mais que tudo ver ao vivo.

Sinto mini arreperios quando ele transforma os versos de "Planeta Vênus" em "Estamos com saudade, Baby" e a plateia, quase totalmente tomada por pessoas da minha geração, que nunca tinham visto a cantora mais porralouca do Brasil cantando aquilo, grita eufórica. É muito bonitinho também quando ele toma um afoxé da mão da Baby em "Sorrir e cantar como Bahia" (essa não entrou pro DVD, mas tem demais no Youtube) e tira ela pra dançar. Apenas muito, muito amor.

Pra ficar tudo ainda mais amorzinho, em setembro, Pepeu Gomes se junta a dupla e o trio, então, vai se apresentar no Rock in Rio. Tudo em família. Queria, assim, pra minha vida.

E Baby continua lá, cantando rouquinha, doidinha, menininha. E Pedro, na sua timidez destemida, toca demais. Agradeço por ter insistido na ideia de trazer Baby de volta de matrix (hahaha) para a gente. No fundo eu sempre soube que, em algum lugar por aí, a menina ainda dança.









terça-feira, 14 de julho de 2015

Perto demais

Ainda tá é longe de acabar, mas se me perguntassem hoje qual foi a maior coisa que o mestrado me ensinou eu diria que foi aprender a ser só. Tal como a escrita, como boiar no mar, como acordar no domingo antes do dia raiar: o processo é quieto e solitário. 

Foi-se um semestre, chegou o fim das primeiras aulas, e já sinto falta dos goles de ânimo que a gente tomava antes mesmo do café. A agonia de ir dormir sem conseguir ler tudo. A perna bamba antes de cada seminário. A constrangedora e inesquecível bronca do meu orientador. O nome do nosso grupo de whatsapp transformado cotidianamente em piada perecível. Eu xingava tudo, mas era um ódio de amor. 

Com o tempo, perto demais virou sufoco. Eu precisei ficar sozinha, respirar, sentir meu próprio tempo das coisas sem tentar acompanhar o ritmo de ninguém. Esse crescimento é meu, não há quem possa vivê-lo por mim e, modéstia à parte, poucos foram os conselhos que me serviram até aqui de algo. E esse foi talvez o primeiro grande baque dessa nova fase. Saber sobre estar só.

Aí sábado eu percebi que era cinco da tarde e eu ainda nem tinha tirado o pijama. Estava praticamente virada, há três dias, lutando com o segundo artigo dos três que devo entregar - resta um agora. A voz do professor ecoa na minha mente: "São ensurdecedores os gritos do silêncio". Passo um dia inteiro sem ouvir minha própria voz. Leio Clarice, volto pra Williams, folheio sem grandes pretensões uma revista. Minha vida está suspensa, sinto falta do agito, da rotina, das coisas banais a que eu dava importância e até da incoerência de achar-me relevante num trabalho inútil.

Quem quiser entrar, que venha.
Mas venha sabendo: é quieto e solitário.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

volte duas casas

quase uma hora da manhã e estou sentada na varanda do meu apartamento alugado, olhando pro céu, pedindo respostas, porque se tudo der errado eu quero ter pelo menos uma estrela cadente para culpar.

chegou aquela parte do caminho que é preciso resolver pra onde virar e eu não encontro as placas, o mapa, a direção. 

com a morte do meu avô, precisei de algo pra manter as tardes e o pensamento livres da tristeza. resolvi estudar pro mestrado. passei, mas entre ser aprovada e começar de fato essa imersão acadêmica, houve um convite profissional que fez minha vida dá um salto em experiência: editar cultura num veículo completamente novo. tudo me foi dado: liberdade, estrutura, apoio e motivação. 

me joguei. mas não deu. não deu porque acho que tenho um sério problema. me envolvi demais com a minha profissão. um relacionamento abusivo, onde ela manda em mim e eu sempre me acho a pior pessoa do mundo pra ela. procuro meios de ser sempre melhor, tenho ciúmes, e quero viver pra ela - sem esse lance de bola dividida. eu me apego as pautas. sou egoísta. cada ideia leva um ano de sofrimento. cada parágrafo tem um pedaço de mim.

minhas matérias não cumprem prazos. elas só ficam prontas quando querem ficar. posso apressar a apuração, a pesquisa, mas os textos têm vontade própria. não obedece meu tempo, não é da minha vontade. como bem colocou um colega de redação: luana virou jornalista por acidente de percurso.

allisson e sávia: obrigada por tudo <3 nbsp="">


estou tirando dois anos para estudar. é a primeira vez em muito tempo que ficarei sem meu trabalho diário. nunca pensei que seria esse drama. é a coisa certa? jamais saberei. sinto uma angústia enorme pelo que vai ficando para trás. ter um trabalho, pagar as contas, lavar os pratos, tornou-se um lugar comum demais pra mim. estou tentando ampliar o pensamento. estou querendo correr mesmo é um perigo.

na segunda semana de aula, quando o prof me pediu um papper cruzando o pensamento dos autores, senti algo que eu não sentia há anos: a aflição da página em branco. nada vinha. pra mim é tão mais confortável lidar com minhas reportagens, onde eu faço as regras, eu escolho o estilo, eu pontuo na hora e se eu quiser. sozinha, com o meu computador, sempre me senti rainha. 

não há um pingo de aflição com pautas, redação, fechamento. tudo isso, de algum modo, eu já domino bem - e aqui me meço com a régua da vaidade. é muito cômodo estar onde todos gostam de mim. é cama macia e tentadora, mas não chegou a minha hora de deitar.

me lanço agora onde não sou ninguém. meus novos monstros são autores, artigos, professores - tem esse pesadelo frequente onde esqueço o que falar, troco teóricos, perco os prazos. e todo dia eu me apavoro. e todo dia me arrependo. e todo dia me apaixono. virei esse poço de inconstância, feliz e triste, ansiosa e com medo. 


eu tentei ser 2. ser 3. 
mas eu só sou uma -  e um milhão de dúvidas. 

ninguém pode ter vergonha de voltar atrás.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Saudade embrulhada pra presente

Quando eu era criança, o mês mais esperado do ano era dezembro – e não era por causa dos presentes de natal ou da comilança. Era porque meu avô me levava numa livraria pra comprar o material escolar do ano seguinte e, como bicho solto, eu escolhia tudo de mais lindo e da moda, do jeitinho que eu queria. Canetas com bolha de sabão. Caderno com cheiro de chocolate. Corretivo multicolorido. E um monte de coisa que, na prática, não surtiam nenhum efeito nos estudos. Mas faziam eu me sentir no colégio.

Cresci uma adulta obsessiva por papelarias. Um pouco desse drama pessoal eu já narrei aqui, nesse post. O certo é que em duas décadas e meia de existência, finalmente, eu descobri como canalizar isso para o bem. Nunca é tarde pra ser um pouquinho menos idiota.

Mês passado, através das cartinhas de Natal dos Correios, conheci Pâmela e Dayron. Ambos estudam num bairro periférico da minha cidade, e, ao invés de bola ou boneca, pediram ao Papai Noel seus kits escolares para o próximo ano. A Pâmela foi meio modinha: queria tudo da Monster High, essas bonecas horrorosas que invadiram a tv, as mochilas e os cadernos. Já o Dayron, mais tradicional, queria tudo da Hot Wheels. A lápis, o menino de 11 anos escreveu: “minha mãe e meu pai não tem condição de compra poriso eu estou tipidino”.

 
Rotiois

Montar os kits de Pâmela e Dayron foi um dos meus maiores prazeres deste ano. Escolhi tudo como para mim mesmo: as melhores canetas, o caderno mais bonito, o estojo temático, e atentei até para os detalhes de borrachas e lapiseira. Em outros tempos eu levaria tudo pra casa, na minha compulsão por esses trecos, entocaria em uma gaveta e provavelmente nunca usaria. Dessa vez eu embrulhei tudo e deixei nos Correios.

Esse é o primeiro Natal sem o meu avô. Não pensem vocês que não dói – a lembrança dele está em cada momento, em todo detalhe, naqueles frames que povoam meu pensamento antes de dormir. Mas nesse tempo de ausência eu entendi que a melhor forma de preservar a memória de uma pessoa, é perpetuar as coisas boas que ela fazia.

Seja onde você estiver, vô, estará no sorriso de Pâmela e Dayron amanhã.

Sinto sua falta. Feliz Natal.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Do amor

Estou escrevendo para que esse episódio não seja confundido com algo desimportante. Porque pra ele, tudo que é importante na minha vida tem que está aqui registrado - é coerente, vindo de alguém que diz ter se apaixonado primeiro pelo meu blog, e só depois decidiu dar alguma moral para a autora.

A história começa em 2006, na faculdade, primeiro dia de aula no curso de Jornalismo. Lembro de, por dedução, escolher sentar próximo as pessoas da minha idade. A primeira coisa que nos mandaram fazer foi entrevistar a pessoa ao lado, afinal, tecnicamente seríamos, todos ali, futuros repórteres. Meu entrevistado de boné, cabelão loiro e sorriso meigo se chamava Mauricio Pokemon.

A vida foi passando e o curso também. Havia amores, desamores, trabalhos, provas, festas, meu cabelo mudou quatro vezes em três anos, mas só o que não mudava mesmo era a minha amizade com o Pokemon. Ele não era o meu amigo da balada, não éramos da mesma turma de bar ou viagens, mas tinha ali uma afinidade que eu nem sabia ao certo de onde vinha. Às vezes pegávamos o mesmo ônibus, às vezes ele me dava uma carona, trocávamos confidências e falávamos mal de deus e o mundo.

Começamos a trabalhar juntos no mesmo jornal, e as caronas passaram a ser mais frequentes. Nesse período, um monstro chamado TCC nos uniu ainda mais - e eram madrugadas trabalhando no projeto de uma revista, discutindo pautas, escolhendo as fotos, fazendo entrevistas, indo atrás de matérias. Um dia, no dia dos namorados e no meio desse turbilhão de trabalho, faculdade e confusão (será mesmo que não estou confundindo tudo?) ele me beijou. E aí, meu amigo, meu coração sossegou.

Foram quatro anos de convivência diária, pra só nos últimos dias perceber que o que havia entre nós era maior do que amizade. Não pense você que foi tudo fácil - de repente eu estava apaixonada pelo meu melhor amigo, mas esse amigo agora parecia um completo estranho. E ele era mesmo, como eu também era e sou, e somos, mudando toda hora, todo dia, sendo outro, mas permanecendo os mesmos. Nossa relação começou assim mesmo, confusa e complexa. Aos poucos é que as coisas foram se encaixando e a gente foi entendendo o que era mesmo aquilo tudo.

No ano passado, tomamos a decisão de morar juntos. Desde o primeiro ano de namoro, planejávamos como seria nossa casa, quantos filhos teríamos, e essas coisas de casal apaixonado. Parecia um troço muito longe, até que um dia eu arrumei a mala e disse "já vou, você vem comigo?". E ele veio.

Desde então eu vivia o pesadelo de não saber se ele estava aqui por ele mesmo ou por mim. Foi uma crise, acho que quando a gente sai de casa amplifica esse negócio de insegurança. Mas eu não era surtada a toa não, tinha muito fundamento na minha angústia: tudo tinha saído do plano, o ap era alugado, ninguém tava assim tão estável no trabalho e não havia, por hora, possibilidade de falar em casamento.

Sim, eu sempre fiz questão. Uma coisa sobre mim que pode te chocar agora, parecer piegas, mas é a verdade: eu. sempre. quis. casar. E o Mauricio sempre foi sensível o suficiente pra perceber isso, mas eu não sei o que acontecia que o pedido não vinha. Virei aloka do anel - procurava na mala, quando ele chegava de viagem, ou se marcávamos um jantar rotineiro eu já me arrumava pensando: "vai ser hoje". E não rolava.

Uma nota de esclarecimento: em minha defesa digo que acho tudo que envolve histórias de amor algo extremamente emocionante. Eu choro assistindo "Chuva de arroz". Acho casamento uma cerimônia belíssima, sonhava em viver isso desde que tinha oito anos e brincava de barbie. Eu nunca me importei exatamente com os rótulos - "noiva", "noivo", "marido", "namorado" - porque acho que quando rotulamos esquecemos de olhar a pessoa que há por trás dos rótulos. Graças a deus a sociedade, em tese, não te cobra mais nenhum tipo de explicação e você não tem mais que casar por conveniência ou pra explicar uma gravidez acidental, mas mesmo assim as pessoas continuam se casando. Isso não é maravilhoso? Num mundo tão maluco e cheio de ódio, não é bonito ver que as pessoas ainda se casam pelo simples desejo de ficarem juntas "pra sempre"?

Voltamos, agora pra outubro de 2014, quando eu tirei férias do trabalho pra estudar pro mestrado, descansar e curtir uma praia. Deixei tudo nas mãos do Mauricio, que reservou um hotel maravilhoso e realizou esse desejo que eu tava de rede, mar, sol e dele. Fomos cair na água, um belo dia, antes do almoço, e de repente, no meio daquela imensidão do mar, longe de tudo e de todos, surge um anel, como se tirado duma concha. Ele bota no meu dedo e diz: "Quer casar comigo?".




Eu achava que as pessoas que choravam em pedidos de casamento eram ridículas.
Eu fui uma ridícula que engolia ondas.

Depois daí eu não lembro mais de muita coisa numa sequência lógica. Saímos pra jantar, bebemos champanhe, dançamos danças esquisitas na escuridão da noite até cairmos exaustos na areia.


Nesse dia, eu finalmente fiz as pazes com a felicidade.








quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Cair e levantar

Eu demorei pra voltar aqui porque nos últimos dias enfrentei uma bad le-gal. Uns dias sem querer sair da cama, uma preguiça do mundo, um choro incontido na madrugada ouvindo Solitude porque eu sou dessas.

Ninguém nunca me explicou o que é a maturidade, mas eu acho que é essa fase de aceitação pessoal na qual começo a entrar. E tá escrevendo aqui a pessoa que comeu krokitos no jantar mas que assume a sua culpa. Porque tudo na vida é consequência do que eu faço ou deixo de fazer - e, a não ser que você seja ryco bem novinho, não tem ninguém pra ir limpando as merdas que você faz. Você, somente você, é o responsável por tentar qualquer mudança na vida que você vive. Tem uma parcela aí  de fé, de deus, de sorte ou destino, mas não vamos entrar nessas questões, seja lá no que você acredite. Estou falando mais da parte realista e prática da vida, aquela entre pagar as contas, lavar os copos e se sentir adulta por pintar a parede da sala sem comunicar a ninguém.

Tá foda não ter com quem dividir esses pepinos do dia-a-dia, não ter quem abraçar na hora de dormir. Claaaaaro que eu tô sentindo falta do Maurício. Mesmo com tudo desabando, meus dias ficam melhores com a sensação de que ele pode ser achado no google maps, que o celular tem área e que está online no whatsapp. 

Profissionalmente, meu estado é confuso. Queria voltar a estudar, trabalhar menos, ganhar mais. É um triângulo difícil de fechar, principalmente quando o tempo não tá mais tão assim a seu favor e qualquer curso de três meses pode fazer toda a diferença nessa equação. Chegou a hora de investir no mestrado? Tentar ter filhos? Mudar de cidade? Casar? Comprar uma bicicleta? Na dúvida, eu fui dançar zumba, que não estava no script mas que tem sido um barato.

Quando eu tô nessas crises, que podem levar dois, três dias ou até um mês (fique atento a persistência dos sintomas), me ajuda pensar nas pessoas que me inspiram e tentar agir como elas agiriam. Em geral é difícil mesmo, porque as pessoas têm tempos e limites diferentes, mas tem dado certo até agora. No embalo da vida, não dá pra ficar refletindo muito. É correr buscando coragem e leveza - nada ruim pode durar tanto.

Acreditando que seguir em frente é sempre a melhor opção, eu fui. Mas acho que acelerei o passo demais. Como uma rasteira da vida, eu levei uma queda digníssima no meu trabalho - com direito a vídeo, plateia, e povo mangando.

NA TELAAA:


O chão é um lugar absurdamente horrível de ficar - quando se chega a ele sem querer. Você olha para os lados desconcertada e pensando 'como diabos eu vim parar aqui?'.

E, às vezes, mesmo que ninguém lhe estenda a mão, é preciso aprender a levantar.






segunda-feira, 18 de agosto de 2014

minha casa


Este texto não é mais pra falar dele, e sim, dela. 
Ou dos dois.

Porque ele e ela se confundem pra valer dentro de mim.

Na última semana recebemos a notícia de que a casa do meu avô seria fechada. Para sempre. As meninas que trabalharam com a gente por uma vida inteira ligaram para dizer adeus. Mas uma história inteira de vidas que se cruzaram assim não acaba num telefonema. 

Resolvemos fazer um almoço despedida - que não deveria, necessariamente, ser encarado dessa forma. Era um almoço como mais um daqueles, rotineiros, em que eu sempre chegava atrasada, a De Deus atarantada colocando a mesa, vovô saindo do banho contente em nos ver e a Mirinha buzinando no portão. Comemos, sorrimos, relembramos casos e piadas e por alguns instantes eu podia jurar que ele estava ali.

As meninas me contaram que durante os três meses que vovô passou no hospital elas seguiram, todos os dias, realizando as mesmas coisas que faziam para ele: a cadeirinha de balanço em frente à TV, que ligavam no programa preferido dele e a janela fechada dois dedinhos, pra não entrar muito sol, exatamente como ele pedia. Nessa hora eu quis chorar, porque achei bonito a dedicação e o carinho que todas tinham por ele.




No fim do almoço caminhei pela casa. O cheiro, a luz, as cores. A parede de pedrinhas que minha avó construiu, colocando uma a uma. Os azulejos. O oratório. O birô do escritório, onde vovô colecionava, com orgulho, fotos dos netos e suas conquistas. O quarto onde passei minha adolescência  - recebi amigos, sorri, chorei, passei noites em claro, noutras dormi até não querer acordar. E de manhã cedinho seu Sena vinha bater à porta me chamando pra tomar café. Arrependi amargamente as vezes em que preferi dormir a atender o chamado de meu avô. Eu merecia uma pisa. 

Estava contando para minha sogra, dia desses, que a ausência do vovô naquela casa me deixava sem chão. Sem referência, sem abrigo, sem amparo. Era prali que eu ia pra escapar do trânsito, pra tomar café com peta, pra onde eu corria quando tudo dava errado, e quando dava certo também. Sentar na cadeira ao lado dele, apertar a sua mão e roubar um pouquinho de paz.

Não tinha hora ruim, era só chegar. Ele sempre me recebia com um sorriso alegre dizendo: "você está em casa". E, não era só uma maneira de falar, eu sabia. Ali era a minha casa, ele era a minha morada. 




Naquele jardim nós sentamos várias vezes, à tardinha, pra ver o tempo passar. Naquele terraço eu aprendi a caminhar, a correr, a andar de bicicleta, a balançar numa rede em um dia preguiçoso, a estudar, a chegar de festa escondida na ponta dos pés. Sem dúvida nenhuma um lugar de memória, minhas histórias, as lembranças que um dia eu vou querer contar sorrindo, quem sabe, sentada à porta de minha casa. E espero, em algum lugar desse mundo tão grande, me sentir tão feliz e segura como eu me sentia ali, naquela casa - a casa onde eu sempre morei.